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16/08/2004 Tide?
Ou Ivory Snow? – O poder público na era do império – Arundhati
Roy * Pediram-me que fale a
respeito do “poder público na era do império”. Não costumo fazer o que me
dizem, mas por uma feliz casualidade isso é precisamente do que quero falar
hoje. Quando a linguagem foi
estripada e dessangrada do seu sentido, o que entendemos por “poder público”?
Quando a liberdade significa ocupação; a democracia, capitalismo neoliberal;
a reforma, repressão; e palavras como “emancipação” e “missão de paz” nos
gelam o sangue; então uma expressão como “poder público” pode significar o
que queira cada um. Por exemplo, uma máquina para desenvolver os bíceps ou um
produto de limpeza. Por isso, vou ter que definir “poder público” pelo
caminho, do modo que, digamos, mais considerar adequado. Na Índia, a palavra “public”
está incorporada na língua hindu. Significa povo. Em hindu temos “sarkar” e
“public”, o governo e o povo. Este uso implica a suposição de que o governo é
algo aparte de “o povo”. A distinção tem muito a ver com o facto de que a
luta pela liberdade na Índia, ainda que magnífica, não foi nem muito menos revolucionária.
A elite indiana calçou com facilidade e elegância os sapatos que deixaram os
imperialistas britânicos. Uma sociedade extremamente empobrecida e
essencialmente feudal converteu‑se num independente e moderno estado‑nação.
Hoje, quando passaram cinquenta e sete anos exactos, os verdadeiros vencidos
ainda vêem o governo como “mai-baap”, o pai e provedor. O sector ligeiramente
mais radical, os que ainda têm fogo nas entranhas, vêem-no como “chor”, o
ladrão, o que arrebata todas as coisas. Seja como for, para a maioria
dos indianos, “sarkar” é algo muito diferente de “public”. No entanto, à
medida que se sobem os degraus da escala social, a distinção entre “sarkar” e
“public” dilui‑se. À elite indiana, como a todas as elites do mundo,
custa‑lhe separar‑se do estado. Vê o que vê o estado, pensa
como o estado, fala como o estado. Nos Estados Unidos, por outro
lado, a distinção entre “sarkar” e “public” penetrou a níveis muito mais
profundos dentro da sociedade. Isto poderia ser indicativo de uma democracia
robusta, mas infelizmente o assunto é um pouco mais complicado e menos
bonito. Entre outras coisas está relacionado com a intrincada trama de
paranóia urdida pelo “sarkar” estadounidense e difundida pelas corporações
mediáticas e por Hollywood. Os estadounidenses normais têm sido manipulados
até imaginar que são um povo sob cerco cujo único refúgio e protecção provém
do seu governo. Se não são os comunistas, é a Al Qaeda. Se não é Cuba, é a
Nicarágua. O resultado é que a nação mais poderosa do mundo – com o seu
inigualável arsenal, o seu historial de combate e financiamento de
inumeráveis guerras, e a única nação na história que fez de facto uso de
bombas atómicas – está habitada por uma cidadania aterrorizada que se assusta
até da sua sombra. Um povo atado ao estado, não pelas prestações sociais, a
previdência pública ou as garantias laborais, mas pelo medo. Este medo fabricado
sinteticamente utiliza‑se para conseguir o apoio do povo a mais actos
de agressão. E assim se vai construindo uma espiral de histeria auto‑reprodutora,
já calibrada oficialmente pelo governo estadounidense no seu programa Alertas
Terroristas em Rutilante Tecnicolor: fúcsia, azul turquesa, rosa salmão. Aos que a olhamos de fora,
esta fusão de “sarkar” e “public” nos EU às vezes torna difícil distinguir
entre as acções do governo dos EU e as do povo estadounidense. Esta confusão
é o que alimenta o anti‑americanismo no mundo. Então o governo dos EU
aferra‑se ao anti‑americanismo e amplifica‑o por meio
dos seus leais meios de comunicação. Já conhecem a rotina: «Por que nos
odeiam? Odeiam as nossas liberdades»... etc.... etc. Desta forma, reforça‑se
a sensação de isolamento da população dos EU e torna ainda mais íntimo o
abraço entre “sarkar” e “public”. Como a Capuchinho Vermelho procurando o
conforto da cama do lobo. O uso da ameaça de um inimigo
externo para unificar a população a nosso favor é um cavalo velho e cansado,
a que sobem os políticos há séculos para chegar ao poder. Mas será que as
pessoas normais estão farta desse pobre cavalo velho e estão a procurar outra
coisa? Há uma antiga canção de um filme indiano que diz: «yeh public hai, yeh
sab jaanti hai» (o povo sim, sabe tudo). Não seria encantador se a canção
tivesse razão e os políticos não? Antes da invasão ilegal do
Iraque por Washington, um inquérito da Gallup International indicava que em
nenhum país europeu o apoio a uma guerra unilateral superava 11%. A 15 de
Fevereiro de 2003, poucas semanas antes da invasão, mais de dez milhões de
pessoas manifestaram‑se contra a guerra nos diferentes continentes,
incluindo a América do Norte. E mesmo assim os governos de muitos países
supostamente democráticos uniram‑se à guerra. A questão é: a “democracia” é
ainda democrática? Os governos democráticos têm
que prestar contas às pessoas que os elegeram? E, crucialmente, o “public”
dos países democráticos é responsável pelas acções do seu “sarkar”? Se nos pomos a pensar, a
lógica em que se baseia a guerra contra o terrorismo e a lógica em que se
baseia o terrorismo é exactamente a mesma. Ambas obrigam os cidadãos a pagar
pelas acções dos seus governos. A Al Qaeda obrigou o povo dos EU a pagar com
as suas vidas as acções do seu governo na Palestina, na Arábia Saudita, no
Iraque e no Afeganistão. O governo estadounidense obrigou o povo afegão a
pagar com milhares de vidas as acções dos taliban, e o povo iraquiano está a
pagar com centenas de milhares as acções de Saddam Husein. A diferença essencial é que
