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31/10/2007
A Defesa do direito à educação passa pela defesa do serviço público Rémy Herrera * Centre d’Economie
de la Sorbonne (pdf); retirado de ODiario.info Este artigo sobre o direito à educação está na origem
de uma declaração escrita apresentada pelo Centro Europa Terceiro Mundo
(CETIM) aquando da 4ª sessão de Março de 2007 do Conselho dos Direitos do
Homem da Organização das Nações Unidas (ponto 2: aplicação da resolução
60/251 da Assembleia Geral de 15-03‑2006, cota ONU: A/HRC/4/NGO/18). A
educação é uma das chaves de estratégias do desenvolvimento bem sucedidas e
um meio para realizar os objectivos de socialização, de desenvolvimento do
ser humano e de igualdade. Os princípios fundadores destas políticas são o
seu carácter público, o seu universalismo e a sua gratuitidade. Trata-se de
construir um mundo baseado no reconhecimento do estatuto não mercantil da
educação, dos saberes científicos e das produções culturais. PRIVATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO OU PRIVAÇÃO DE EDUCAÇÃO? O direito à educação é universalmente reconhecido, seja pelas organizações
internacionais especializadas, seja pelos governos dos países membros. No
entanto, na prática, continua sem efectividade na maior parte dos países,
sobretudo no que respeita à escolarização das raparigas. A educação primária
universal está inscrita no Pacto internacional relativo aos direitos
económicos, sociais e culturais [1], e, com a igualdade entre rapazes e
raparigas, representa um dos Objectivos do Milénio para o Desenvolvimento
formulados pela Organização das Nações Unidas [2]. Entretanto, os meios
disponibilizados para tentar atingir estes objectivos continuam a ser
limitados, enquanto que os discursos continuarão como intenções piedosas, por
tanto tempo quanto as políticas neoliberais, impondo aos países do Sul
reduções orçamentais e de efectivos no sector educativo público, com as
consequências nefastas decorrentes (rigor salarial, flexibilização dos
contratos de trabalho, degradação das infra‑estruturas, sobrecarga das
turmas…), porão em perigo nesses países o direito à educação e, de modo mais
geral, o direito ao desenvolvimento nas suas dimensões económicas, sociais e
culturais. Frequentemente, a
promoção da educação não é proclamada necessária senão na medida em que possa
conduzir à sua privatização. Posto em xeque, contestado, o painel educativo
das políticas neoliberais continua no entanto a ser aplicado, nas suas
diferentes variantes. Um dos aspectos mais surpreendentes destas políticas
tem a ver com a prioridade dada ao financiamento da educação privada pelo
Estado. Fundos públicos são massivamente utilizados para distribuir “vouchers” (cheques‑formação)
destinados a ajudar os estudantes a pagar os seus estudos em escolas
privadas, para financiar a contratação de serviços junto de fornecedores privados
ou para apoiar, por meio de subvenções e de reduções de impostos, as
universidades privadas que aumentam a sua capacidade de acolhimento. Na era
da globalização neoliberal, o Estado é sobretudo mobilizado na educação em
proveito do sector privado. O total das despesas mundiais de educação
ultrapassa actualmente 2.000 biliões de dólares estado-unidenses [3]. Os
lucros esperados pelas firmas transnacionais duma mercantilização mais
acentuada do sector são gigantescos. Na maioria dos países do Norte, os sistemas educativos foram
segmentados e funcionam cada vez mais “a duas velocidades”. Nos países do
Sul, submetidos aos planos de ajustamento estrutural, o crescimento das taxas
de escolarização das crianças no ensino primário e secundário tem sido frequentemente
acompanhado do das taxas de abandono entre os alunos mais pobres – desde a
primária. A massificação do acesso à educação não significou a
“democratização” da escola, onde permanecem as desigualdades. Os efeitos da
privatização da educação são os mais negativos para os mais pobres, excluídos
do sistema. Os mercados privados privam os pobres dum acesso real aos
serviços educativos, como também da satisfação de outras necessidades
básicas: água, alimentação, saúde… Uma discriminação operada pelo Estado
relativamente ao sector educativo público, corre o risco não só de
desincentivar os jovens de prosseguirem os seus estudos, mas igualmente de
encorajar as divisões entre alunos de acordo com critérios sócio-económicos
e/ou certos particularismos, tais como a origem, a cor ou o credo. O APOIO DA TEORIA ECONÓMICA DOMINANTE AO NEOLIBERALISMO Esta tendência à
