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Mundo

Julho 2005

 

A opinião pública muçulmana rejeita a democracia?

 

Le Monde diplomatique

 

Cerca de dois terços dos 192 países do planeta são democracias electivas. Mas, dos 47 países de maioria muçulmana, só um quarto o são – e nenhum Estado do mundo árabe, com a particular excepção do Líbano, pertence a esta categoria. Porquê? Uma das respostas defende que estão ausentes do mundo muçulmano os valores fundamentais que estiveram na origem da democracia nas civilizações ocidentais. Esta teoria não se apoia em nenhuma prova empírica: até ao presente, pouco sabíamos sobre os valores das opiniões públicas muçulmanas. Ora, duas recentes séries de sondagens realizadas pela World Values Survey, em 1995-1996 e em 2000-2002, em cinco países árabes [1] e nove países muçulmanos [2] fornecem indicadores interessantes [3].

 

Um dos elementos mais impressionantes é que as populações dos Estados muçulmanos da antiga zona comunista têm uma relação muito mais fraca à religião. Menos de metade das pessoas interrogadas declaram «Deus é muito importante na minha vida», e são muito menos numerosas que nos outros países muçulmanos as pessoas que aprovam a formulação: «Mais respeito em relação à autoridade seria uma coisa boa».

 

A despeito da afirmação da existência de um “choque de civilizações” entre o Ocidente e o resto do mundo, estes inquéritos revelam também que a democracia tem uma imagem extremamente positiva por todo o mundo, e nomeadamente nos países muçulmanos. Assim, a afirmação «A democracia pode ter muitos problemas, mas é a melhor forma de governo» recolhe uma forte concordância de 61 por cento das pessoas questionadas nos países árabes, contra 52 por cento em dezasseis países da Europa Ocidental e 38 por cento no conjunto dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Se juntarmos os que concordam e os que concordam muito com esta afirmação, as maiorias são esmagadoras.

 

Para os outros países muçulmanos, a aceitação (forte ou moderada) da democracia é de 69 por cento no Irão, de 71 por cento na Indonésia, de 88 por cento na Turquia, de 92 por cento na Bósnia e de 95 por cento na Albânia.

 

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[1] Argélia, Egipto, Jordânia, Arábia Saudita e Marrocos.

[2] Albânia, Azerbaijão, Bangladesh, Bósnia, Indonésia, Irão, Quirguistão, Paquistão e Turquia.

[3] Ronald Inglehart, The Worldviews of Islamic Publics In Global Perspective, 2005 [pdf], World Values Survey.

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