ninguém elegeu realmente a Al Qaeda, ou os talibans ou Saddam Husein. Mas o presidente
dos Estados Unidos foi eleito (bom... de certa maneira). Os chefes de governo de
Itália, Espanha e Reino Unido tinham ganho eleições. Não poderia dizer-se,
então, que os cidadãos destes países são mais responsáveis pelas acções dos
seus governos do que o são os iraquianos pelas acções de Saddam Hussein, ou
os afegãos pelas dos taliban? Qual dos seus respectivos
deuses decide se esta ou a outra é uma “guerra justa”? George Bush pai disse
uma vez: «Eu nunca pedirei desculpas em nome dos EU. Não me importa quais são
os factos». Quando o presidente do país mais poderoso do mundo não precisa de
se importar com quais são os factos, então pelo menos podemos estar seguros
de que entramos na Era do Império. Assim, que significado tem o
poder público na era do império? Tem algum significado? Existe na realidade? Nestes tempos supostamente
democráticos, o pensamento político convencional afirma que o poder público
se exerce nas urnas. Dúzias de países de todo o mundo irão às urnas este ano,
e a maioria (não todos) terão os governos em quem tenham votado. Mas
conseguirão ter os governos que querem? Na Índia, este ano, votámos a
derrota dos nacionalistas hindus. No entanto, mesmo enquanto celebrávamos,
sabíamos que no que se refere ao armamento nuclear, ao neoliberalismo, à
privatização, à censura, às grandes barragens – em todas as questões
importantes, aparte o nacionalismo hindu – o Partido do Congresso e o BJP não
apresentam grandes diferenças ideológicas. Sabemos também que foi o legado de
cinquenta anos do Partido do Congresso que abriu caminho, culturalmente e
politicamente, à extrema direita. Também foi o Partido do Congresso que abriu
os mercados da Índia à globalização corporativa. Na sua campanha eleitoral, o
Partido do Congresso assegurava que estava disposto a rever parte da sua
política económica. Milhões de pessoas, das mais pobres da Índia, saíram a
votar em massa nestas eleições. O espectáculo da grande democracia indiana
foi televisionada ao vivo: os agricultores pobres, os anciãos e enfermos, as mulheres
cobertas de véus com as suas formosas jóias de prata, indo aos colégios
eleitorais sobre elefantes, camelos e carros de bois num espectáculo
encantadoramente anacrónico. Na contramão das predições de todos os
especialistas e sondagens da Índia, o Congresso obteve mais votos do que
nenhum outro partido. Os partidos comunistas conseguiram o maior número de
votos da sua história. Os pobres da Índia votaram claramente na contramão das
“reformas” económicas do neoliberalismo e do fascismo crescente. Quanto se
contaram os votos, os meios de comunicação corporativos despacharam‑nos
como figurantes baratos numa filmagem. Os canais de televisão apresentavam
telas divididas: em metade da tela aparecia o caos que se tinha formado à
porta da residência de Sonia Gandhi, líder do Partido do Congresso, enquanto
se improvisava um governo de coligação. A outra metade mostrava
corretores de bolsa frenéticos nas imediações da Bolsa de Bombaim, entrando
em pânico ao pensar que o Partido do Congresso poderia de facto honrar as
suas promessas e implementar o seu mandato eleitoral. Vimos o índice de bolsa
Sensex subir, baixar e dar tombos. Os meios de comunicação, cujas próprias
acções estavam a cair a pique, relataram o colapso da bolsa como se o
Paquistão acabasse de lançar mísseis balísticos intercontinentais sobre Nova
Delhi. Antes inclusive da tomada de
posse do novo governo, houve políticos de primeira fila do Partido do
Congresso que fizeram declarações públicas em que asseguravam aos
investidores e aos mídia que a privatização dos serviços públicos
continuaria. Entretanto, o BJP, ao passar à oposição, começou a pôr
objecções, de forma tão cínica como cómica, ao investimento estrangeiro
directo e a uma maior abertura dos mercados indianos. Esta é a dialéctica espúria em evolução da democracia
eleitoral. Quanto aos indianos pobres,
logo que providenciaram os votos, espera‑se que desandem para casa,
que a política será decidida apesar deles. E nas eleições dos EU? Têm
opção real os eleitores? É verdade que se John Kerry
chega a ser presidente, mudarão alguns dos magnatas do petróleo e
fundamentalistas cristãos da Casa Branca. Serão poucos os que lamentarão ver
pelas costas Dick Cheney, Donald Rumsfeld ou John Ashcroft e a sua descarada
bufonaria. O que preocupa realmente é que as suas políticas continuem com a
nova administração. Que tenhamos Bushismo sem Bush. Os que estão realmente no
poder – os banqueiros, administradores, etc. – não são vulneráveis ao voto
(... e de qualquer modo financiam ambos os lados). Por desgraça, a importância
das eleições estadounidenses degenerou num concurso de personalidades. Uma
briga para dirimir quem seria o melhor capataz do império. John Kerry crê na
ideia do império com o mesmo fervor que George Bush. O sistema político dos EU
está cuidadosamente confeccionado para impedir que qualquer um que questione
a bondade natural da estrutura de poder militar‑industrial‑corporativa
possa entrar pelas portas do poder. Neste contexto, não
surpreende ninguém que nestas eleições os dois adversários sejam licenciados
da Universidade de Yale, ambos membros da sociedade secreta “Skull and
Bones”, ambos milionários, ambos jogando aos soldadinhos, ambos apregoando a
guerra e discutindo de maneira quase pueril sobre qual dos dois conduzirá com
mais eficiência a guerra contra o terrorismo. Tal como o presidente Bill
Clinton antes dele, Kerry continuará a expansão do poder económico e militar
dos EU no mundo. Diz que teria votado a favor da guerra de Bush no Iraque,
mesmo se tivesse sabido que o Iraque não tinha armas de destruição em massa.
