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28/07/2005 “À
medida que o petróleo deixar de ser barato e as reservas começarem
a esgotar-se, confrontar-nos-emos com um enorme excedente de população que o planeta não poderá sustentar” * James Howard Kunstler New Statesman;
retirado de Resistir.info
Carl Jung fez notar sabiamente que «as pessoas não aguentam realismo
a mais». O que se segue pode entrar em conflito com as vossas concepções
sobre o tipo de mundo em que vivemos e, em especial, sobre o tipo de mundo
para o qual o tempo e os acontecimentos nos estão a dirigir. Estamos numa
corrida difícil através dum território desconhecido. A guerra contra o fundamentalismo militante islâmico é apenas um dos
elementos no meio de uma lista de acontecimentos já em marcha que irão
alterar as nossas relações com o resto do mundo, e nos obrigam a viver de forma
diferente no nosso próprio país quer queiramos quer não. Acima de tudo, e
quase de imediato, enfrentamos o fim da era dos combustíveis fósseis baratos.
Não é exagero afirmar que o abastecimento regular e barato de petróleo e gás
natural estão na base de tudo aquilo que identificamos como um benefício da
vida moderna. Todas as necessidades, o conforto, o luxo e os milagres da
nossa época – aquecimento central, ar condicionado, automóveis, aviões,
iluminação eléctrica, vestuário barato, música gravada, cinema,
supermercados, ferramentas motorizadas, cirurgia de substituição de ancas,
defesa nacional, o que quiserem – deve a sua origem ou a sua existência
continuada aos combustíveis fósseis baratos, duma maneira ou doutra. Vendo
bem, até mesmo as instalações de energia nuclear dependem do petróleo e gás
baratos para a sua construção, manutenção e extracção e processamento dos
combustíveis nucleares. A sedução do petróleo e gás baratos foi tão grande, e provocou um
tal estado de satisfação hipnótica, que deixámos de prestar atenção à
verdadeira natureza destas dádivas milagrosas da natureza: ou seja, que
existem em reservas finitas, não renováveis, distribuídas desigualmente pelo
planeta. Para agravar a situação, as maravilhas do constante progresso
tecnológico durante o reinado do petróleo criaram‑nos uma espécie de
“síndroma do Grilo Falante”, levando a que muita gente acreditasse que tudo o
que desejássemos firmemente se tornaria realidade. Hoje em dia, mesmo as
pessoas que deviam ter mais conhecimentos, desejam ardentemente que seja
possível, dentro de pouco tempo, uma transição suave, sem tropeços, dos
combustíveis fósseis para os seus supostos substitutos – hidrogénio, energia
solar, o que quer que seja. Isto é uma ilusão perigosa. Na melhor das hipóteses
podem passar-se décadas a desenvolver algumas destas tecnologias – o que
significa que podemos contar com um intervalo extremamente conturbado entre o
fim do petróleo barato e o que quer que seja que venha a seguir. O cenário
mais provável é que os novos combustíveis e tecnologias nunca consigam
substituir os combustíveis fósseis ao ritmo, escala e modo como o mundo os
consome actualmente. O que a maioria não percebe é que o mundo desenvolvido vai começar a
sofrer muito antes de o petróleo e o gás acabarem de todo. A forma de viver
ocidental – que hoje é praticamente sinónimo de urbanismo de subúrbio – só
pode existir com base num abastecimento regular de petróleo e gás baratos e
de confiança. As simples oscilações, mesmo muito pequenas, tanto no preço como
no abastecimento, esmagarão a nossa economia e tornarão impossível a
logística da vida quotidiana. As reservas de combustíveis fósseis não estão
distribuídas uniformemente pelo planeta. Tendem a estar concentradas em
locais onde as populações locais não gostam do ocidente, locais fisicamente
muito distantes, locais onde exercemos pouco controlo. O decrescimento dos combustíveis fósseis despoletará certamente uma
luta permanente entre as nações que disputam as reservas disponíveis. As
guerras por esses recursos já começaram. Mas haverá mais. Provavelmente
arrastar-se-ão durante décadas. Mas apenas contribuirão para agravar uma
situação que, por si mesma, pode derrubar civilizações. A dimensão dos
prejuízos no ocidente dependerá evidentemente da tenacidade com que tentarmos
agarrar-nos a hábitos, usos e preconceitos obsoletos – por exemplo, a
