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12/07/2005 A era do petróleo caro Le Monde; retirado de Resistir.info
Os comentadores citam habitualmente as produções da OPEP, o estado
dos stocks comerciais americanos, o estado do tempo, os especuladores, o
terrorismo, a fraqueza das capacidades de refinação, a situação no Iraque, no
Irão, na Nigéria, na Venezuela, na Rússia. Mas estas “explicações” parecem válidas qualquer que seja o nível
das cotações do barril, 30, 40 ou 50 dólares..., de modo que falta-nos a
explicação principal sobre o próprio nível, 60 dólares hoje. Três factores
decisivos pressionam de forma duradoura a cotação para a alta: a rarefacção
geológica do petróleo convencional (de extracção pouco cara), a entrada num
mundo de terrorismo e de guerras permanentes pelo controle do petróleo, o forte
aumento da procura devido ao crescimento asiático e à manutenção do consumo
ocidental. É a antecipação deste último factor pelos negociantes que hoje
inflama as cotações. Durante o primeiro século e meio da era do petróleo, de 1859 a 2004,
a procura mundial foi sempre satisfeita pela oferta. Queria mais petróleo?
Tínhamos margens de manobra. Abríamos mais as torneiras, ele corria e
vendíamos mais. Os choques petrolíferos de outrora eram políticos, não económicos.
Hoje, quando a procura mundial média em 2005 se aproximará dos 84 milhões de
barris por dia (Mb/d), as margens de manobra da oferta são quase
inexistentes. Todas as torneiras debitam à sua capacidade máxima, no limite da
procura, e com o risco de que um acontecimento (greve, sabotagem, conflito
local...) reduza os abastecimentos. Segue-se uma situação de penúria
relativa, pressionando os preços para cima. Enquanto a oferta não chegar a satisfazer a procura, o preço do
petróleo aumentará até que um número suficiente de consumidores — eles são
milhares de milhões! — ajustem o seu consumo às possibilidades do seu
orçamento. Se a oferta mundial estacionar nos 84 Mb/d, os preços
estabelecer-se-ão no nível necessário para que o consumo não ultrapasse estes
84 Mb/d. E quando o esgotamento geológico se acentuar, o declínio absoluto da
oferta mundial terá lugar a uma taxa de pelo menos 2% ao ano. Os preços terão
então tendência a aumentar ainda mais para excluir mais consumidores e
reduzir o consumo. Mas a longa dependência do petróleo de numerosos países leva-me a
pensar que a procura continuará forte para necessidades vitais. A busca do
crescimento e o aumento da população mundial continuarão a alimentar uma
progressão da procura da ordem dos 1,5% ao ano. Com efeito, os números
mostram que a procura de petróleo é relativamente inelástica em relação ao
preço (ao contrário da procura de morangos). Dito por outras palavras, não é
porque os preços vão subir que a procura vai diminuir. Em 2004 a procura cresceu mais de 3,5%, ou seja, 2,7 Mb/d, a alta
mais forte dos últimos vinte e cinco anos, ao passo que a cotação do barril
médio passou de 26 dólares em 2002 para 31 dólares em 2003 e 41 dólares em
2004. Desde o princípio de 1999 até ao fim de 2004, as cotações do bruto
aumentaram 350% e a procura em 10%, ao contrário de todas as previsões. Este
fenómeno poderia quase denominar-se elasticidade inversa: a procura cresce
quando as cotações sobem. Entretanto, esta “regra” surpreendente não vale
senão até um certo nível dos preços, para uma velocidade moderada da subida,
e para uma duração limitada de preços elevados. Uma outra crença convencional e falsa diz que preços altos do petróleo
desaceleram a economia. Pode‑se constatar o contrário: preços bastante
elevados tendem a pressionar o crescimento mundial, que em 2004 foi o mais
forte dos últimos quinze anos. Com efeito, quando a cotação do barril sobe,
os volumes consideráveis de petrodólares colectados pelas companhias
petrolíferas, privadas e sobretudo nacionalizadas, reciclam-se em compras de
matérias-primas, de produtos acabados ou de géneros agrícolas junto aos
países exportadores destes bens, diferentes dos países exportadores de
petróleo. O comércio cresce, implicando mesmo certos países pobres que
transformam rapidamente o produto da venda das suas matérias de base em
compra de bens manufacturados que lhes faltam. Estes países não poupam, eles
possuem uma forte propensão marginal para o consumo. Todo rendimento
suplementar é convertido em importação daquilo que eles não têm. Este esquema aplicou-se aos pequenos dragões asiáticos, Singapura,
Coreia do Sul e Taiwan nos anos 1970, quando as cotações do petróleo haviam
aumentado mais de 400% entre 1973 e 1981. Ele corresponde hoje ao boom da
China, da Índia, do Paquistão e do Brasil. A procura mundial de petróleo está
portanto ligada ao nível das cotações do petróleo bruto em Nova York até um
certo nível e, contudo, até uma certa velocidade da subida. Um choque petrolífero pode, com um intervalo de tempo, provocar uma
desaceleração ou uma recessão numa região do mundo e, simultaneamente,
estimular a economia numa outra região. É a mundialização enquanto dinâmica
planetária que importa, não as economias de energia de determinados países do
Norte, anuladas pela voracidade energética de determinados países emergentes.