Promete destinar mais tropas ao Iraque. Recentemente disse que apoia cem por
cento a política de Bush em relação a Israel e Ariel Sharon. Diz que manterá
98% dos cortes fiscais de Bush. Assim, sob a superfície do
histérico intercâmbio de insultos, o consenso é quase absoluto. Parece que,
mesmo que o eleitorado americano vote em Kerry, ainda assim obterá Bush. O
presidente John Kerbush ou o presidente George Berry. Não é uma escolha real. É uma
escolha aparente. É como eleger uma marca de detergente. Quer se compre Tide
quer se compre Ivory Snow, os dois são de Procter & Gamble. Isto não significa que a
posição de cada um não tenha os seus matizes, que o Congresso e o BJP, os
neolaboristas e os conservadores, os democratas e os republicanos sejam o
mesmo. Claro que não o são. Também não o são Tide e Ivory Snow: Tide tem
oxigénio activo e Ivory Snow é um sabão suave. Na Índia, há diferenças entre
um partido abertamente fascista (o BJP) e outro que teimosamente põe uma
comunidade contra outra (Congresso), semeando as sementes do comunalismo que
depois o BJP habilmente colhe. Existem diferenças nos níveis
de inteligência e insensibilidade dos actuais candidatos a presidente dos EU.
O movimento contra a guerra nos EU realizou um trabalho extraordinário ao pôr
de manifesto as mentiras e a venalidade que deram lugar à invasão do Iraque,
apesar da propaganda e intimidação que enfrentavam. Esta acção prestou um grande
serviço não só ao povo estadounidense, mas ao mundo inteiro. Mas agora, se o
movimento contra a guerra se une abertamente à campanha de Kerry, o resto do
mundo pensará que está de acordo com a sua política de imperialismo
“sensível”. É preferível o imperialismo dos EEUU se o apoiam a ONU e os
países europeus? É preferível que a ONU peça soldados à Índia e ao Paquistão
para que matem e morram no Iraque em lugar dos soldados estadounidenses? É
verdade que a única mudança que podem esperar os iraquianos é que as
companhias francesas, alemãs e russas participem no saque do seu país? É isto melhor ou pior para os
que vivemos em nações vassalas? É melhor para o mundo ter um imperador mais
esperto no poder, ou um mais estúpido? É essa a nossa única alternativa? Perdoem-me, já sei que estas
são perguntas incómodas, inclusive brutais, mas é necessário colocá-las. A verdade é que a democracia
eleitoral converteu‑se num processo de manipulação cínica. Oferece um
espaço político muito reduzido, e seria ingénuo acreditar que neste espaço há
opções reais. A crise da democracia moderna
é profunda. No palco global, para além da
jurisdição dos governos soberanos, os instrumentos internacionais de comércio
e finanças supervisionam um complexo sistema de leis multilaterais e acordos
que consolidaram um sistema de apropriação que faria envergonhar o
colonialismo. Este sistema permite a entrada e saída sem restrições de
quantidades ingentes de capital especulativo – dinheiro quente – dos países
do terceiro mundo, que acaba praticamente por ditar a sua política económica.
Utilizando a ameaça da fuga de capitais como alavanca, o capital
internacional penetra cada vez mais em todos os níveis destas economias. As
gigantes corporações transnacionais estão a tomar as rédeas das suas
infra-estruturas essenciais e dos seus recursos naturais, dos seus minerais,
da sua água, da sua electricidade. A Organização Mundial do Comércio, o Banco
Mundial, o Fundo Monetário Internacional e outras instituições financeiras
como o Banco Asiático de Desenvolvimento, praticamente escrevem a política
económica e a legislação parlamentar. Com uma combinação mortífera de
arrogância e falta de escrúpulos, brandem os seus martelos em sociedades
historicamente complexas, frágeis, interdependentes, e devastam‑nas. Tudo isto, na verdade, sob o
alegre ondear do cartaz da “reforma”. Como consequência desta
reforma, em África, Ásia e América latina, milhares de negócios e indústrias
de pequena envergadura quebraram. Milhões de trabalhadores e agricultores
perderam os seus empregos e as suas terras. A revista The Spectator, de
Londres, assegura-nos que «vivemos na era mais feliz, sã e pacífica da
história da humanidade». Milhares de milhões de pessoas perguntariam de que
"nós" se fala? Onde vivem? Como se chamam? O que há que compreender é
que a democracia moderna está cimentada por uma aceitação quase religiosa do
estado‑nação. Mas a globalização das corporações não o está. O capital
líquido não o está. Portanto, ainda que o capital requeira o poder de coerção
do estado‑nação para reprimir as revoltas nos quartéis dos servos, o
sistema garante que nenhuma nação possa opor-se à globalização por sua conta
e risco. Uma mudança radical não pode
ser nem será nunca algo negociado pelos governos; só pode ser executada pelo
povo. Pelo público. Um público capaz de dar a mão através das fronteiras. Assim, quando falamos do
“poder público na era do império”, espero que não pareça presunçoso assumir
que a única coisa que vale a pena debater a sério é o poder de um público
dissidente. um público que está em desacordo com o próprio conceito de
império. Um público que enfrenta os que ocupam o poder: os governos e
instituições internacionais, nacionais, regionais ou estaduais que apoiam e
prestam serviços ao império. Quais são as vias de protesto
que podem empregar as pessoas que desejam resistir ao império? Quando digo
“resistir” não me refiro só a expressar desacordo, mas a forçar uma mudança
real. O império tem uma ampla gama de cartões de visita. Utiliza diferentes
armas para forçar a abertura de diferentes mercados. Já sabem, o livro de
cheques e o míssil de cruzeiro. Para os pobres de muitos
países, o império não aparece sempre em forma de mísseis ou tanques, como no
Iraque, no Afeganistão ou no Vietname. Aparece nas suas vidas em forma de
avatares muito locais – pela perda de emprego, pelo envio de recibos da luz
