Informação Alternativa

Mundo

Novembro 2005

 

Alinhamento da Europa com os Estados Unidos

 

Caroline Pailhe *

Le Monde diplomatique

 

Aquando da sua visita a Paris, em Setembro de 2005, Daniel Fried, secretário de Estado adjunto norte­‑americano encarregado dos Assuntos Europeus, regozijou com a «mensagem de determinação» enviada ao Irão pela União Europeia, por considerar que «era a mensagem que convinha enviar». Louvando o realismo e a determinação da França, «que não tem vergonha do uso razoável da força», Fried sublinhou que Washington «quer uma Europa forte, que se afirme, não como um contrapeso ou um rival [dos Estados Unidos], mas como um parceiro no mundo» [1]. É verdade que, desde a declaração feita em Março de 2003 pelo presidente George W. Bush sobre o fim das hostilidades no Iraque, os europeus não desperdiçaram qualquer oportunidade de tranquilizar o parceiro transatlântico quanto à convergência dos interesses securitários de ambos, sem proporem uma agenda própria. E o dossiê nuclear iraniano, que há mais de dois anos preocupa a comunidade internacional, constitui um dos primeiros testes a tal renovada parceria, na qual europeus e americanos trabalham em dupla, segundo o modelo do “polícia bom” e do “polícia mau”.

 

Nas negociações com Teerão, a troika que reúne a Alemanha, a França e o Reino Unido funciona, é um facto, com mais paciência do que Washington, mas fá-lo com os mesmos instrumentos, em torno do continuum “diplomacia, ameaça de sanções, ameaça de uso da força”. Trata-se de uma política que visa, afinal, objectivos idênticos: impedir um Estado considerado hostil de desenvolver qualquer ciclo nuclear autónomo, mesmo que civil, apesar de o mesmo ser autorizado pelo Tratado de Não Proliferação (TNP) e de ser realizado sob o controlo reforçado da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

 

Segundo o Acordo de Paris de 15 de Novembro de 2004 que a troika assinou com o Irão, as negociações tinham dois objectivos precisos. Os iranianos deveriam «fornecer garantias objectivas de que o [seu] programa nuclear tem uma finalidade estritamente civil», e os europeus deviam dar «sólidas garantias em relação a uma cooperação nuclear, tecnológica e económica, bem como sólidos compromissos na área da segurança». Como prova de boa fé, Teerão decidiu unilateralmente interromper temporariamente todas as actividades ligadas ao enriquecimento de urânio enquanto durassem as negociações e continuar a aplicar, mesmo antes da sua ratificação, o Protocolo Adicional da AIEA assinado em Dezembro de 2003 [2].

 

No entanto, em Agosto de 2005, os europeus propuseram ao novo presidente Mahmud Ahmadinejad um acordo que se resume, segundo um diplomata europeu, a «uma bela caixa vazia revestida com muito papel de embrulho» [3]. Ainda que a proposta preveja a continuação do diálogo e uma possibilidade de cooperação em várias áreas, as promessas que inclui são vagas, sendo as exigências, em contrapartida, muito pesadas para o Irão [4]. Assim, a Europa exorta Teerão a abandonar definitivamente as actividades de enriquecimento e retratamento do urânio, sem dar qualquer segurança no que se refere à possibilidade de aprovisionamento em combustível nuclear – necessário ao desenvolvimento do programa nuclear civil – no exterior das fronteiras iranianas.

 

A posição europeia alinha-se claramente com a de Washington e Telavive. A única «garantia objectiva de que o programa iraniano tenha uma finalidade estritamente civil» corresponde, para os negociadores ocidentais, à cessação permanente das actividades de enriquecimento e de retratamento do urânio e do plutónio por parte do Irão, actividade no entanto coberta pelo artigo 4 do TNP.

 

Por fim, os europeus não fizeram mais concessões no que se refere às garantias exigidas por Teerão em matéria de segurança, tendo-se contentado em reafirmar as obrigações internacionais nesta matéria. A nível regional, ainda que tenha formulado o seu apoio a um Médio Oriente isento de armas de destruição maciça, em conformidade com a Resolução 687 do Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptada em 1991 no contexto da Primeira Guerra do Golfo, o facto é que a proposta europeia nada diz sobre os pontos concretos que permitiriam atingir tal objectivo. No entanto, toda a lógica aponta para que o dossiê iraniano não pode ser resolvido sem tranquilizar Teerão no que se refere à oposição a um eventual golpe de força e sem se encarar seriamente o desarmamento de toda a região, cuja instabilidade é conhecida e reforçada pela presença em Israel de duas centenas de ogivas nucleares, isentas de qualquer controlo.

 

A União não tem vontade política de oferecer compensações significativas a fim de inflectir os objectivos de Teerão e de construir um compromisso. Isto acontece porque a crise não se joga unicamente ao nível do dossiê nuclear, antes implicando vários aspectos políticos e estratégicos cuja chave não se encontra na Europa mas em Washington. E a Casa Branca não negoceia com um «Estado pária», nem com um «posto avançado da tirania», antes defendendo uma «mudança de regime», se necessário pela força.

 

Ora, os europeus, considerando estarem esgotados os recursos da diplomacia, e apoiados pelos Estados Unidos, endurecem o tom e, virando-se para medidas coercivas, ameaçam levar o dossiê ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quanto à acção militar preventiva tão cara à actual administração americana – para quem «todas as opções estão em cima da mesa» –, ela está longe de ser «inconcebível» no quadro da União Europeia, como pretende o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros Jack Straw [5].

