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18/10/2004 Alimentação: Um dia para se
esquecer Gustavo Capdevilla Alguns países poderosos e certas
organizações multilaterais negam-se a reconhecer o direito humano à
alimentação, apesar de a fome continuar a espalhar‑se pelo mundo. A
quantidade de pessoas subalimentadas de forma grave e permanente é de 842
milhões, tendo aumentado em relação aos 826 milhões registrados há dois anos.
Os números mostram um aumento desde 1996, e as metas da comunidade
internacional de reduzir à metade a população faminta até 2015 parecem cada
vez mais remotas. Nesse quadro, países como os Estados Unidos e instituições
como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização
Mundial do Comércio (OMC) opõem‑se de maneira radical a aceitar a
existência do direito à alimentação no ordenamento jurídico internacional. No caso dos Estados Unidos, essa
conduta mantém‑se sem alteração tanto no governo de Bill Clinton
(1993-2001) quanto na actual administração de George W. Bush. «A cada ano
esse país vota contra o meu relatório, contra o meu mandato e contra a minha
designação», disse Jean Ziegler, relator especial sobre o direito à
alimentação da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.
Porém, Ziegler, um académico, entende que esse comportamento tem apoio porque
os Estados Unidos, que adere à versão neoliberal do mundo, pensa que os
direitos económicos, sociais e culturais não podem existir. Nessa visão, os
únicos direitos humanos são os civis e políticos, acrescentou o especialista,
ressaltando que, quanto ao direito à alimentação, deve ser combatido porque
«somente o mercado resolve o problema da fome». Os chefes da missão
norte-americana perante organismos internacionais de Genebra, George Moose,
no período Clinton, e agora Kevin Moley, representando Bush, sempre disseram
à Comissão de Direitos Humanos que a situação da fome é dramática, mas que
«apenas o mercado pode fixar o preço justo», disse Ziegler. Na mesma linha, o
presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, acredita que no dia em que se
liberalizar suficientemente o circuito de capitais, mercados, patentes e
serviços, e se privatizar todo o sector público, provavelmente a fome
desaparecerá, recordou o relator da ONU. Desde a criação da OMC, em 1
de Janeiro de 1995, a abertura do comércio mundial avançou de forma
extraordinária. No entanto, os números da fome aumentam, ressaltou o
especialista. Os seus comentários mantêm relação com o seu relatório anual
sobre o gozo efectivo do direito à alimentação, que será apresentado
formalmente esta semana na Assembleia Geral das Nações Unidas. Cerca de cem
mil pessoas morrem por dia de inanição ou consequências imediatas da fome. Em
2003, a cada cinco segundos morria, por essas causas, uma criança menor de 10
anos. A carência de vitamina A tira a vida de uma criança a cada quatro
minutos. Ziegler também destacou o tom
pessimista da mensagem do próprio secretário‑geral da Organização das
Nações Unidas, Kofi Annan, pela passagem do Dia Mundial da Alimentação, no
último sábado. «Nunca houve tantos famintos, o que é inaceitável em um mundo
de abundância», disse Annan. «Estamos diante de um flagrante fracasso da
comunidade internacional», avaliou Ziegler. Nas condições actuais, o mundo
poderia nutrir 12.000 milhões de pessoas, quase o dobro da população, com
cerca de 2.700 calorias diárias por habitante, insistiu o relator. As
conclusões do seu estudo mencionam que em alguns países onde houve progressos
admiráveis, como na China, que alcançou a auto‑suficiência alimentar,
esse avanço diminuiu. Em outros países, como Índia, Indonésia, Nigéria,
Paquistão e Sudão, os números pioraram. O mandato do relator da
Comissão de Direitos Humanos também inclui a obrigação de levar ao
conhecimento da comunidade internacional as graves violações actuais ao
direito à alimentação. O relatório faz referência a quatro violações
constatadas durante o último ano. Em dois desses casos, Ziegler reclama dos
governos do Sudão e da Coreia do Norte que adoptem decisões imediatas para
deter as violações do direito à alimentação dos seus povos. Outra advertência
reclama do governo de Israel, na sua condição de potência ocupante, que
respeite as suas obrigações perante os instrumentos internacionais de
direitos humanos e direito humanitário em relação à alimentação da população
que vive nos territórios palestinos ocupados. No caso de Cuba, Ziegler diz‑se
preocupado pela manutenção do embargo unilateral dos Estados Unidos contra
essa nação do Caribe e pelas recentes propostas para endurecer essas
barreiras económicas. |