por pagar, pelos cortes no fornecimento de água, por despejos das suas casas
e expulsos das suas terras. Tudo isto supervisionado pela maquinaria
repressora do estado, a polícia, o exército, o poder judicial. Trata-se de um
processo de empobrecimento implacável com que os pobres estão familiarizados
historicamente. O que faz o império é reforçar e exacerbar as desigualdades
já existentes. Mesmo até há pouco tempo, as
pessoas tinham dificuldade em ver-se a si mesmas como vítimas das conquistas
do império. Mas actualmente os conflitos locais estão a ver o seu próprio
papel com crescente clareza. Por muito grandiloquente que soe, a verdade é
que estão a enfrentar o império, cada um à sua maneira, numa multiplicidade
de maneiras. De modo diferente no Iraque, na África do Sul, na Índia, na
Argentina e, já agora, nas ruas da Europa e dos Estados Unidos. Os movimentos de resistência
de massas, os activistas, jornalistas, artistas e cineastas uniram‑se
para despir o império do seu brilho. Interligaram os pontos, converteram os
gráficos de cash‑flow e os discursos dos conselhos de administração em
histórias reais sobre pessoas reais e desespero real. Demonstraram como o
projecto neoliberal custou às pessoas as suas casas, as suas terras, os seus
empregos, a sua liberdade, a sua dignidade. Fizeram tangível o intangível. O
que antes parecia um inimigo incorpóreo é agora corpóreo. Isto é uma grande vitória,
forjada graças à união de grupos políticos diferentes, com estratégias muito
variadas. Mas o que todos compreenderam é que o objecto da sua raiva, do seu
activismo e do seu empenho é o mesmo. Este foi o princípio da verdadeira
globalização. A globalização da inconformidade. Em geral, hoje em dia, há
dois tipos de movimentos de resistência de massas nos países do terceiro
mundo. O movimento dos sem terra no Brasil, o movimento anti‑barragens
na Índia, os zapatistas no México, o foro anti-privatização na África do Sul,
e centenas de outros, estão a lutar contra os seus próprios governos
soberanos, que passaram a ser agentes do projecto neoliberal. A maior parte
destes são conflitos radicais, em que se luta por mudar a estrutura e o
modelo escolhiido para o “desenvolvimento” das suas sociedades. Depois há aqueles que lutam
contra ocupações neocoloniais formais e brutais em territórios disputados,
cujas fronteiras foram desenhadas pelas potências imperialistas no século
passado. Os povos da Palestina, do Tibete, da Chechénia, de Cachemira e de
vários estados do nordeste da Índia mantêm uma luta pela autodeterminação. Algumas destas lutas podem
ter sido radicais, e inclusive revolucionárias, nos seus começos, mas com
frequência a brutalidade da repressão com que se defrontam empurra‑os
para áreas conservadoras e inclusive retrógradas, em que as estratégias de
violência e a linguagem de nacionalismo religioso e cultural que empregam são
idênticas às dos estados que pretendem substituir. Muitos dos soldados rasos
destas contendas descobrirão, como aqueles que lutaram contra o apartheid na
África do Sul, que uma vez que vençam a ocupação, vão ter outra guerra em
mãos, uma guerra contra o colonialismo económico encoberto. Entretanto, à medida que o
abismo entre ricos e pobres se aprofunda e a batalha pelo controle dos
recursos mundiais se intensifica, o colonialismo económico por meio da
agressão militar formal está a ensaiar um regresso. O Iraque de hoje proporciona
uma ilustração trágica deste processo. Uma invasão ilegal. Uma ocupação
brutal em nome da libertação. A reelaboração de leis que permitem a
apropriação desavergonhada da riqueza e dos recursos do país pelas
corporações aliadas à ocupação, e agora a farsa de um “governo iraquiano”
local. Por estas razões, é absurdo
condenar a resistência à ocupação do Iraque pelos EU por estar organizada por
terroristas, insurgentes ou partidários de Saddam Hussein. Afinal de contas,
se alguém invadisse e ocupasse os Estados Unidos, seriam todos os que
lutassem pela sua libertação terroristas, insurgentes ou bushistas? A resistência iraquiana luta
na frente da batalha contra o império, e por isso a sua luta é a nossa luta. Como a maioria dos movimentos
de resistência, está formada por um leque heterogéneo de variadas facções.
Antigos baathistas, liberais, islamitas, colaboracionistas descontentes,
comunistas, etc. Como é de esperar, está cheio de oportunismo, rivalidades
locais, demagogia e delinquência. Mas se só vamos apoiar os movimentos
imaculados, então nenhuma resistência merecerá a nossa pureza. Isto não significa que não
devamos criticar nunca os movimentos de resistência. Muitos deles padecem de
falta de democracia, de idolatria dos seus líderes, de falta de
transparência, de falta de visão e direcção. Mas sobretudo sofrem pela
difamação, pela repressão e pela falta de recursos. Antes de decidir como uma
resistência iraquiana imaculada deveria dirigir a sua batalha laica,
feminista, democrática e não violenta, deveríamos reforçar a resistência pelo
nosso lado, obrigando os EU e os seus aliados a retirar-se do Iraque. O primeiro confronto militar
que se deu nos EU entre o movimento para a justiça global e a junta
neoliberal teve lugar na famosa conferência da OMC em Seattle, em Dezembro de
1999. Para muitos movimentos de massas em países em via de desenvolvimento
que levavam muito tempo travando batalhas isoladas e solitárias, Seattle foi
o primeiro sinal de alívio, que demonstrava que a sua raiva e a sua visão de
um mundo diferente era partilhada por pessoas dos países imperialistas. Em Janeiro de 2001, em Porto
Alegre, no Brasil, reuniram-se 20.000 activistas, estudantes, cineastas –
algumas das melhores mentes do mundo – para pôr em comum as suas experiências
e trocar ideias sobre como defrontar o império. Assim nasceu o já histórico Fórum Social Mundial.