privatização da educação fundamenta-se, na teoria económica actualmente
dominante – a economia neoclássica –, na ideia de que a educação seria um bem
privado e deveria ser custeado pelos indivíduos. Recordemos que a ambição dos
neoclássicos é compreender os factos socio-económicos a partir dos
comportamentos maximizadores do homo oeconomicus. Centro deste paradigma, a teoria do equilíbrio
geral dos mercados tem por fim determinar o modo segundo o qual podem ser
coordenadas as escolhas, supostamente livres, racionais e determinadas pelo
interesse pessoal, de numerosos agentes que efectuam trocas. Contrariamente
aos bens produzidos pelo mercado, para uso privado e cujas trocas são
mediatizadas por meio de preços, um certo número de bens, designados bens
públicos, apresentam a especificidade de serem objecto dum consumo colectivo.
Por natureza, estes bens não podem ser produzidos nem atribuídos pelos mercados.
A sua produção deve ser confiada ao Estado. O conhecimento faz parte desta
categoria de bens. A educação é antes de mais considerada como geradora de
externalidades positivas para a colectividade. O conceito de externalidade
designa uma interdependência directa entre agentes sem compensação monetária
através de preços de mercado. No caso de externalidades, a teoria neoclássica
aceita a intervenção do Estado por razões similares às avançadas para os bens
públicos: assimiláveis a bens sem preço (ou a preço nulo), e no entanto
abundantes, as externalidades provocam um excesso de procura e uma
insuficiência da oferta, exigindo que o Estado as tome a seu cargo, uma vez
que os ajustamentos através dos preços deixam de funcionar. Não obstante esta
tolerância da intervenção pública no elemento da teoria, a maioria dos
economistas neoclássicos pronunciam-se em geral, de maneira realmente
ideológica, a favor da educação privada. Milton Friedman (Prémio Nobel 1976)
abriu o caminho, defendendo que a intervenção do Estado além dos serviços
educativos espontaneamente oferecidos pelo mercado «não é necessária». Difundida a partir dos
anos 1960 pelo economista neoclássico Gary Becker (Prémio Nobel 1992), a
teoria do capital humano é uma análise micro-económica do comportamento de
formação. Esta teoria considera a educação como um investimento num capital
particular, indissociável do indivíduo que decide formar-se, por um cálculo
dos rendimentos que esta formação lhe trará no futuro, graças ao aumento da
produtividade do seu trabalho. Esta teoria é muito criticável. Primeiro,
compara a educação a uma mercadoria, susceptível de ser acumulada em função
de mecanismos de preços de mercado. Esta análise foi sobretudo utilizada para
combater a gratuitidade da educação, com o motivo de que a ausência de venda
a preço de custo não podia senão acarretar o enfraquecimento do sector
público. Depois, esta teoria postula uma cadeia de relações de causalidade
entre formação, produtividade e receitas. Ora, estas relações estão longe de
ser verificadas na realidade, pelo facto da existência de disfunções nos
mercados de trabalho (desemprego, sector informal, discriminações...), de
evoluções divergentes entre produtividades e remunerações, e de possíveis
diferenças de salários para níveis similares de produtividade. Por fim, esta
teoria perde-se na ficção da liberdade de escolha individual dos agentes, que
esconde as relações sociais de dominação. Legitima as desigualdades de
rendimentos, justificando-as pelas diferenças de produtividade do trabalho,
por sua vez explicadas por diferenças de níveis de qualificação, portanto, in
fine, pelas “preferências” mais ou menos
elevadas dos indivíduos pela educação. Os ricos merecem sê-lo porque fizeram
a escolha de estudar – sem serem remunerados durante os seus estudos. O
problema é que os pobres não só não dispõem dos meios para financiar os seus
estudos, como também não têm outra escolha senão a de venderem a sua força de
trabalho para sobreviverem. O conceito micro-económico de capital humano é também utilizado pelos
neoclássicos, na sua nova teoria do crescimento, para explicar os motores do
progresso técnico. Esta teoria macro‑económica explica o crescimento de
maneira endógena, sem factores exógenos, em particular graças à acumulação
dos conhecimentos ou de capital humano pelos agentes privados, reagindo aos
preços de mercado e motivados apenas pelo lucro. Esta visão da educação
corresponde à do projecto neoliberal [4]. Reconhece, é certo, o papel motor