ferocidade com que tentarmos lutar para manter o estilo de vida suburbano que
já não pode continuar a justificar‑se. A população mundial foi calculada em cerca de mil milhões no
princípio do século XIX quando a industrialização mal começava a adquirir
embalagem. Daí inferiu-se que mil milhões de pessoas era praticamente o
limite que o planeta Terra podia aguentar quando governado numa base
não-industrial. A população mundial é hoje superior a seis mil e quinhentos
milhões de pessoas, tendo mais que duplicado desde a minha infância nos anos
50. Os meados do século XX foram uma época de ansiedade crescente por causa
da “explosão populacional”. A maravilhosa vitória tecnológica contra a
escassez de alimentos, incluindo a “revolução verde” na cultura cerealífera,
acelerou o salto já de si robusto da população mundial, salto esse que tinha
começado com a modernidade. Os progressos espectaculares no saneamento e na
medicina prolongaram a vida humana. A indústria absorveu as populações em
crescimento e transferiu-as das zonas rurais para o trabalho nas cidades
florescentes. A comprovada capacidade do mundo para acomodar estes
recém-chegados e retardatários numa forma completamente nova de arranjo
social e económico pareceu ser o último prego no caixão de Thomas Robert
Malthus, o autor tão maltratado de Um ensaio sobre o princípio da
população, naquilo que afecta o progresso futuro da sociedade (1798). Malthus (1766-1834), um clérigo rural inglês, foi o bode expiatório
dos idealistas e tecno‑optimistas durante 200 anos. O seu famoso
ensaio defendia que, se o crescimento da população humana não fosse refreado,
esta cresceria exponencialmente ao passo que os recursos alimentares
cresceriam apenas aritmeticamente e que, portanto, o crescimento da população
iria deparar-se com limites naturais estritos e inevitáveis. Eu estaria
disposto a defender que Malthus tinha razão, mas que o petróleo barato
desequilibrou a equação nos últimos cem anos, durante os quais a raça humana
desfrutou duma orgia sem precedentes da energia solar condensada e não
renovável, acumulada durante eternidades na pré-história. A “revolução verde”
nas culturas cerealíferas teve pouco a ver com inovações científicas na área
da genética cerealífera e muito a ver com a aplicação nas culturas de
quantidades astronómicas de fertilizantes e pesticidas fabricados a partir de
combustíveis fósseis, assim como com a utilização da irrigação numa escala
grandiosa, só possível pela abundância do petróleo e do gás. A era do
petróleo barato criou uma bolha artificial de abundância durante um período
pouco maior do que o tempo de vida de uma geração, um século. No interior
dessa confortável bolha, formou-se a ideia de que só os resmungões, os
desmancha-prazeres e os hereges maníacos consideravam que o crescimento
exagerado da população era um problema, e que até era indecoroso levantar
esta questão. Arrisco-me a afirmar que, quando o petróleo deixar de ser
barato e as reservas mundiais se aproximarem do esgotamento, nos
defrontaremos com um enorme excesso de população que a ecologia do Planeta
Terra não conseguirá aguentar. Nessa altura não haverá programa político de
controlo de nascimentos que possa ajudar. As pessoas já cá estão. A chamada economia global não é uma instituição perene, como parece
que há quem acredite, mas um conjunto de circunstâncias passageiras próprias
duma determinada época: o verão indiano da era dos combustíveis fósseis. De
facto, o que a tornou possível foi um sistema de distribuição do mercado do
petróleo à escala mundial capaz de funcionar num período extremamente
prolongado de relativa paz mundial. O petróleo barato, disponível por todo o
lado, juntamente com maquinaria generalizada para construção de outras
máquinas, neutralizou muitas vantagens comparativas anteriores,
principalmente a da geografia, ao mesmo tempo que criou outras novas –
trabalho extremamente barato, por exemplo. Deixou de ser importante o local
onde uma nação se situa, ou se tem alguma experiência anterior em
manufacturas. O petróleo barato levou a electricidade a longínquas partes do
mundo onde antigas sociedades tradicionais dependiam anteriormente de
energias renováveis como a madeira e o adubo, principalmente para a cozinha.
