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15/01/2004 George Soros, especulador e filantropo Arquétipo do especulador e profeta do "pós‑capitalismo",
o financeiro e filósofo George Soros é ao mesmo tempo temido e adulado.
Responsável por quebras bolsistas e mecenas numa cinquentena de países, detém
hoje uma fortuna avaliada em sete mil milhões de dólares e propõe-se
financiar as campanhas contra George W. Bush mesmo quando salvou Júnior da
falência em 1990 e continua a trabalhar com o seu pai no Carlyle Group.
Simultaneamente activo em numerosas mudanças de regime, é acusado de ser uma cortina
da CIA.
Ao envolver‑se publicamente na campanha eleitoral
presidencial estado‑unidense para se opor à candidatura de George W.
Bush, o multimilionário George Soros levantou uma tempestade em Washington.
Pelo contrário, o célebre especulador atraiu a simpatia de todos os que, no
mundo, temem que Bush se suceda a ele mesmo. Nascido na Hungria, em 1930, instalou-se em Inglaterra na sequência
da Segunda Guerra Mundial, em 1947. Aí encontrou o filósofo anticomunista
Karl Popper, do qual não cessará de reclamar-se. Em 1956, partiu para os
Estados Unidos e lá criou os primeiros “fundos de cobertura” à disposição das
grandes fortunas. A partir de 1969, a sua principal sociedade, a Quantum Fund
(domiciliado em paraísos fiscais, nas Antilhas holandesas e depois em Curaçao),
assegurou um retorno do investimento de 34,5% em média por ano. “O HOMEM‑QUE‑FEZ‑SALTAR‑O‑BANCO‑DE‑INGLATERRA” George Soros nunca criou riquezas, mas enriqueceu graças à sua
actividade bolsista. Com 7 mil milhões de dólares, o seu património seria hoje
a 28ª fortuna dos Estados Unidos de acordo com a classificação de 2003 da revista
Forbes. Cognominado “o homem‑que-fez-saltar-o-banco-de‑Inglaterra”,
depois de um ataque sobre o libra esterlina, em Setembro de 1992, que lhe
trouxe mil milhões de dólares em detrimento do contribuinte britânico, tornou‑se
o paradigma do especulador. Embora tenha sofrido fortes perdas aquando da
quebra bolsista de 1987, da crise russa de 1998 e da explosão da bolha
Internet, foi o grande beneficiário da crise asiática tailandesa de 1997 e da
crise asiática. Presidindo aos destinos de uma multidão de associações às quais
teria consagrado mais de 300 milhões, seria um dos maiores filantropos
modernos. A sua fundação principal, a Open Society Institute, retira o seu
nome do projecto filosófico do seu mestre Karl Popper: construir sociedades
abertas, ou seja, conscientes das suas imperfeições e capazes de melhorar,
para tornar o mundo melhor. Os seus principais programas visam a defesa dos
direitos do homem, a luta contra a toxicodependência, a formação dos quadros
políticos e o desenvolvimento da liberdade de informação. Estes objectivos
consensuais incluem campanhas controversas de defesa dos direitos dos
homossexuais, da despenalização das drogas e da instauração de programas de
substituição para os toxicodependentes. Esta actividade caritativa e
progressista contrabalançou utilmente a sua imagem de predador financeiro. Contudo, desde há vários anos, levantaram‑se vozes para
sugerir que a sua acção filantrópica é uma cobertura para as intervenções da
CIA e do Estado do Israel no mundo e que a sua fortuna deve‑se mais
aos delitos de neófito do que ao “toque de Midas” [1]. Inicialmente, a Quantum Fund era administrada por representantes de
Lorde Jacob Rothschild (actual procurador de Michail Khodorkovsky),
de Sir James Goldsmith (que foi deputado europeu ao lado de Philippe de
Villiers) e de Edmond Safra (principal negociante de armas de Israel). MEMBRO DO CARLYLE GROUP The Nation revelou
recentemente que foi George Soros, via as sociedades Harken Energy e Spectrum
7, que, em 1990, salvou George W. Bush da falência filtrando as suas dívidas.
