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Oriente |
13/07/2008
A Síria fora do “eixo do mal” A cimeira
euro-mediterrânica deste fim de semana trouxe uma notícia relevante:
finalmente, a Síria venceu o isolamento internacional a que os EUA e a Europa
a tinham votado. Não era necessária uma cimeira de ambiguidades para tal
resultado. Mas se esta valeu para oficializar o facto, então foi bem-vinda.
Tudo o resto é, de momento, indefinido e portanto, dispiciendo. Pelo fim do isolamento,
o presidente sírio ofereceu o reconhecimento formal do Líbano através da
troca de embaixadores entre Beirute e Damasco. Este gesto já havia sido
prometido pelo ministro dos negócios estrangeiros, mal fosse resolvida a
crise institucional no país vizinho. Tem, contudo, enorme força simbólica.
Desde que o Líbano se tornou independente, nunca se tinha verificado. Este
gesto tem ainda um efeito interno no Líbano, que não é dispiciendo. A maioria
parlamentar, dita “pró-ocidental”, tem feito da política anti‑síria o
alfa e o ómega da sua unidade. Agora, resta-lhes acreditar numa guerra contra
Teerão para reverterem a relação de forças. NOVO GOVERNO EM BEIRUTE A segunda novidade da
cimeira também lhe é lateral. O novo presidente libanês, Michel Sleimane,
trouxe na pasta um novo governo. Ele respeita as condições acordadas em Doha,
que davam finalmente uma minoria de bloqueio à oposição. A sua constituição
foi difícil porque as forças que apoiavam o anterior governo quiseram
recuperar na secretaria o que haviam perdido no terreno e à mesa das
negociações. Acabou por ser o
Hezbollah a facilitar o arranjo: ficou com um único ministro – o do Trabalho –
e deu aos seus parceiros de oposição, drusos e cristãos, pastas a que tinha
direito. Na verdade, este é um governo provisório, cuja principal função é
preparar as eleições de Abril do próximo ano. No ministério do interior, uma
pasta vital onde a disputa de influência tem sido duríssima, ficou um civil
do presidente, que esteve recentemente em Bruxelas numa audição organizada
por uma das delegações a que pertenço, a das relações com o Machrek. Isento
na apresentação das questões relativas ao sistema eleitoral libanês, deixou
excelente impressão. Com a troca de
embaixadores, o beneplácito francês e as negociações entre a Síria e Israel
para a devolução dos montes Golã através da mediação turca, cria-se um quadro
que dificulta aventuras militares até à eleição norte‑americana. Um
ataque militar a Teerão continua a ser uma possibilidade que ninguém pode
descartar. Mas, fora desta variável, o novo mapa das relações de força
regionais dificulta aventuras e provocações que tenham o Líbano como
epicentro. AS CONTAS DE SARKOZY Porque jogou Sarkozy a
carta de Damasco? A tese mais especulativa é a de que os sírios se poderiam
colocar em rota de colisão com Teerão e que esta política aceleraria esse
processo. Não creio que Sarkozy acredite em contos de fadas. Damasco não
alterará um milímetro os seus alinhamentos estratégicos enquanto existir um
soldado norte-americano na região. O presidente francês
quer, isso sim, recuperar o papel da França na região, que os últimos anos de
Chirac alienaram. Sarkozy não é insensível às mudanças na relação de forças
regionais e está convencido de que a eleição norte-americana marcará,
qualquer que seja o vencedor, um ajustamento no unilateralismo neoconservador.
Sarkozy posiciona-se agora com os olhos postos em 2009. Tal como todos os
outros actores locais e regionais. Paris tem interesse na pacificação da
situação libanesa e precisa de Damasco para esse efeito. Prepara-se, se
necessário, para conviver, tant mal que bien, com quem vencer as próximas eleições libanesas. Sarkozy é
reaccionário e instável, mas não é estúpido. |