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26/01/2004 F.
William Engdahl Current
Concerns; retirado de resistir.info Hoje, a maior parte do mundo está convencida de que a
administração Bush não travou a guerra contra o Iraque e Saddam Hussein
devido à ameaça de armas de destruição em massa, nem tão pouco a perigos
terroristas. Mantém-se uma dúvida, entretanto: saber porque Washington
arriscaria tanto, nas relações com os seus aliados e o mundo inteiro, para
ocupar o Iraque. Há provas convincentes de que petróleo e geopolítica estão
no cerne das razões ainda escondidas para a acção militar no Iraque. É cada vez mais claro que a ocupação americana do Iraque
refere-se ao controle global dos recursos petrolíferos. Contudo, controle
numa situação em que os abastecimentos mundiais de petróleo são de longe
muito mais limitados do que a maior parte da humanidade tem sido levada a
acreditar. Se o que se segue for exacto, a guerra do Iraque é apenas a
primeira numa grande batalha global sobre recursos energéticos, uma batalha
que será mais intensa do que qualquer guerra petrolífera até à data. As
apostas são das mais elevadas. É sobre a determinação de quem obterá quanto
petróleo para a sua economia e a que preço e quem não o obterá. Nunca tal poder
de sufocar a economia mundial esteve nas mãos de uma única potência. Após a
ocupação do Iraque parece que está. A era do petróleo barato e abundante, que suportou o
crescimento económico mundial durante mais de três quartos de século, está
muito provavelmente superada ou ultrapassado o seu pico absoluto, de acordo
com importantes geólogos do petróleo independentes. Se esta análise for
exacta, as consequências económicas e sociais serão estarrecedoras. Esta
realidade está a ser escondida da discussão geral pela multinacionais do
petróleo e pelas principais agências governamentais, acima de tudo pelo
governo dos Estados Unidos. As companhias petroleiras têm um interesse
dissimulado em esconder a verdade a fim de manter o preço de obtenção de novo
petróleo tão baixo quanto possível. O governo americano tem um interesse
estratégico em impedir o resto do mundo de perceber quão crítico se tornou o
problema. PICO PETROLÍFERO O problema na produção de petróleo não é quanto de
reservas estão no subsolo. Aqui os números são mais encorajadores. O problema
acontece quando grandes campos petrolíferos como Prudhoe Bay Alaska ou os
campos do Mar do Norte ultrapassam o seu pico de produção. Tal como uma curva
em sino, os campos petrolíferos ascendem a uma produção máxima, ou seja,
atingem o pico. O pico é o ponto em que metade do petróleo já foi extraída.
Em termos de reservas remanescentes pode parecer que ainda há bastante
petróleo. Mas isto não é tão cor-de-rosa como parece. A produção de petróleo
pode manter-se no pico de produção por um certo número de anos antes de
principiar um lento declínio. Uma vez atingido o pico, entretanto, o declínio
pode ser muito rápido. Ultrapassado pico, ainda há petróleo, mas torna-se
difícil extrair, e mais custoso, pois as pressões internas dos furos declinam
ou outros problemas tornam mais cara a recuperação de cada barril. O petróleo
está lá mas não é fácil, de modo algum, extraí-lo. O custo de cada barril
ultrapassado o pico é cada vez mais elevado na medida em que meios
artificiais são utilizados para extraí-lo. Depois de um certo ponto torna-se
não-económico continuar a tentar extrair este petróleo do pico. Como a maior parte das companhias e agências
petrolíferas, tais como o Departamento da Energia dos EUA, falam não do pico
em sim das reservas totais, o mundo tem um falso sentido de segurança quanto
à oferta energética. Na verdade é tudo menos segura. ESTUDOS DE CASO Alguns casos recentes evidenciam isto. Em 1991 a maior
descoberta no Hemisfério Ocidental desde a década de 1970 foi encontrada em
Cruz Beana, na Colômbia. Mas a sua produção caiu de 500 mil barris por dia
para 200 mil barris em 2002. Em meados da década de 1980 o Forty Field no Mar
do Norte produziu 500 mil barris por dia. Hoje ele rende 50 mil barris. Uma
