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Mundo

30/10/2007

 

Pela 16ª vez, ONU pede o fim do bloqueio a Cuba

 

Marco Aurélio Weissheimer

Carta Maior

 

Nova resolução aprovada nesta terça-feira pela Organização das Nações Unidas pede que EUA suspendam embargo económico, comercial e financeiro que já dura há quatro décadas. Medida fere Carta da ONU e direito internacional.

 

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou, nesta terça-feira, pelo 16° ano consecutivo, uma resolução para pressionar os Estados Unidos a suspender o seu embargo de quatro décadas contra Cuba. Intitulada de «necessidade de encerrar o embargo económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América a Cuba», a resolução foi aprovada com 184 votos a favor, quatro contra e uma abstenção.

 

A medida não teve nenhum impacto na política norte-americana nas ocasiões anteriores e o mesmo deve ocorrer agora. Na semana passada, o presidente George W. Bush rejeitou qualquer relaxamento das sanções sem que haja o que denominou de «transição democrática completa no país». Segundo Bush, o fim das sanções apenas incentivaria a permanência do actual governo no comando da ilha.

 

«ARROGÂNCIA UNILATERAL»

 

O relator especial de Direito à Alimentação da ONU, Jean Ziegler, condenou o embargo realizado pelos EUA contra Cuba, qualificando-o como uma «arrogância unilateral» e um ataque à ordem internacional. Em matéria de alimentação, destacou Ziegler, Cuba lida «com muita criatividade com as limitações e com o sofrimento que o bloqueio ocasionou», o qual, segundo dados do governo cubano, já provocou perdas de 89 mil milhões de dólares em mais de 45 anos de vigência.

 

O bloqueio total do comércio entre EUA e Cuba foi decretado formalmente mediante uma ordem executiva do presidente John F. Kennedy, no dia 3 de Fevereiro de 1962. No entanto, as medidas punitivas contra a ilha começaram poucas semanas depois do triunfo da Revolução Cubana, em 1 de Janeiro de 1959. No dia 12 de Fevereiro daquele ano, os EUA negaram a concessão de um crédito para Cuba manter a estabilidade da moeda nacional.

 

Posteriormente, foram sendo aplicadas outras medidas, como a restrição do fornecimento de combustível pelas empresas transnacionais norte-americanas, a paralisação de plantas industriais, a proibição de exportações para Cuba e a supressão parcial, e depois total, da quota de açúcar. Todas essas medidas tinham como objectivo asfixiar economicamente a recém-nascida revolução cubana.

 

Em função do bloqueio, Cuba não pode, entre outras restrições, exportar nenhum produto para o mercado norte­‑americano, nem receber turistas vindos dos EUA. Além disso, não tem acesso a créditos e nem pode utilizar o dólar nas suas transações com o exterior. Os navios e aviões cubanos estão proibidos de tocar portos e aeroportos dos EUA. Essa política tem um carácter extraterritorial, uma vez que impede importações de subsidiárias norte-americanas instaladas em outros países e sanciona investimentos estrangeiros em Cuba.

 

OS ALIADOS DOS EUA: ISRAEL, PALAU E ILHAS MARSHALL

 

A resolução aprovada pela ONU exortou «mais uma vez todos os Estados a absterem-se de promulgar ou aplicar o embargo e aos que o aplicam a deixar de o fazer, em conformidade com as obrigações que lhes impõem a Carta (das Nações Unidas) e o direito internacional que, nomeadamente, consagram a liberdade de comércio e de navegação». Como ocorreu em 2006, além dos EUA, Israel, Palau e ilhas Marshall votaram contra a resolução. Já a abstenção ficou por conta da Micronésia.

 

As resoluções da Assembleia Geral da ONU não têm efeito vinculativo. No caso do bloqueio a Cuba, reflectem a crescente e maioritária oposição internacional à política patrocinada pelos EUA. A cada ano que passa o bloqueio vem sendo condenado por uma maioria crescente de Estados. Quando a primeira resolução foi apresentada, em 1992, obteve apenas 59 votos a favor. Subiu para 179 em 2004 e 183 em 2006.

 

Representantes de vários países manifestaram-se contra o bloqueio. O embaixador da Venezuela, Jorge Valero, disse que as recentes manifestações de Bush, rejeitando o fim do bloqueio e defendendo a mudança de regime na ilha, representam uma «nova e vã tentativa de derrotar a revolução e reconquistar Cuba». Já o representante do Egipto, Maged Abdelaziz, falando em nome dos países não-alinhados [1], disse que o embargo «além de ser unilateral e contrário à Carta da ONU, ao direito internacional e ao princípio da boa vizinhança, está a causar danos materiais e económicos ao povo de Cuba».

 

O grupo dos 77, através do representante paquistanês Farukh Amil, também pediu que os EUA «substituam a política de embargo pelo diálogo e pela cooperação». O Brasil também votou favoravelmente o fim do bloqueio comercial contra a ilha.

 

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[1] Cuba preside, neste momento, ao Movimento dos Não Alinhados (n. IA).