Interrogado a este respeito pelo jornal, declarou ter agido assim para
comprar «influência política» (sic) [2]. Como o seu amigo Khodorkovsky, George Soros entrou no Carlyle Group
quando este se tornou o refúgio dos ex da administração Bush pai, em 1992.
Este grupo é a mais importante sociedade de gestão de fortunas do mundo.
Ocupa‑se principalmente dos patrimónios das famílias Bush e Ben Laden.
Por intermédio das sociedades que controla, o Carlyle Group é o 11º
fornecedor do Pentágono. Em 20 de Dezembro de 2002, George Soros foi condenado a 2,2 milhões
de multa pelo tribunal correccional de Paris por delito de neófito aquando do
ataque bolsista contra a Société Générale, em 1988. A HUMAN RIGHTS WATCH E O
INTERNATIONAL CRISIS GROUP Para além do Open Society Institute
(OSI), que está presente numa cinquentena de países, George Soros criou ou
financiou diversas associações e fundações de primeiro plano, como a Human
Rights Watch e o Internacional Crisis Group. A Human Rights Watch (HRW) foi uma das organizações que mais documentou
os crimes atribuídos a Slobodan Milosevic, justificando assim a intervenção
da NATO contra a Sérvia. Uma grande parte das imputações desta associação não
pôde ser confirmada até agora pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia. O Internacional
Crisis Group (ICG) foi criado em 1994 como organização diplomática não
governamental, sob a presidência do senador democrata George Mitchell (que
deu o seu nome ao relatório do mesmo nome sobre a questão israelo‑palestina).
Primeiro activo no Burundi, na Nigéria e na Serra Leoa, o ICG aproximou-se da NATO
a propósito da Jugoslávia. Hoje é presidido por Martti Ahtisaari, o
antigo presidente finlandês que mostrou vontade de negociar com Milosevic
para impedir a guerra. O seu conselho de administração parece uma reunião de
elite de personalidades atlantistas. Ao lado dos antigos conselheiros
nacionais de segurança Richard Allen e Zbigniew Brzezinski, encontra-se o
príncipe kuwaitiano Saud Nasir Al-Sabah, o antigo procurador do Tribunal Penal
Internacional para a ex-Jugoslávia Louise Arbour, ou o antigo comandante
supremo da NATO durante a guerra da Jugoslávia, o general Wesley Clark.
Algumas relações financeiras como o ex‑presidente filipino Fidel Ramos
ou o oligarca russo Michail Khodorkovsky, todos membros do Carlyle Group.
Figuram também personalidades francesas: Simone Veil, presidente do memorial
do Shoah, e a jornalista Christine Ockrent, esposa do governador do Kosovo,
Bernard Kouchner. Em 2001, George Soros criou o Democracy Coalition Project (DCP)
encarregado de animar o fórum não governamental à margem das cimeiras da
Comunidade das democracias organizadas pelo departamento de Estado estado-unidense. ENTRE OS AUTORES DA SUA AGÊNCIA, A NATA DOS ECONOMISTAS NEOLIBERAIS Criou igualmente um Network Media Program que resgatou os arquivos
da Radio Free Europe (da qual um dos antigos dirigentes, Herbert Okun, se senta
no conselho de administração do OSI), a estação da CIA durante a Guerra Fria.