das maiores descobertas dos últimos 40 anos, Prudhoe Bay, produziu cerca de
1,5 milhões de barris por dia durante quase 12 anos. Em 1989 atingiu o pico e
hoje dá apenas 350 mil barris por dia. O campo gigante russo Samotlor
produziu um pico de 3,5 milhões de barris por dia. Ele agora caiu para 325
mil por dia. Em cada um deste campos a produção foi mantida elevada gastando
cada vez mais para injectar gás ou água a fim de manter as pressões do campo,
ou por outros meios para bombear a quantidade de petróleo. O maior campo
petrolífero do mundo, Ghawar, na Arábia Saudita, produz aproximadamente 60%
de todo o petróleo saudita, uns 4,5 milhões de barris por dia. Para conseguir
isto, relatam os geólogos, os sauditas devem injectar 7 milhões de barris por
dia de água salgada a fim de manter elevada a pressão dos furos, um sinal
alarmante de proximidade do colapso da produção nos maior reino petrolífero
do mundo. O problema ascendente do pico petrolífero é conhecido
entre as pessoas bem informadas da indústria petrolífera desde meados da década
de 1990. Em 1995, a importante firma Petroconsultants, de consultoria em
petróleo, publicou um estudo global, 'The World Oil Supply'. O relatório
custa US$ 35 mil e foi escrito para a indústria petrolífera. O seu autor foi
o Dr. Collin Campbell, geólogo de petróleo. Em 1999 Campbell, perante a
Câmara dos Comuns britânica, declarou que «A descoberta de (novas reservas
petrolíferas) atingiu o pico na década de 1960. Agora achamos um barris por
cada quatro que consumimos...». NENHUMAS NOVAS DESCOBERTAS GIGANTES Depois de a OPEP ter aumentado os preços na década de
1970, projectos não-OPEP principiaram a ser lucrativos no Mar do Norte,
Alasca, Venezuela e outros lugares. A produção de petróleo aumentou
significativamente. Ao mesmo tempo, em resposta aos preços do petróleo mais
elevados, muitos países industriais como a França, Alemanha, EUA, Japão
aumentaram dramaticamente a energia a partir de centrais nucleares. A
combinação disto deu a ilusão de que o problema do petróleo havia-se
desvanecido. Mas isto não aconteceu, longe disso. Se de facto muitas das principais fontes de petróleo de
hoje atingiram o pico, e estão prestes a cair drasticamente, e se ao mesmo
tempo a procura mundial de energia continua a crescer, e não foi encontrado
bastante petróleo para substituir o esgotamento existente, a economia global
enfrenta uma crise de dimensões estarrecedoras. Isto também principiaria a
explicar a mudança da política externa americana na direcção de uma grosseira
presença militar neo-imperial a nível global, desde o Kosovo até o
Afeganistão, desde a África Ocidental até Bagdad e por aí afora. Obviamente, o mais fácil, a solução mais económica, é
descobrir novos campos petrolíferos gigantes ou super-gigantes de onde
grandes volumes de óleo possam ser extraídos e trazidos para os mercados
mundiais a baixo custo. É exactamente isso que não é o caso hoje. Segundo um
relatório recente da Colorado School of Mines, 'The World's Giant Oilfields',
«os 120 maiores campos petrolíferos do mundo produzem perto de 33 milhões de
barris por dia, quase 50% da oferta mundial de petróleo bruto. Os 14 maiores
representam mais de 20%. A idade média destes 14 maiores campos é de 43,5
anos». [1] O estudo citado concluiu que «a maior parte dos
verdadeiros gigantes do mundo foi descoberta décadas atrás». Ao longo dos
últimos 20 anos, apesar do investimento de centenas de milhares de milhões de
dólares pelas grandes companhias petrolíferas, os resultados têm sido
alarmantemente desapontadores. As maiores companhias petrolíferas do mundo —
Exxon-Mobil, Shell, ChevronTexaco, BP, ElfTotal e outras — investiu centenas
de milhares de milhões de dólares para descobrir petróleo suficiente a fim de
substituir a oferta de óleo das fontes existentes. Entre 1996 e 1999, cerca
de 145 companhias gastaram US$ 410 mil milhões a fim de descobrir óleo
suficiente apenas para manter a sua produção diária estável a 30 milhões de
barris por dia. De 1999 a 2002, as cinco maiores companhias gastaram mais US$
150 mil milhões e a sua produção apenas de 16 milhões de barris por dia para