Esta era a primeira reunião oficial de um estimulante, anárquico, não
doutrinado, novo tipo de “poder público”. O lema do FSM é "Outro mundo é
possível". O foro converteu‑se numa plataforma em que centenas de
conversas, debates e seminários ajudaram a temperar e refinar uma visão de
como seria esse mundo. Em Janeiro de 2004,
celebrou-se o quarto FSM em Mumbai, na Índia, a que foram 200.000 delegados.
Eu nunca tinha participado numa reunião tão vibrante. Uma das provas do
sucesso do foro social é que os meios de comunicação principais da Índia o
ignoraram completamente. Mas agora o FSM está ameaçado pelo seu próprio
sucesso. O ambiente seguro, aberto e lúdico do foro permitiu participar e deu
voz a políticos e organizações não governamentais implicados nos sistemas
políticos e económicos a que se opõe o foro. Outro perigo é que o FSM,
cujo papel foi tão vital no movimento pela justiça global, corre o risco de
converter-se num fim em si mesmo. Somente organizá-lo todos os anos consome
as energias de alguns dos melhores activistas que temos. Se as conversas em
torno da resistência substituem a autêntica desobediência civil, o FSM
poderia tornar-se em algo valioso para aqueles contra quem se criou. O foro
deve‑se celebrar e tem que crescer, mas temos que encontrar formas de
canalizar essas conversas para acções concretas. À medida que os movimentos de
resistência se estenderam cruzando fronteiras e começaram a constituir uma
ameaça real, os governos desenvolveram as suas próprias estratégias para
derrotá-los, que vão da assimilação à repressão. Vou falar de três dos perigos
actuais que afectam aos movimentos de resistência: o difícil ponto de
encontro entre os movimentos de massas e os meios de comunicação de massas;
os riscos da ONG-ização da resistência; e o confronto entre os movimentos de
resistência e os estados cada vez mais repressivos. O lugar em que os meios de
massa se encontram com os movimentos de massas é complicado. Os governos deram‑se
conta de que meios que funcionam de crise em crise, não podem permitir‑se
ficar muito tempo no mesmo lugar. Tal como os negócios requerem rotatividade
de dinheiro, os meios requerem rotatividade de crise. Países inteiros
convertem‑se em notícias passadas. Deixam de existir e a escuridão
torna‑se mais profunda do que antes de os focos brilharem brevemente
sobre eles. Vimos isso acontecer no Afeganistão quando os soviéticos se
retiraram, e agora, uma vez que a operação Liberdade Duradoura pôs Hamid Karzai,
da CIA, no poder, o Afeganistão foi entregue aos seus senhores da guerra uma
vez mais. No Iraque instalou‑se
outro agente da CIA, Iyad Allawi, assim talvez tenha chegado a hora de os
meios se irem embora dali também. Enquanto os governos refinam
a arte de esperar que passe cada crise, os movimentos de resistência estão a
enredar‑se cada vez mais numa espiral de produção de crise, procurando
as formas de fabricá-las em formatos de fácil consumo à medida dos
espectadores. Todo o movimento popular que
se respeite, todo o “tema”, tem de ter o seu próprio balão publicitário no ar
anunciando a sua marca e seu propósito. Por esta razão, os mortos de
fome são mais eficazes à hora de dar publicidade à pobreza do que milhões de
pessoas desnutridas, que não fazem manchete. As barragens não são merecedoras
de notícias até que a devastação que produzem fica bem na televisão. (E nessa
altura já é demasiado tarde). Passar dias a fio de pé na
água enquanto se vai enchendo a barragem, vendo a própria casa e pertences
boiando para protestar contra uma grande barragem, costumava ser uma
estratégia eficaz, mas já não o é. Os meios estão mortalmente aborrecidos
dessa. Assim, para capturar a sua atenção, as centenas de milhares de pessoas
deslocadas pelas represas terão que procurar novos truques ou abandonar a
luta. As concentrações coloridas e
as manifestações de fim de semana são essenciais, mas por si sós não são o
bastante potentes para parar as guerras. As guerras só terminarão quando os
soldados se neguem a lutar, quando os trabalhadores se neguem a carregar
armas nos navios e aviões, quando o povo boicote os centros económicos do
império disseminados por todo o globo. Se queremos reclamar o espaço
da desobediência civil, temos que nos liberar da tirania do jornalismo de
crise com o seu medo ao mundano. Temos que usar a nossa experiência, a nossa
imaginação e a nossa arte para interrogar os instrumentos do estado que
garantem que a “normalidade” seja o que é: cruel, injusta, inaceitável. Temos
que sacar à luz as políticas e processos que fazem que as coisas de cada dia
– a comida, a água, a habitação e a dignidade – sejam um sonho distante para
as pessoas normais. O verdadeiro ataque preventivo é compreender que as
guerras são o resultado final de uma paz imperfeita e injusta. No que se refere aos
movimentos de resistência, a verdade é que não há cobertura dos meios
comparável à força das massas em acção sobre o terreno. Não há realmente
outra opção que a fatigante mobilização política ao velho estilo. A globalização das
corporações aumentou a distância entre os que tomam as decisões e os que
sofrem as sequelas dessas decisões. Os foros como o FSM permitem aos
movimentos locais de resistência reduzir essa distância e tomar contacto com
os movimentos correspondentes nos países ricos. Esta é uma aliança importante
e formidável. Por exemplo, quando a primeira barragem privada da Índia, a
barragem de Maheshwar, estava em construção, as alianças criadas entre a
Narmada Bachao Andolaan (NBA), a organização alemã Urgewald, a Declaração de
Berna na Suíça e a Rede Internacional Rivers em Berkeley nos EEUU, uniram-se
para conseguir que uma série de bancos internacionais e corporações
abandonassem o projecto. Isto não teria sido possível se não tivesse existido
sobre o terreno um movimento de resistência sólido como uma pedra. A voz
desse movimento local viu‑se amplificada pelos que os apoiavam a nível
global, causando a deserção dos investidores, envergonhados. Se se formassem infinitas
alianças similares, dirigidas a projectos específicos e a corporações
específicas, poder‑se‑ia criar um mundo diferente. Deveríamos
começar pelas corporações que faziam negócios com Saddam Hussein e agora se
aproveitam da devastação e ocupação do Iraque. Outro perigo que ameaça aos
movimentos de massas é a ONG-ização da resistência. Será fácil distorcer o
que vou dizer para que pareça uma acusação a todas as ONG. Isso seria falso.
