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21/12/2004 A
sete chaves Rafael Evangelista Não há dúvida de que as populações pobres se tornaram as maiores vítimas da SIDA. Dois terços da população da África sub-saariana (região que vai do centro do continente até à África do Sul) é portadora do vírus, um contingente de 25 milhões de pessoas, entre adultos de até 49 anos e crianças. Para combater a doença, os remédios produzidos pela indústria farmacêutica dos países do norte do mundo são excessivamente caros, dada a pobreza da região. Mas além de não ajudar, os países ricos, ex‑metrópoles do continente, podem também ser os responsáveis directos pela migração do vírus da doença, originário de chimpanzés, para o homem. A tese, controversa no meio científico, é o tema do documentário As Origens da SIDA (The Origins of AIDS, de 2003). Em 1992, o jornalista da revista Rolling Stone, Tom Curtis, foi o primeiro a levantar a hipótese de que a doença se teria originado do uso de tecido vivo de macacos para a produção de uma versão teste da vacina anti-polio. Entre 1957 e 1959, mais de um milhão de crianças, na região do antigo Congo Belga, foram objecto de teste de uma vacina criada pelo médico polonês, radicado nos EUA, Hilary Koprowski. Curtis relacionou as áreas de vacinação com o epicentro do surgimento da doença. A teoria foi violentamente combatida pela comunidade científica e rapidamente refutada. Até hoje a hipótese mais aceite é de que o vírus tenha passado ao homem pelo manuseio de facas usadas para cortar macacos usados como alimento. Mas, outro jornalista, o repórter da BBC Edward Hooper, aproveitou a hipótese e iniciou as suas pesquisas. Dezassete anos depois, Hooper publicou um livro chamado The River, reunindo um farto material, tratado com rigor académico, que retomou a hipótese de Curtis. A publicação atingiu como uma lança o coração da comunidade científica. No seu trabalho, Hooper acusa o mesmo Koprowaski de ter usado chimpanzés para o cultivo da sua vacina experimental, contrariando as recomendações da classe científica e de Albert Sabin, de quem era colega e adversário na corrida para o estabelecimento de uma versão confiável do medicamento. As Origens da SIDA conta essa história inquietante e traz um facto novo de extrema relevância, entrevistas e imagens que atestam o uso de mais de 400 chimpanzés no laboratório que era comandado por Koprowski. No ano seguinte à publicação de The River, a Royal Society – a sociedade dos cientistas britânicos – realizou um seminário para debater o tema e reuniu, frente a frente, Koprowski e Hooper. No final do evento, os cientistas britânicos anunciaram ter encontrado uma última amostra da vacina experimental produzida no Congo Belga e enviada aos EUA. Nela, não haveria nem traços do HIV, nem de DNA de chimpanzé. E esta seria a prova definitiva. Mas o documentário questiona essa evidência. A amostra, tida como a última, teve a sua existência negada por muito tempo e passou por diversas mãos – incluindo um centro de pesquisas para o qual Koprowski trabalha até hoje. Além disso, ela pertence a um lote de vacinas CHAT (o modelo criado por Koprowski) que foi produzida no Congo Belga mas nunca foi aplicada por lá. Na busca por respostas, As Origens da SIDA entrevista antigos funcionários e enfermeiros que trabalhavam para o médico, que contam como os macacos eram capturados e usados com crueldade em testes de laboratório. Os depoimentos são acompanhados por imagens de filmes institucionais mostrando os macacos e louvando os benefícios da vacinação para os africanos. A declaração do próprio Koprowski para a equipa do documentário, negando o uso de chimpanzés, soa no mínimo inconsistente. PRÁTICA QUESTIONÁVEL De acordo com o patologista Cecil Fox, um dos entrevistados, até hoje as vacinas anti‑polio são produzidas a partir do cultivo de células de macacos. Segundo ele, o uso de macacos já poderia ter sido substituído há muito tempo, o que só não acontece por causa da indústria farmacêutica, que já tem procedimentos e infra‑estrutura prontos e teria que gastar muito para substituí-los. A indústria, por sinal, foi o primeiro refúgio de Koprowski logo no início da sua carreira. Em 1950, ele foi acusado de usar como cobaias 20 crianças deficientes de um orfanato em Nova Iorque. Com o escândalo, ele perdeu o financiamento público mas continuou os seus experimentos de 1952 a 1955, prosseguindo nos testes com humanos agora patrocinados pela iniciativa privada. Em 1955, a vacina criada pelo seu concorrente directo, John Salk, causou a morte de 11 crianças e deixou outras 260 adoecidas. Koprowski, então, voltou a receber financiamento público e iniciou, com Albert Sabin, um misto de colaboração e disputa para conseguirem uma nova versão da vacina. Sabin entrou em acordo com o governo da União Soviética e fez testes em milhões de pessoas no Cazaquistão, Letónia e Estónia, importando macacos asiáticos. Koprowski, em acordo envolvendo o governo belga e estadunidense, montou o seu laboratório no Congo, que foi uma colónia até 1960. Um ano após instalar o seu laboratório, em 1957, Koprowski foi alertado por Sabin de que a CHAT desenvolvida por ele era altamente instável e que tinha encontrado um vírus desconhecido, a que chamou vírus X. Não necessariamente este vírus era o antecessor do HIV, pois outros vírus de macacos já haviam sido encontrados nas vacinas de Salk. Mas Koprowski apenas respondeu a Sabin de maneira grosseira e ignorou o alerta. As Origens da SIDA
é especialmente chocante por mostrar o desdém e o desrespeito com que as
populações dos países pobres, especialmente das colónias, são tratadas. Em
casos de saúde pública, o princípio de precaução deve ser a regra básica.
Além disso, mostra como a classe científica ainda resiste a tratar
publicamente das suas acções e dos seus erros do passado. A mensagem é
exactamente essa, enquanto os problemas não forem tratados de forma ampla e
transparente – o que às vezes significa transpor os muros da academia – as
tragédias continuarão a ocorrer. |