16,6 milhões de barris, um aumento minúsculo. Com o colapso da União
Soviética no princípio da década de 1990, as companhias petrolíferas
ocidentais colocaram altas esperanças nos potenciais de óleo do Mar Cáspio,
na Ásia Central. RESULTADOS DO CÁSPIO DESAPONTADORES Em Dezembro de 2002, pouco depois de as tropas
americanas tomarem o Afeganistão, a BP, uma grande companhia petroleira,
anunciou resultados desapontadores da perfuração no Cáspio, os quais sugeriam
que "a descoberta do século" era pouco mais do que uma gota no
oceano. Ao invés das anteriores previsões de reservas de petróleo acima dos
200 mil milhões de barris, uma nova Arábia Saudita fora do Médio Oriente, o
Departamento de Estado americano anunciou que «o petróleo do Cáspio
representa 4% das reservas mundiais. Ele nunca dominará os mercados do
mundo». A PetroStrategies publicou um estudo estimando que a Bacia do Cáspio
continha uns meros 39 mil milhões de barris de petróleo, de uma pobre
qualidade. Logo após estas notícias, a BP e outras companhias petrolíferas
ocidentais principiaram a reduzir os seus planos de investimento na região. INTERESSE NA ÁFRICA OCIDENTAL Uma das áreas mais activas de nova exploração é no
offshore da África Ocidental, desde a Nigéria até Angola. O presidente Bush
uma viagem ostensiva à região no princípio deste ano, e o Pentágono americano
assinou acordos militares básicos com duas pequenas ilhas estratégicas, São
Tomé e Príncipe, garantido uma presença militar se alguma coisa ameaçasse o fluxo
de petróleo através do Atlântico. Mas, se bem que o volume de petróleo seja
importante, isto dificilmente é uma nova Arábia Saudita. O geólogo Campbell
estima que se todo o petróleo de águas profundas, talvez 85 mil milhões de
barris, fosse extraído dos campos do Brasil, de Angola e da Nigéria isto
atenderia à procura global durante uns 3 a 4 anos. PROCURA DE ENERGIA CRESCENTE Em contraste com a perspectiva de muitos dos maiores
campos petrolíferos de hoje estarem num declínio de produção acentuado, a
procura mundial por petróleo está a elevar-se brutalmente, marcada pelo
crescimento das economias da China, da Índia e da Ásia. Mesmo às fracas taxas
de crescimento do PIB actuais, economistas estimam que a procura mundial por
petróleo aos preços de hoje aumentará uns 2% ao ano. Dez anos atrás, a China não era um factor a considerar
na importação mundial de petróleo. Ela produzia internamente a maior das suas
limitadas necessidades. Contudo, a partir de 1993 a China começou a importar
petróleo para atender às suas necessidades económicas. No fim de 2003 a China
havia ultrapassado o Japão e passara a ser o segundo maior importador de
petróleo logo a seguir aos EUA. A China agora consome 20% da energia do total
dos países industriais da OCDE. As importações de petróleo da China agora
estão a crescer a 9% ao ano e esta previsto que cresça significativamente na
próxima década, pois a China emerge como a maior nação industrial do mundo.
Actualmente a China cresce a 7-8% ao ano. A Índia recentemente também emergiu
como uma economia em crescimento rápido. Combinados, ambos os países
representam uns 2,5 mil milhões da população mundial. Não é de admirar que a
China se oponha veementemente à guerra unilateral dos EUA contra o Iraque no
Conselho de Segurança da ONU. A companhia petrolífera nacional da China
procura há muito garantir a maior parte da oferta de óleo do Iraque. O QUE CHENEY SABIA EM 1999 Num discurso no International Petroleum Institute, em
Londres, no fim de 1999, Dick Cheney, então presidente da maior companhia de
serviços petrolíferos do mundo, a Halliburton, apresentou um quadro da oferta
e procura mundiais para peritos da indústria. «De acordo com algumas
estimativas», declarou Cheney, «haverá uma média de dois por cento de
crescimento anual na procura de óleo ao longo dos próximos anos, bem como,
conservadoramente, um declínio natural de três por cento na produção das
reservas existentes». Cheney concluiu com uma nota alarmante: «Isto significa
que em 2010 precisaremos de um acréscimo de 50 milhões de barris por dia».