No total, uma transferência de actividades intensivas em energia dos países
do Norte para os países emergentes soma-se a um aumento do tráfego mundial de
mercadorias para acrescer finalmente o consumo de energia. As pretensas “economias
do conhecimento” pós-industriais da OCDE repousam numa transferência maciça
da sua base material e energética para as “economias emergentes”. Se as cotações continuarem a subir de uma forma tendencialmente
rápida, a partir dos 70 ou 80 dólares por barril é verosímil que as
consequências inflacionistas da alta das cotações do petróleo sejam
suficientemente pronunciadas para que os governadores dos bancos centrais dos
países ricos e petro‑vorazes, a América do Norte, o Japão, a União
Europeia, aumentem as taxas de juro para conter a inflação. Este remédio aumentará a dor, reactivando aquela que já provámos
aquando do segundo choque petrolífero dos anos 1979-1983, sob o impulso
ultraliberal de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan. Com efeito, quando o
custo do dinheiro aumenta, os mercados financeiros contraem-se e as empresas
deparam‑se com mais dificuldades para se financiarem através da Bolsa
ou de empréstimos, o que enfraquece a actividade económica. Se o dinheiro for
mais caro, tudo se torna mais caro, a inflação aumenta. Para tentar, por um segundo meio, jugulá-la, os bancos imprimem mais
dinheiro, o que provoca o resultado inverso: o prosseguimento da inflação.
Assim, o método da alta das taxas, destinado a lutar contra a inflação,
provoca ao contrário a contracção dos mercados financeiros e a inflação do
dinheiro, depois dos preços, a destruição dos empregos e as dificuldades das
empresas. O petróleo é menos um produto final do que um factor de produção,
frequentemente um pequeno factor no custo de produção total. Resultam daí,
por enquanto, pouco incentivos à substituição do petróleo ou à redução da
procura. Mesmo a mudança climática e seus efeitos letais não dissuadiram o
comprador de um 4 X 4 cuja avó morreu durante a canícula do verão de 2003 [1]. Esta relativa rigidez reforçará a gravidade das consequências
económicas e sociais do triplo choque que se avizinha. Nada estando
preparado, ele será severo. Pois, desta vez, não haverá qualquer retorno
longo à baixa das cotações, ao preços baixos dos produtos petrolíferos. A
inflação arrisca-se a ser forte, a recessão também. Do que aqui se fala não é “do fim do petróleo” e sim “do fim do
petróleo barato”. Isto lamentavelmente será suficiente para provocar enormes
instabilidades económicas e sociais, para deslocar os poderes políticos e
provocar guerras. A infelicidade é que, apesar das advertências bradadas por
alguns, os responsáveis económicos e políticos não previram a situação que se
anuncia, como o mostra o indigente projecto de lei de orientação energética
adoptada pela Assembleia Nacional em 23 de Junho. O choque é portanto
inevitável. Não há plano B. Não existe senão uma semi-solução, a sobriedade
imediata, para reduzir um pouco os efeitos devastadores do choque fazendo
recuar um pouco a sua vinda inelutável. ________ * Antigo ministro francês da Organização do Território e do
Ambiente, deputado por Paris (Verde). [1] Alusão ao verão em França no qual morreram cerca de 15 mil idosos que haviam sido abandonados em casa por famílias em viagem de férias (NT). |