Subvencionou numerosos meios de comunicação social “independentes”, tal como
a Radio B92 durante a guerra da Jugoslávia e actualmente jornais “livres” no
Iraque. Controla a Project
Syndicate, uma agência de divulgação de tribunas livres de personalidades
políticas em 181 diários internacionais. Entre os seus autores, encontra-se a
maior parte dos administradores do ICG e a nata dos economistas neoliberais
[3]. PRECONIZOU INSTRUMENTALIZAR AS VÍTIMAS DO 11 DE SETEMBRO Em Setembro de 2001, logo após os atentados, George Soros participou
num grupo de trabalho do Council on Foreign
Relations, o clube do establishment washingtoniano, sobre o papel
da propaganda na guerra ao terrorismo. Os trabalhos foram presididos pelo
embaixador Richard C. Holbrooke, que desempenhou um papel crucial no
desencadeamento do ataque da Jugoslávia e cuja esposa, Kati Marton, é
administradora do OSI. O extracto das conclusões dirigidas ao presidente Bush
preconiza convencer o resto do mundo da fundamentação da política externa dos
Estados Unidos repisando permanentemente os atentados do 11 de Setembro e
instrumentalizando as vítimas para suscitar a compaixão. Insiste que os
governos estrangeiros não somente sejam convidados a condenar os atentados,
mas a aprovar a argumentação que daí resulta sobre a guerra ao terrorismo.
Por fim, aconselha a desenvolver uma presença mediática no mundo, nomeadamente
incluindo suplementos do New York Times nos grandes diários amigos. A RÚSSIA EXPULSOU O OPEN SOCIETY INSTITUTE EM FINS DE 2003 Nos últimos anos, George Soros desempenhou um papel central em
mudanças de regime, nomeadamente na Europa Central e Oriental. Foi
particularmente activo na Polónia onde era ao mesmo tempo o amigo pessoal do
general Jaruselski e o principal mecenas oficial do sindicato Solidarnoc
(reencontramos hoje Bronislaw Geremek no conselho de administração do ICG).
Mas igualmente na Hungria, a sua pátria de origem. Parece ter participado na encenação da “revolução de veludo” na
Checoslováquia, que colocou no poder Vaclav Havel. Reeditou este modelo na
Sérvia para derrubar Slobodan Milosevic e mais recentemente na Geórgia contra
Edouard Shevarnardze. De cada vez, apoiou-se em movimentos da juventude
do tipo Otpor. É acusado de fomentar perturbações idênticas na Ucrânia e na
Bielorússia. Para pôr termo à sua ingerência na Rússia, as autoridades
agarraram o pretexto de um aluguer não pago para expulsar o Open Society
Institute alguns dias depois de terem prendido Mikhail Khodorkovsky que
suspeitavam de conspirar. O QUE É QUE FAZ CORRER GEORGE SOROS? Tendo em conta as múltiplas facetas do homem‑que-fez-saltar-o-banco-de‑Inglaterra,
é difícil compreender porque escolheu investir actualmente 12 milhões de
dólares para se opor à eleição de George W. Bush. Num artigo destacado do New
Statesman [4], o jornalista Neil Clark assegurou que o presidente e o
multimilionário, que durante muito tempo colaboraram e colaboram ainda, são
ambos partidários do Império neoliberal, mas opõem-se quanto à maneira de
geri-lo. George Soros, que se dedica há anos a dar uma aparência de rosto
humano ao capitalismo financeiro, consideraria que a brutalidade de George W.
Bush põe em perigo a aceitação do sistema pelos povos. Outros insinuam que a
campanha de Soros é consagrada ao malogro e serve unicamente para criar a
ilusão de um debate democrático nos Estados Unidos. Em 2002, declarava «Na Roma antiga, só os Romanos votavam. Sob o
capitalismo mundial moderno, só os Americanos votam. Os Brasileiros, eles,
não votam». Todo um programa. __________ [1] Personagem mítica, o rei Midas era suposto transformar tudo o
que tocava em ouro. [2] Cf. David Corn, “Bush
and billionaire: How insider capitalism benefited W.”, The Nation de
17 de Julho de 2002. [3] Para a França, os
economistas Michel Camdessus, Daniel Cohen, Jean‑Paul Fitoussi, Jean-Pierre
Lehmann, Jean Pisani-Ferry; e politólogos como François Heisbourg, Pierre
Nora ou Jacques Rupnik. [4] Cf. Neil Clark, “NS profile – George Soros”, New Statesman de 2 de Junho de 2003. |