Isto é o equivalente a mais de seis Arábias Sauditas da dimensão de hoje. Talvez não seja coincidência que tenha sido dada a
Cheney, vice-presidente, como sua primeira grande tarefa, a direcção da
Presidential Task Force on Energy. Ele conhecia a dimensão do problema
energético enfrentado não só pelos Estados Unidos como também pelo resto do
mundo. Cheney também está identificado na administração Bush
como o principal falcão da guerra do Iraque, juntamente com o secretário da
Defesa Rumsfeld. Reiteradamente Cheney pressionou pela acção militar contra o
Iraque, sem se importar com que aliados apoiassem. Quando examinamos o que é conhecido acerca das reservas
de petróleo globais, e onde estão elas, à luz da análise do "pico
petrolífero" de grande parte da produção de óleo hoje existente,
torna-se mais claro porque Cheney estaria desejoso de arriscar tanto, em
termos de postura dos EUA perante aliados e outros, para ocupar os campos
petrolíferos do Iraque. Cheney conhece exactamente qual é a situação das
reservas petrolíferas globais como antigo presidente da Halliburton
Corporation, a maior companhia de serviços petrolíferos do mundo. O CALCANHAR DE AQUILES DOS EUA? A questão escaldante é: onde obteremos tão enorme
aumento de petróleo? Na década de 1990 a 2000 foram descobertas novas
reservas com um total de 42 mil milhões de barris em todo o mundo. No mesmo
período o mundo consumiu 250 mil milhões. Nas últimas duas décadas apenas
três campos gigantes com mais de um mil milhões de barris cada um foi
descoberto. Um na Noruega, um na Colômbia e outro no Brasil. Nenhum destes
produz mais do que 200 mil barris por dia. Isto está muito longe dos 50
milhões de barris por dia que o mundo precisará. Estará a era do petróleo barato e abundante para
alimentar a economia mundial prestes a terminar? Uma importante questão em
todo o debate sobre por que Washington foi à guerra no Iraque é a questão do
quanto óleo permanece por ser descoberto no mundo aos preços de hoje. O
debate tem sido notavelmente escasso acerca de uma questão económica de tão
enormes consequências. Segundo estimativas de Colin Campbell e K. Aleklett da
Universidade de Uppsala, cinco países possuem de forma esmagadora o grosso do
petróleo remanescente global e poderiam potencialmente compor as coisas
quando outras áreas ultrapassarem o seu pico. «Os cinco maior produtores do
Médio Oriente, nomeadamente Abu Dhabi, Iraque, Irão, Kuwait e Arábia Saudita
(incluindo a Zona Neutra), com cerca de metade do petróleo remanescente
mundial, são tratados como produtores de equilíbrio (swing producers) compondo
a diferenças entre a procura mundial e o que os outros países podem
produzir...» [2] Estes cinco países — Iraque, Irão, Arábia Saudita, Kuwait
e EAU — devido às circunstâncias da geologia, contem as reservas de petróleo
e de gás vitais para o futuro crescimento económico do mundo. Num artigo no
número de 7 de Janeiro de 2002 do Oil and Gas Journal , de A. S.
Bakhtiari, Iranian National Oil Company (NIOC), observa-se: «O Médio Oriente
[é] simultaneamente a mais geoestratégica área do globo e o prémio final de
energia: Dois terços das reservas de petróleo bruto globais estão
concentradas em cinco países ribeirinhos do Golfo Pérsico». [3] Num documento publicado em Novembro de 2001, o eminente
geólogo de Princeton, Kenneth Deffeyes, escreveu: «A maior questão única de
todas é o ano em que a produção petrolífera mundial atinge o pico de Hubbert
e começa então a declinar para sempre. Tanto os gráficos como os ajustamentos
por computador identificam 2004 como o ano provável. A maior incerteza única
é a das enormes reservas da Arábia Saudita». [4] Se a
análise do pico petrolífero for exacta, ela sugere a razão porque Washington
pode estar desejosa de arriscar tanto para controlar o Iraque e, através das
suas bases ali, a cinco países ricos em petróleo. Isto sugere que Washington
está a actuar a partir de uma fraqueza estratégica fundamental, não de uma
fortaleza absoluta como se pensa muitas vezes. Um debate completo e aberto
sobre o problema do pico da energia é necessário com urgência. |
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[1] “The World`s Giant Oilfields”, Matthew R. Simmons,
M. King Hubbert Center for Petroleum Supply Studies, Colorado School of Mines,
January 2002.
[2] Aleklett, K. and Campbell, C.J., “The Peak and Decline of World Oil and Gas
Production”, published by the Association for the Study of Peak Oil and Gas, www.asponews.org.
[3] Bakhtiari, A.M. Samsam, “2002 to see birth of New World Energy Order”, Oil
and Gas Journal, January 7, 2002.
[4] Deffeyes, Kenneth S, “Peak of world oil production”, Paper no. 83-0,
Geological Society of America Annual Meeting, November 2001. gsa.confex.com.
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Copyright F. William Engdahl, 2004.