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Mundo

22/09/2004

 

Um imposto contra a pobreza

 

Ignacio Ramonet

La Voz de Galicia

Em Nova York, na segunda-feira passada, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, reuniram-se os responsáveis de quatro países – Brasil, Chile, Espanha e França – e apresentaram as conclusões de um relatório sobre os «novos mecanismos de financiamento» para lutar contra a pobreza e a fome.

De que se trata? Pois de retomar essa ideia que eu tinha lançado em 1997 apoiando­‑me numa proposta do economista estadounidense James Tobin. Este tinha sugerido criar uma taxa sobre as transações financeiras para reduzir a especulação no mercado de câmbios. A sua preocupação era evitar o sobre­aquecimento na compra e venda de divisas, pois temia que uma explosão especulativa pudesse provocar o derrube de todo o sistema financeiro internacional.

Sobre essa base, tinha proposto eu que essa taxa se concebesse como um imposto internacional cobrado, à escala planetária, por um organismo da ONU, e que as somas assim recolhidas - uns sessenta mil milhões de euros ao ano- servissem para combater a pobreza e o subdesenvolvimento no mundo. É, em minha opinião, a única maneira sensata de reduzir também a violência, as injustiças e o terrorismo. Com esta filosofia criamos, em 1998, a associação Attac e depois, com muitos outros amigos, o Fórum Social Mundial de Porto Alegre.

Esse projecto de um imposto mundial contra a pobreza (baseado ou não na taxa Tobin) suscitou violentas reacções hostis, mas a ideia seguiu caminhando. Em cada dia, um maior número de cidadãos e até de empresários e de dirigentes políticos se dão conta de que esse imposto pode moderar a violência da globalização económica num mundo em que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres mais pobres e mais numerosos.

Por isso, quando no último Fórum de Davos, em Janeiro de 2004, e em presença dos novos amos do mundo, o presidente Lula do Brasil lançou um apelo para a criação de um fundo mundial contra a fome, obteve uma reacção muito favorável. O presidente francês, Jacques Chirac, e o do Chile, Ricardo Lagos, apoiaram a iniciativa à qual se uniu faz pouco o presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.

Os quatro mandatários defendem a ideia de uma taxa internacional (à qual se opõe com ferocidade os Estados Unidos) aplicada às transações financeiras e ao comércio das armas. Lula repetiu que os gastos de armamento mobilizam meios financeiros, materiais e humanos que poderiam investir-se com maior progresso em programas sociais.

Está demonstrado que para atingir os objectivos do Milénio – dividir por dois a pobreza mundial daqui a 2015 – é indispensável encontrar recursos financeiros suplementares, já que a ajuda pública resulta insuficiente e que, segundo o Banco Mundial, precisam­‑se uns 50.000 milhões de euros anuais. No próximo ano, em Setembro, terá lugar a Cimeira sobre o desenvolvimento e, se não se quer que esta fracasse, terá que avançar – não há outra via – na posta em prática desse imposto mundial.

Ideias não faltam, e além da taxa sobre as vendas mundiais de armas e sobre as transações financeiras internacionais, alguns sugerem que se crie uma taxa sobre os transportes aéreos e marítimos, ou sobre os benefícios das grandes empresas multinacionais, ou sobre a venda de hidrocarbonetos, ou sobre o consumo mundial de electricidade, ou sobre as comunicações telefónicas.

O objectivo é encontrar uma solução nova e solidária, fácil de aplicar, para transformar um mundo em que coexistem uma miséria extrema e uma imensa prosperidade. E para reduzir os grandes riscos geopolíticos que isso significa.

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