Foi possível montar fábricas em países como o Sri Lanka ou a Malásia, onde
populações em excesso forneciam trabalhadores potenciais desejosos de
trabalhar por muito menos do que os dos Estados Unidos ou da Europa. Nessa
altura os produtos viajaram por todo o globo num sistema altamente
racionalizado, não muito diferente do sistema de distribuição do petróleo,
utilizando navios enormes, instalações portuárias automatizadas, e
contentores marítimos próprios para camiões, a um custo minúsculo por unidade
do que quer que fosse fabricado e transportado. Foi possível embarcar para a
cadeia Wal-Marts em toda a América e vender barato camisas ou máquinas de
café fabricados a 20.000 km de distância. A capacidade de globalizar desta forma a manufactura industrial
estimulou a tendência à escala mundial de reduzir as barreiras comerciais que
existiam anteriormente com o fim de fortalecer as vantagens comparativas
anteriores e que agora se tinham tornado obsoletas. Partiu-se do princípio
que uma maré crescente do comércio mundial em ascensão faria elevar todos os
barcos. Este período (aproximadamente entre 1980‑2001), durante o qual
foram feitos os tratados internacionais para redução das barreiras comerciais
– os Acordos Gerais sobre Tarifas e Comércio (GATT) – coincidiram com uma
queda brusca e persistente dos preços mundiais do petróleo e do gás que
ocorreu precisamente porque as crises do petróleo dos anos 70 estimularam uma
exploração e extracção tão frenética que provocou um excesso de petróleo
durante os 20 anos seguintes. Este excesso, por sua vez, levou a que os
dirigentes mundiais se esquecessem de que o globalismo que andavam a
congeminar dependia inteiramente dos combustíveis fósseis não renováveis e
dos frágeis acordos políticos que permitiam a sua distribuição. Surgiu no
ocidente a ideia absurda de que as crises do petróleo dos anos 70 tinham sido
situações fabricadas artificialmente. E que agora o petróleo era super
abundante. Isto foi um equívoco pelo facto de os campos petrolíferos do Mar
do Norte e da Vertente Norte do Alasca terem salvo temporariamente o ocidente
industrial quando entraram em actividade no princípio dos anos 80, adiando o
esgotamento dos combustíveis fósseis para onde o mundo tem vindo
inexoravelmente a caminhar. Entretanto, entre os economistas e as entidades governamentais, o
globalismo adquiriu o brilho atractivo duma moda intelectual. O globalismo
permitiu-lhes acreditar que a riqueza florescente dos países desenvolvidos, e
o alargamento da actividade industrial a regiões outrora primitivas, estavam
baseados na potencialidade das suas próprias ideias e políticas e não no
petróleo barato. O aparente sucesso de Margaret Thatcher em dar a volta à
economia esclerosada da Grã-Bretanha foi uma propaganda para essas políticas,
que incluíam uma forte dose de privatizações e de desregulamentações. O que o
globalismo ignorou, contudo, foi que o sucesso de Thatcher em revitalizar a
Grã-Bretanha coincidiu com uma fantástica nova fonte de receita do petróleo
do Mar do Norte, quando a velha Grã-Bretanha se tornou numa nação
auto-suficiente energeticamente e exportadora de energia pela primeira vez
desde o apogeu do carvão. Depois, quando Ronald Reagan chegou a presidente
dos EUA em 1981, o globalismo contagiou a América. Os conselheiros económicos
de Reagan, defensores da oferta, impingiram um conjunto de ideias fiscais que
se encaixavam às mil maravilhas nos novos conceitos de comércio livre e de
desregulamentação: principalmente a de que uma forte redução dos impostos se
traduziria num aumento de receitas, visto que uma maior concentração da
actividade comercial geraria uma maior concentração de impostos, mesmo a
taxas mais baixas. (O que na verdade gerou foi um enorme défice
governamental). O globalismo, tal como o conhecemos, está em vias de acabar. A sua
morte vai coincidir com o fim da idade do petróleo barato. Para o melhor ou
para o pior, muitas das circunstâncias que associamos ao globalismo vão ser
viradas do avesso. Os mercados vão fechar quando a turbulência política e as
aventuras militares interferirem com as relações comerciais. As sociedades
virar-se-ão cada vez mais para a importação de substitutos para a sua
sobrevivência económica. O custo dos transportes deixará de ser
negligenciável numa era posterior à do petróleo barato. A maior parte dos
nossos produtos agrícolas terá que ser produzido perto de casa, e
provavelmente através de mão de obra mais intensa quando os abastecimentos de
petróleo e de gás natural se tornarem cada vez mais instáveis. O mundo
deixará de encolher e tornar-se-á outra vez maior. Quase todas as relações
económicas entre pessoas, nações e instituições, coisas que considerávamos
certas, mudarão radicalmente. A vida tornar-se-á cada vez mais e cada vez
mais intensamente uma vida local. A maior parte do ocidente encontra-se perto do fim da era do
petróleo barato, depois de ter investido a sua riqueza numa forma de viver –
alargamento suburbano – que não tem futuro. Quando os comentadores dos meios
de comunicação se esforçam por explicar o que está a acontecer, esquecem
sistematicamente que os subúrbios representam um colossal mau investimento –
uma prodigiosa má aplicação de recursos sem paralelo. Isto não tem nada a ver
com as suas deficiências sociais, espirituais e ecológicas enquanto ambiente
do quotidiano. Construímos uma estrutura para a vida quotidiana que, pura e
simplesmente, não pode funcionar sem o fornecimento liberal de petróleo
barato e, dentro em breve, estaremos sem o petróleo necessário para o seu
funcionamento e sem a riqueza necessária para o substituir. Também não é
previsível que apareça um milagroso substituto de energia para o petróleo que
nos permita manter em funcionamento esta infra‑estrutura do quotidiano
mesmo que duma forma vagamente parecida. A trágica realidade é que a maior parte dos subúrbios não são
passíveis de reforma. Não se prestam a ser transformados em arredores de
menor escala, dispersos num grão mais fino, onde se possa andar a pé, como
será preciso na nossa vida diária na próxima era de trânsito rodoviário muito
mais reduzido. Nem é um Jolly Green Giant [1] que vai pescar os milhões de
casas suburbanas nos seus terrenos de ¼ de hectare em ruas sem saída, e
voltá-las a colocar bem juntinhas para refazer uns subúrbios mais cívicos.