Nas sujas águas das falsas ONG montadas para chupar subvenções ou iludir
impostos (em estados como Bihar são dados como dote) também existem ONG que
realizam trabalho valioso. Mas é importante observar o fenómeno das ONG num
contexto político mais amplo. Na Índia, por exemplo, o
apogeu das ONG subvencionadas começou no final dos anos 80 e nos 90,
coincidindo com a abertura dos mercados indianos ao neoliberalismo. Naquele
momento, o estado indiano, cumprindo os requisitos do ajuste estrutural
correspondente, estava retirando o seu apoio financeiro ao desenvolvimento
rural, à agricultura, à energia, ao transporte e à saúde pública. À medida
que o estado abdicava da sua função tradicional, as ONG puseram‑se a
trabalhar nestas áreas específicas. A diferença, evidentemente, é que os
fundos que têm à sua disposição são uma fracção minúscula do corte que se
realizou na despesa pública. A maioria das grandes ONG subvencionadas estão
financiadas e patrocinadas pelas agências de ajuda e desenvolvimento, que por
sua vez dependem para o seu financiamento dos governos ocidentais, do Banco
Mundial, da ONU e de algumas corporações multinacionais. Ainda que não sejam
exactamente as mesmas agências, fazem certamente parte da mesma formação
política que está à solta, que supervisiona o projecto neoliberal e que exige
à partida o corte drástico das despesas públicas. Qual é a razão para que estas
agências financiem as ONG? Poderia ser por causa do antiquado zelo
missionário? Sentimento de culpa? Na realidade, é algo mais do que isso. As
ONG dão a impressão de estar a encher o vácuo criado pelo estado em retirada.
E estão, mas de uma forma materialmente inconsequente. A sua contribuição
real é que por meio delas se dilui a raiva política e distribuem como
assistência ou caridade o que as pessoas deveriam ter por direito. As ONG alteram a psique
pública. Convertem as pessoas em vítimas dependentes e limam as pontas da
resistência política. As ONG formam uma espécie de pára‑choques entre
o “sarkar” e o “public”. Entre o império e os seus súbditos. Converteram-se
em árbitros, intérpretes, mediadores. Em última instância, as ONG
são responsáveis das suas acções ante os que as financiam, não ante as
pessoas com que trabalham. São o que os botânicos chamariam uma espécie
indicadora. É quase como se quanto mais devastação produz o neoliberalismo,
mais ONG surgem. Não há ilustração mais pertinente do que o fenómeno dos EU
preparando-se para invadir um país e simultaneamente preparando as ONG para
ir e limpar a devastação. Em ordem a assegurar que o
seu financiamento não é posto em causa e que os governos dos países onde
trabalham lhes permitam actuar, as ONG têm que apresentar o seu trabalho
dentro de um marco superficial mais ou menos isento de contexto histórico ou
político. Pelo menos, de um contexto histórico ou político inconveniente. Relatórios de socorro
apolíticos (e portanto, na realidade, extremamente políticos) dos países
pobres e das regiões em guerra acabam por fazer as pessoas (escuras) daqueles
países (escuros) parecer vítimas patológicas. Outro indiano desnutrido, outro
etíope que morre de fome, outro campo de refugiados afegãos, outro sudanês
mutilado... a precisar da ajuda do homem branco. Estas imagens reforçam sem
querer os estereótipos racistas e reafirmam as façanhas, o conforto e a
compaixão (o amor tenaz) da civilização ocidental. São os missionários
seculares do mundo moderno. Eventualmente – numa escala
mais pequena, mas de uma forma mais insidiosa – o capital de que dispõem as
ONG tem a mesma função na política alternativa que o capital especulativo que
entra e sai das economias dos países pobres: começa a ditar a ordem do dia,
transforma o conflito em negociação, despolitiza a resistência, interfere com
os movimentos populares locais que tradicionalmente se mantiveram por si sós.