 

Em 2003, ainda no contexto da guerra no Iraque, as instituições europeias e os Estados membros de facto não pouparam esforços na definição de uma linha de conduta face às “novas ameaças” internacionais, reproduzindo as preocupações securitárias americanas e não se diferenciando verdadeiramente da perspectiva e da estratégia de Washington para as enfrentar.

 

Em Dezembro de 2003, a União adoptou uma “Estratégia da União Europeia contra a proliferação de armas de destruição maciça”, que não deixa de enquadrar a política dos Estados face à questão iraniana [6]. Ainda que a luta contra a proliferação seja antes de mais encarada sob a forma de acções não militares, nomeadamente através da instauração de um diálogo político e do respeito dos tratados internacionais, o texto prevê que «quando fracassam as medidas [preventivas], podem ser encaradas medidas coercivas no quadro do capítulo VII da Carta das Nações Unidas e do direito internacional (sanções, selectivas ou globais, intercepção de carregamentos e, se necessário, recurso à força)».

 

Durante esse mesmo Conselho Europeu de Dezembro de 2003, a União dotou-se de um conceito estratégico de segurança elaborado por Javier Solana, alto representante para a Política Externa e de Segurança Comum, intitulado “Uma Europa segura num mundo melhor” [7]. A proliferação das armas de destruição maciça é identificada como uma das cinco principais ameaças, a par do terrorismo, dos conflitos regionais, da deliquescência dos Estados e do crime organizado. Deparamos, assim, com o tríptico “terrorismo, proliferação de armas de destruição maciça (ADM), Estados párias” tão caro à National Security Strategy de 2002, que define a política americana nesta matéria. Quanto aos meios a adoptar, a estratégia europeia prevê, sem exigir o aval do Conselho de Segurança, «intervenções a montante rápidas e, se necessário, robustas», devendo a União ser capaz «de agir antes que a situação (...) se deteriore» e «quando forem detectados sinais de proliferação». Porque «um empenhamento preventivo pode permitir evitar problemas mais graves no futuro».

 

Quando se encontravam ainda em fase de projecto, estes dois documentos-chave abriram, em grande medida, o caminho para a Cimeira Bilateral Euro-Americana de 25 de Junho de 2003, em Washington, na sequência da qual foi adoptada a declaração comum dos Estados Unidos e da União Europeia sobre a proliferação das armas de destruição maciça através da qual os signatários se comprometiam a «utilizar todos os meios de que dispõem para evitar a proliferação das ADM e as consequências desastrosas que ela implicaria» [8].

 

Tudo indica que os Estados Unidos, mesmo atolados no Iraque, não estão decididos a «evitar os mesmos erros no Irão», como sublinhava David Kay, antigo chefe dos inspectores americanos em Bagdade [9]. Permanece em cima da mesa a possibilidade de ataques preventivos, com ou sem ajuda dos israelitas. Pior ainda, os europeus acompanham-nos agora nas suas aventuras imperialistas.

 

No essencial, tal como é demonstrado pelo dossiê iraniano, falta à Europa determinação para se colocar fora da protecção americana, como uma verdadeira “potência tranquila”. Não aproveitou a oportunidade para incitar ao relançamento, se não à reinvenção, do regime de não proliferação, que continua a ser desigual em muitos aspectos, num domínio em que a via do acesso à bomba não é outra senão a do desenvolvimento da indústria civil. Pelo contrário, em vez de se empenharem com firmeza na via do desarmamento a que o TNP obriga os “Estados dotados de armas nucleares”, as potências europeias oscilam no sentido da contraproliferação para assegurar uma segurança que se resume à preservação do seu domínio tecnológico, militar e estratégico.

 

No entanto, num mundo cada vez mais globalizado, a segurança de uns não se constrói contra a segurança dos outros. A prazo, apenas poderá existir uma segurança colectiva, em que a definição dos riscos e das ameaças, bem como dos instrumentos para os remediar, satisfaçam o conjunto – por natureza diversificado – dos actores que interagem na cena internacional, e não alguns Estados privilegiados e dotados da arma atómica.

 

______

* Responsável de investigação no Grupo de Pesquisa e Informação sobre Paz e Segurança (GRIP), Bruxelas.

 

[1] Georges Le Guelte, Sessenta anos de (não-)proliferação nuclear, Le Monde diplomatique, Novembro 2005.

[2] Le Monde, 21 de Setembro de 2005.

[3] Reuters, 27 de Julho de 2005.

[4] Para uma análise detalhada da proposta europeia, ler Paul Ingram, “Preliminary analysis of E3/EU proposal to Iran”, Basic Notes, British-American Security Information Council, 11 de Agosto de 2005.

[5] British Broadcasting Corporation (BBC), Londres, 28 de Setembro de 2005.

[6] 15708/03, 12 e 13 de Dezembro de 2003.

[7] 15895/03, 8 de Dezembro de 2003.

[8] “Declaração comum do presidente do Conselho Europeu Costas Simitis, do presidente da Comissão Europeia Romano Prodi e do presidente dos Estados Unidos George W. Bush sobre a proliferação das armas de destruição maciça”, Washington, 10902/03, 25 de Junho de 2003.

[9] David Kay, “Let’s not make the same mistakes in Iran”, The Washington Post, 7 de Fevereiro de 2005.