Pelo contrário, estas propriedades suburbanas, incluindo os grandes casarões
de aglomerado e vinil, as enfiadas de lojas, os parques dos escritórios e
todos os outros componentes, entrarão numa fase de desvalorização rápida e
cruel. Muitos bairros suburbanos tornar-se-ão nos bairros de lata do futuro. Enquanto os subúrbios se desintegram, teremos muita sorte se
conseguirmos reconstituir as nossas actuais vilas e cidades, tijolo a tijolo
e rua a rua, arduamente à mão. As nossas maiores cidades ver‑se‑ão
em dificuldades, e algumas delas poderão ficar inabitáveis – principalmente
se o problema do abastecimento de gás natural vier a ser tão terrível como
agora se supõe e a produção de energia eléctrica que dele depende se torne
irregular. Os arranha‑céus acabarão por ser mais experimentais do que
aquilo que julgávamos. De uma forma geral, seremos forçados provavelmente a
regressar a um padrão de vilas e pequenas cidades rodeadas de campos
agrícolas de cultura intensiva. Quando isso acontecer, seremos uma sociedade
muito menos rica e a quantidade, a escala e o incremento de novos edifícios
serão muito mais modestos em comparação com os padrões actuais. Teremos
acesso a muito menos sistemas de construção modular, ou talvez mesmo a
nenhuns. A construção será muito mais dependente de pedreiros e carpinteiros
tradicionais e de outros artífices especializados. As nossas leis de
construção e de urbanização serão progressivamente ignoradas. Se regressarmos
a uma escala humana de construção, haverá boas hipóteses de que os nossos
novos bairros urbanos sejam mais humanos e mais bonitos. A era do automóvel
provou que as pessoas se conformam facilmente com edifícios feios,
utilitários e arruamentos horríveis desde que tenham a compensação de poderem
fugir facilmente em automóveis equipados com o melhor som estéreo digital, ar
condicionado e frigoríficos para bebidas geladas. Tudo isto mudará
radicalmente. Haverá muito menos automóveis. O futuro será muito mais
“permanecer onde se está” do que “viajar incessantemente de um lado para o
outro”. Estamos prestes a entrar numa era de um trauma profundo para a
espécie humana. É provável que provoque uma agitação política quase tão
extrema como as condições económicas que a originarem. Não iremos acreditar
que isto nos está a acontecer, que 200 anos de modernidade possam ser
subjugados por uma escassez mundial de energia. As perspectivas poderão ser
tão negras que muitas pessoas, e até regiões inteiras, entrem em depressão
suicida. Os sobreviventes terão que cultivar uma religião de esperança – ou
seja, uma fé profunda e abrangente de que a humanidade merece continuar. Se acontecer que a raça humana não consiga isso, só o facto de que
em tempos estivemos aqui não será alterado: de que em tempos que já lá vão
povoámos este espantoso planeta azul, e reflectimos inteligentemente sobre
todas as coisas que lhe dizem respeito, e sobre as coisas que viveram aqui
connosco; que celebrámos a sua beleza na música, na arte, na literatura e na
dança; que houve tempos em que nos aproximámos dos deuses quanto às nossas capacidades
e aspirações. Aparecemos envoltos num mistério insondável e para esse
mistério voltámos; e, no final, só o mistério subsiste. ______ * Extracto de The Long
Emergency: surviving the converging catastrophes of the 21st century,
publicado em 5 de Agosto pela Atlantic Books. [1] Grande helicóptero com capacidade de reabastecimento no ar. |