As ONG dispõem de fundos para dar empregos a pessoas que, a não ser assim,
trabalhariam nos movimentos de resistência, mas que desta maneira sentem que
estão a fazer algum bem imediato e criativo (e ganhando a vida enquanto o
fazem). A autêntica resistência política não tem desses atalhos. A ONG-ização da política
ameaça fazer da resistência um trabalho cortês, razoável, com o seu salário e
a sua jornada das 9 às 5, mais alguns extras. A verdadeira resistência tem
verdadeiras consequências. E nenhum salário. Assim chegamos a um terceiro
perigo que quero mencionar hoje: o carácter letal do confronto real entre os
movimentos de resistência e os estados cada vez mais repressivos. Entre o
poder público e os agentes do império. Sempre que a resistência
civil mostrou o mais ínfimo sinal de evoluir de uma acção simbólica para algo
que seja remotamente ameaçador, a repressão é desapiedada. Vimos o que
ocorreu nas manifestações de Seattle, Miami, Göthenberg, Génova. Nos Estados Unidos têm o USA
PATRIOT Act, que se tornou num carimbo para a elaboração de leis anti‑terroristas
promulgadas em todo mundo. As liberdades estão a ser limitadas sob o pretexto
de proteger a liberdade. E uma vez que cedemos as nossas liberdades, será
necessária uma revolução para conseguir que nos sejam devolvidas. Alguns governos têm muita
experiência em limitar liberdades e continuar a cheirar bem. O governo
indiano, veterano neste jogo, alumia o caminho. Ao longo dos anos, o governo
indiano promulgou uma infinidade de leis que lhe permitem tratar quase
qualquer pessoa como terrorista, insurgente, militante. Temos a Lei de Poderes
Especiais das Forças Armadas, a Lei de Segurança Pública, a Lei de Segurança
de Áreas Especiais, a Lei de Gangues, a Lei de Áreas Terroristas e
Perturbadas (que oficialmente já não está em vigor, mas ainda há pessoas à
espera de juízo por sua causa) e, a mais recente, a POTA (a Prevention of
Terrorism Act [Lei de Prevenção do Terrorismo]), o antibiótico de amplo
espectro para a doença da dissidência. Também se estão a tomar
outras medidas, como sentenças de tribunais cujo efeito é subtrair a
liberdade de expressão, o direito dos funcionários públicos à greve, o
direito à vida e ao sustento. Na Índia, os tribunais começaram a micro‑dirigir
as nossas vidas. Ainda por cima, criticar os tribunais é um delito. Mas voltando às iniciativas
contra o terrorismo, nos últimos dez anos o número de pessoas que morreram às
mãos da polícia e das forças de segurança atinge as dezenas de milhares. No
estado de Andhra Pradesh (a menina bonita da globalização corporativa na
Índia) morre em cada ano uma média de 200 “extremistas” no que se costumam
chamar “confrontros”. A polícia de Bombaim vangloria‑se do número de
“ganguesteres” que mataram nestes “tiroteios”. Em Cachemira, cuja situação é
quase de guerra, morreram umas 80.000 pessoas desde 1989. Milhares de pessoas
simplesmente têm “desaparecido”. Nas províncias do nordeste a situação é
similar. Nos últimos anos a polícia
indiana abriu fogo contra pessoas desarmadas, na sua maioria das castas dalit
e adivasi. O seu método preferido é matá-los e a seguir chamá-los de terroristas.
A Índia não é a única, na verdadeiro. Vimos ocorrer o mesmo em países como a
Bolívia, o Chile e a África do Sul. Na era do neoliberalismo, a pobreza é um
crime e protestar contra ela define‑se cada vez com mais frequência
como terrorismo. Na Índia, a POTA (Lei de
Prevenção do Terrorismo) denomina-se com frequência Lei de Produção do
Terrorismo. É uma lei versátil, um padrão único que pode aplicar-se a
qualquer um, desde um agente da Al Qaeda a um motorista de autocarro
descontente. Como é o caso de todas as leis contra o terrorismo, o genial da
POTA é que pode ser o que queira o governo. Depois do pogromo de 2002
assistido pelo estado em Gujarat, em que se calcula que 2.000 muçulmanos
foram assassinados brutalmente por multidões indianas e 150.000 tiveram que
abandonar os seus lares, 287 pessoas foram acusadas sob a POTA, das quais 286
são muçulmanas e uma é sikh. A POTA permite utilizar como
prova num julgamento as confissões extraídas enquanto o réu se encontra em
custódia da polícia. Na prática, a tortura tende a substituir a investigação.
O Centro de Documentação sobre Direitos Humanos do Sul da Ásia informa que a
Índia apresenta o número mais alto do mundo de falecimentos em custódia e sob
tortura. Os arquivos do governo indicam que só em 2002 houve 1.307 mortes em
custódia judicial. Faz uns meses fiz parte de um
júri sob a POTA. Ao longo de dois dias escutámos depoimentos pungentes do que
está a acontecer na nossa magnífica democracia. Há de tudo – desde pessoas a
quem obrigam a beber urina, obrigadas a despir‑se, humilhadas, que
recebem choques eléctricos, são queimadas com pontas de cigarros, em quem
inserem barras de ferro no ânus, até pessoas que são espancadas e mortas a
pontapés. O novo governo prometeu
abolir a POTA. Ficaria surpreendida que isso acontecesse antes de outra
legislação similar ser aprovada com um nome diferente. Se não é a POTA será a
MOTA ou algo assim. Quando se fecham todas as
vias à dissidência não violenta e se acusa de terrorista a qualquer pessoa
que protesta contra a violação dos direitos humanos, deveríamos realmente
surpreender-nos se amplas zonas do país são invadidas por pessoas que crêem
na luta armada e estão mais ou menos fora do controle do estado? Isto ocorre
em Cachemira, nas províncias do nordeste, em grandes comarcas de Madhia
Pradesh, Chattisgarh, Jharkhand e Andhra Pradesh. As pessoas normais destas
regiões estao entaladas entre a violência dos militantes e a do estado. Em Cachemira, o exército
indiano calcula que entre 3.000 e 4.000 militantes operam em qualquer
momento. Com o objecto de controlá-los, o governo indiano envia uns 500.000
soldados. Está claro que o exército não só pretende controlar aos militantes,
mas toda uma população de infelizes que vêem o exército indiano como uma
força de ocupação. A Lei de Poderes Especiais
das Forças Armadas permite não só aos oficiais de alta casta, mas inclusive
aos suboficiais do exército, utilizar a força e até matar qualquer pessoa sob
suspeita de alterar a ordem pública. Primeiro impôs‑se em certos
distritos do estado de Manipur em 1958. Hoje em dia aplica‑se em
praticamente todo o nordeste e em Cachemira. A documentação de casos de
tortura, desaparecimentos, mortes em custódia, violações e execuções sumárias
às mãos das forças de segurança é capaz de revoltar o estômago a qualquer um. Em Andhra Pradesh, no coração
da Índia, o grupo militante Marxist-Leninist People's War Group – que durante
anos esteve empenhado numa violenta luta armada e que foi o principal alvo de
muitos dos falsos “encontros” da polícia de Andhra – celebrou o seu primeiro
comício no dia 28 de Julho de 2004, na cidade de Warangal. Assistiram à concentração
centenas de milhares de pessoas. Segundo a POTA, todos eles são terroristas.
