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30/09/2004 Adam Poter Aljazeera;
retirado de resistir.info Num mundo dominado pela
autocensura, só os corajosos falam. Mas num mundo que se move com energia barata,
com todas as consequências que isto implica, só vale a pena ouvir aqueles que
põem a sua integridade acima da sua carteira. No passado mês de Abril um
homem, perito e analista iraniano de petróleo e energia, Ali Bakhtiari, fez
exactamente isso. Ele levantou-se e fez uma previsão que poderia tê-lo
ridicularizado. «No fim do ano veremos o
petróleo a US$50 por barril», afirmou ele em Berlim no plenário da reunião
anual da Association for the Study of Peak
Oil (ASPO) [1]. Fazer uma previsão de preços
altos é uma coisa. Dizer qual é esse preço é outra. Mas agora, enquanto a
OPEP, os grandes países industriais e a Arábia Saudita cantam a sua ladainha
de que "não há problema", Bakhtiari parece mais justificado do que nunca. «Foi o que eu disse em Abril,
que chegaríamos a cinquenta dólares no fim do ano. E chegámos a isto três
meses mais cedo», diz ele com uma risada. «Penso que foi uma previsão
realmente bastante boa». FORA DE CONTROLE Ainda que perturbadora, a
elevação da amplitude de preços do petróleo é uma ameaça económica
indubitável. Não para os super-ricos, os 1% de ganhadores globais do topo,
nem para os super-pobres, os 50% das pessoas do mundo que vivem com menos de
US$2 por dia, mas para todos os demais sim. Os cerca de três mil milhões de
que fazemos parte. «Estou receoso por pensar que
o preço irá ainda mais alto», diz Bakhtiari de forma preocupada. «Eu tinha
esperança de que permaneceria na amplitude dos US$40. Penso que, àquele
nível, as economias poderiam aguentar, mas agora o preço do petróleo está
fora do controle seja de quem for». O argumento é de que ao invés
de planear uma estrutura para a utilização do petróleo, foi deixado aos
fundamentalistas do mercado determinar o futuro destes valiosos activos fósseis. O colapso da determinação do
preço do petróleo da década de 1990, bem como a fraqueza do dólar, significou
que o valor real do petróleo tornou-se incrivelmente baixo. Consequentemente, nenhuma das
grandes majors petroleiras ou nenhum dos países produtores esteve
interessado em gastar milhares de milhões de dólares em novo investimento,
porque não havia lucro a curto prazo. APETITE CRESCENTE Ninguém estava interessado em
gastar milhares de milhões na eficiência dos combustíveis porque não havia
lucro a curto prazo. Assim como ninguém estava interessado em gastar milhares
de milhões na energia solar, eólica ou do hidrogénio. A mesma corrente de
pensamento diz que, tal como estes factores, o petróleo foi fisicamente
consumido avidamente como se não houvesse amanhã. Ironicamente, só aquele
enorme apetite, crescendo a uma taxa exponencial devido à procura nos EUA, na
China e na Índia, é que podia exacerbar o problema. Bakhtiari afirma: «Espero que
não nos movamos para uma amplitude de cinquenta dólares. As grandes
economias, e com isso quero dizer os EUA, a UE, a China, a Índia e o Japão,
estão exactamente a começar a se habituar à ideia dos US$40 por barril. Nós
ultrapassámos aquela barreira financeira e psicológica, mas se nos movermos
directamente para a amplitude dos US$50 isto não será bom para ninguém». Contudo, ele não encara a
amplitude dos quarenta ou cinquenta dólares como algo que permanecerá para
sempre. Na verdade, nem mesmo por um longo período de tempo. Ao invés disso,
ele considera que o preço está a ser conduzido por alguma coisa muito mais
fundamental. SÍNDROMA DO PICO PETROLÍFERO?
«Ninguém mais pode conter o
preço. Toda a gente pensa, por exemplo, que seria a OPEP que poderia
administrar a procura. Mas isso agora é passado. Agora é realmente o pico
petrolífero que está por trás da roda do carro. O pico petrolífero está a
conduzir à elevação do preço e a procura não é a questão real. Estamos a
entrar numa nova era, mas estamos apenas no princípio dela». A ideia por trás do “pico
petrolífero” é esta. Que, quando o planeta atinge o ponto em que consumiu a
metade de todo o seu petróleo disponível, então a combinação de procura
taurina (bullish demand), campos em declínio e estrangulamento de
oferta inultrapassáveis criarão choques de preços brutais. Quase certamente
decepando a cabeça da economia mundial nesse processo. O pico na oferta petrolífera
actuará como uma guilhotina económica. Mas a corda que suspende a lâmina
acima das nossas cabeças será solta sem aviso prévio. Políticos, países produtores,
grandes companhias petrolíferas e Estados consumidores não estão prontos para
anunciar a sua própria morte. Isto não seria bom para os negócios, ou para
uma reeleição, ou para ambos. IMPARÁVEL «Se não houvesse nada com que
nos preocupássemos, então não haveria aumentos de preços», explica Bakhtiari. «Se não há qualquer razão
para nos preocuparmos, porque há abundância de petróleo e a OPEP ou a Yukos
ou quem quer que seja podem simplesmente bombear mais algum, então não haveria
problemas e nem haveria aumentos de preço. O mercado não estaria nada
preocupado». Enquanto Bakhtiari admite que
as previsões estão repletas de perigo, a sua própria investigação, até agora
extremamente precisa, afirma que o pico petrolífero ainda está para chegar.
Tal como o furacão Ivan estourando a partir do oceano, podemos estar a
experimentar apenas as primeiras rajadas de ventos tempestuosos. «Penso que o pico chegará por
volta de 2006, 2007 — ou seja, daqui a uns poucos meses. E pronto. A partir
daquele ponto ninguém poderá dizer o que vai acontecer — excepto que o preço
subirá. E ninguém será capaz de travá-lo». |
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[1] A próxima reunião da ASPO será em Lisboa, a 19 e 20 de Maio de 2005.
A URL do sítio web de Ali
Bakhtiari é www.samsambakhtiari.com