do saber no crescimento económico, mas nega ao mesmo tempo a sua natureza de
bem público ou de património comum da humanidade, bem como a sua dimensão
colectiva e social de partilha, para o reduzir a uma mercadoria apropriada e
remunerada de forma privada. É esta a contradição na qual se encerra Robert
Lucas (Prémio Nobel 1995), conhecido pelos seus trabalhos sobre o papel do
capital humano no crescimento. Segundo ele, o Estado não deveria ser chamado
a não ser para apoiar a regulação do mercado da educação pelo capital
dominante e para estimular a acumulação privada do saber numa lógica de
lucro. SABER E EDUCAÇÃO SEGUNDO O BANCO MUNDIAL Estas análises micro e macro‑económicas serviram de base
teórica às recomendações do Banco Mundial em matéria de educação e de saber
[5]. Segundo esta instituição, o «bem-estar económico e social» passaria pela
abertura à “livre troca”, e, no seio de cada economia, pela “livre
concorrência”. No domínio que nos ocupa, a sua estratégia engloba três eixos
principais: 1. Privatizar os sectores da informação e das telecomunicações: «o
acesso a estes serviços esbarra em monopólios de Estado ineficazes e em
regimes regulamentares que travam a oferta. (…) É possível suprimir estes
bloqueios. (…) Para tal, é necessário adoptar um regime regulamentar que
favoreça a concorrência [cuja ampliação deverá] preceder a privatização». 2. Desmantelar a investigação pública para a submeter às leis do
mercado: «para encorajar os laboratórios públicos a responder às necessidades
do sector produtivo, [convém] transformar os institutos de investigação em
sociedades por acções». 3. Promover a educação privada: «é preciso encorajar o
desenvolvimento da educação (…), a melhor forma de proceder é apoiar a acção
do sector privado, (…) incentivar o sector privado a investir massivamente no
ensino» – incluindo a obrigação de «ajudar os pobres a pagar os seus
estudos». O Banco Mundial consegue assim a proeza de gerir ao mesmo tempo o
objectivo de impulsionar o «mercado do saber» e o da «redução das
desigualdades face ao saber» sem sequer aflorar a ideia duma luta contra as
desigualdades de riqueza entre classes e entre nações, passando por políticas
redistributivas. A recomendação de
acesso à educação de base formulada pelo Banco Mundial explica-se fundamentalmente
pelo facto de se tratar, segundo os seus especialistas, do lugar privilegiado
do investimento em capital humano, e portanto também, pelos seus efeitos de
produtividade e de rendimento, de um dos mais poderosos vectores de redução
da pobreza e de mais equidade. Esta é definida pela «igualdade das
oportunidades», ou seja, não como um investimento igual, mas como iguais
oportunidades de investir [6]. É na base desta argumentação que o Banco
Mundial dirige os seus ataques contra as intervenções do Estado, que define
como autoritárias e uniformizadoras, mas também contra as organizações
representativas dos professores. Estas críticas conduzem (o BM) a advogar o
estabelecimento de acordos de partenariado público-privado, através dos quais
o perímetro do sector privado é ampliado muito para além dos pais, das
comunidades e das organizações não governamentais, para integrar também as
transnacionais, que dispõem de meios de condicionar as opções nacionais e de
aprofundar o neoliberalismo. Segundo o Banco Mundial, os princípios que devem
orientar estes partenariados são a participação, a escolha do público-alvo e
a descentralização [7]. Estes princípios devem, no entanto, ser objecto de
uma reformulação, pois o conceito de “capital humano” pode ser interpretado
de forma diferente da teoria neoclássica ou da definição que dele dá o Banco
Mundial: não já para reduzir a capital o trabalho qualificado, mas para
rentabilizar o desenvolvimento integral da pessoa. Não basta destruir a
máquina de guerra neoliberal de privatização da educação; é preciso também
definir os fundamentos de políticas educativas alternativas. POR UM EFECTIVO DIREITO
À EDUCAÇÃO BASEADO NO SERVIÇO PÚBLICO A participação deve
dizer respeito, antes de mais, aos professores, convidados a avaliar o
trabalho realizado, a definir os problemas mais urgentes, a reflectir sobre
os meios de os resolver e de formular colectivamente propostas dirigidas às
autoridades de tutela. Informações e sugestões devem ser largamente
difundidas, discutidas. O envolvimento dos alunos e dos seus pais deve ser
tão activa quanto possível para melhorar a qualidade do sistema educativo.