Vão detê-los a todos em algum equivalente indiano da Baía de Guantánamo? Todo o nordeste da Índia e o
vale de Cachemira estão em fermentação. Que vai fazer o governo com estes
milhões de pessoas? Não há no mundo hoje um tema
de debate tão crucial como a questão das estratégias de resistência. E a
escolha de estratégias não está inteiramente nas mãos do “public”. Também
está nas mãos do “sarkar”. No fim de contas, quando os
EU invadem e ocupam o Iraque como o fizeram, com uma força militar tão
desmesurada, pode‑se pedir que a resistência seja de tipo militar
convencional? Para começar, inclusive se fosse convencional continuaria a ser
qualificada como terrorista. Parece estranho, mas o arsenal de armas do
governo dos EU, a sua potência aérea e a sua artilharia fazem do terrorismo
uma reacção praticamente inevitável. O povo compensa a falta de dinheiro e
poder com astúcia e estratégia. Nestes tempos de ansiedade e
desesperação, se os governos não fazem o possível por respeitar a resistência
não violenta, estão a favorecer por omissão os que optam pela violência. A
condenação do terrorismo pelos governos não é credível se não se mostram
dispostos a mudar ante a dissidência não violenta. Mas em vez disso os
movimentos de resistência estão a ser esmagados. Qualquer tipo de mobilização
ou organização política de massas está a ser comprada, destruída ou
simplesmente ignorada. Entretanto, os governos e os
grandes meios de comunicação, sem esquecer a indústria cinematográfica,
desperdiçam o seu tempo, atenção, tecnologia, investigação e admiração na
guerra contra o terrorismo. É a deificação da violência. A mensagem que enviam é
perturbadora e perigosa: se queres expressar uma queixa de carácter público,
a violência é mais eficaz do que a não violência. À medida que se alarga o
abismo entre o rico e o pobre; à medida que a necessidade de apropriar‑se
dos recursos mundiais e controlá-los com o fim de alimentar a grande
maquinaria capitalista se faz mais urgente, o descontentamento não fará mais
do que aumentar. Para aqueles de nós que estão
no lado errado do império, a humilhação está a tornar‑se insuportável. Cada uma das crianças
iraquianas assassinadas pelos Estados Unidos era nosso filho. Cada um dos
prisioneiros torturados em Abu Ghraib era nosso companheiro. Cada um dos seus
gritos era nosso. Quando eram humilhados, humilhavam‑nos a nós. Os
soldados estadounidenses que lutam no Iraque – a maioria voluntários
recrutados nas pequenas cidades e nos bairros pobres – são tão vítimas como
os iraquianos do horrendo processo que lhes exige morrer por uma vitória que
nunca será a sua. Os mandarins do mundo das
corporações, os directores, os banqueiros, os políticos, os juízes e os
generais observam‑nos de cima abanando a cabeça com severidade. “Não
há alternativa”, sentenciam. E soltam os cachorros da guerra. E então, das ruínas do
Afeganistão, dos entulhos do Iraque e da Chechénia, das ruas da Palestina e
das montanhas de Cachemira, dos morros e planaltos da Colômbia e das selvas
de Andhra Pradesh e Assam, surge uma assustadora resposta: “Não há
alternativa a não ser o terrorismo". Terrorismo. Luta armada.
Insurgência. Chamem‑lhe como queiram. O terrorismo é desalmado,
feio e desumanizante, tanto para os que o perpetram como para as suas
vítimas. Mas também o é a guerra. Poderia dizer-se que o terrorismo é a
guerra privatizada. Os terroristas são os comerciantes no livre mercado da
guerra. Pessoas que não crêem que o estado tenha o monopólio do uso legítimo
da violência. A sociedade humana dirige‑se
para um lugar terrível. Evidentemente, há uma
alternativa ao terrorismo. Chama-se justiça. Chegou a hora de reconhecer
que por muitos armamentos ou sistemas de dominação total ou segadoras de
margaridas ou falsos conselhos de governo e loya jirgas que se tenham, a paz
não se pode comprar a custa da justiça. A ambição de alguns pela
hegemonia e a preponderância terá como contrapartida o anseio, ainda mais
intenso, dos outros pela dignidade e a justiça. A forma em que se manifeste a
batalha, que seja formosa ou cruenta, depende de nós. |
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Transcrição do discurso completo pronunciado em São Francisco, Califórnia. Ó 2004 Arundhati Roy. Para reimpressão contactar arnove@igc.org. Arundhati Roy é uma activista social
e é a autora do livro premiado O Deus
das pequenas coisas.