Não haverá real participação que não seja organizada pelas próprias bases. O
tratamento preferencial das populações mais desmunidas deve ser
particularizado por assistências personalizadas, que venham reforçar um
sistema de segurança social já universalizado. É necessário encontrar um
equilíbrio entre uma descentralização necessária, respeitando as diferenças
culturais, e a indispensável centralização do sistema educativo e da política
social desenvolvida pelo Estado, condição necessária para a redução efectiva
das desigualdades e para um desenvolvimento na equidade. Este não terá
sentido nem dimensão se não se inserir na procura de objectivo de igualdade.
A igualdade de oportunidades deve ser o meio para realizar a igualdade das
condições, e não um fim em si [8]. Todos os alunos devem, por isso,
beneficiar de condições de educação idênticas, através de um nível homogéneo
de preparação em todas as escolas a que têm acesso, e isto independentemente
da sua origem, confissão, lugar de residência, situação familiar, ou do lugar
ocupado pelos pais na divisão do trabalho. A educação é uma das
chaves das estratégias de desenvolvimento bem sucedidas e um meio de realizar
os objectivos de socialização, de desenvolvimento do ser humano e de
igualdade. Os princípios em que devem assentar as políticas educativas
democráticas são o seu carácter público, o seu universalismo e a sua
gratuitidade em todos os níveis de ensino. Trata-se aqui de construir, não
apenas melhores sistemas educativos em termos de acesso e de qualidade, mas
também um mundo baseado no reconhecimento do estatuto não mercantil da
educação, dos saberes científicos e das produções culturais. Apesar da
rarefacção dos recursos, os problemas devem ser ultrapassados sem
privatização, e sem pôr em causa o carácter público, universal e gratuito da
educação. A defesa do direito à educação passa pela defesa do serviço
público. ______ * Remy Herrera é Professor da Universidade de Paris 1,
Pantheon-Sorbone, França, membro do CNRS, amigo e colaborador de odiario.info. [1] Artigo 13 do Pacto. [2] ONU (2005), Objectivos do Milénio para o Desenvolvimento –
Relatório 2005, New York. [3] Ver: Alternatives Sud
(2004), L’Offensive des
marchés sur l’université, CETRI et L’Harmattan. [4] Herrera, R. (2006), “The Hidden Face of Endogenous
Growth Theory”, Review
of Radical Political Economics, vol. 38, n°. 2, pp. 243-257, New York. [5] World Bank (1999), World Development Report, Washington
D.C. [6] World Bank (1999), Education Sector Strategy, Washington
D.C. [7] Ler: Mulot, É. (2001), “De la Compensation à la réforme sociale”,
Revue Tiers Monde, n.° 168, Paris. [8] Bayart, P., R. Herrera e É. Mulot (2006), “L’Éducation dans la
révolution”, Cahier de la
Maison des Sciences économiques de l’Université de Paris 1, Série rouge du
MATISSE, n°. 33, 21 p., Junho. |