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Médio
Oriente |
Dezembro 2006
Como chegou Israel a esta situação? Akiva Eldar * O fracasso do seu exército, este Verão, parecia ter perturbado os israelitas. Iriam eles exigir que o seu país finalmente negociasse com os vizinhos – um "sonho" [1] que inspirasse novas iniciativas internacionais? Nada disto aconteceu. Os crimes de guerra no Líbano, ou os cometidos em Gaza desde então, bem como a nomeação de um líder fascizante para o cargo de vice-primeiro-ministro não suscitaram reacções maciças. Porquê? Que está a acontecer à
sociedade israelita para gerar dirigentes racistas como Avigdor Lieberman,
líder do partido de extrema-direita Israel Beitenu (Israel, Nosso Lar), de
regresso ao governo como vice‑primeiro‑ministro? Eis uma
pergunta que não tem razão de ser. Mais sensato seria perguntar por que
motivo este fenómeno acontece só agora, quase sessenta anos após a fundação
do Estado de Israel. Parece igualmente
inútil perguntar por que motivo aceitam os israelitas atrocidades como a
eliminação duma família inteira na Faixa de Gaza. Em contrapartida, poderá
espantar-nos que após quarenta anos de ocupação um número não negligenciável
de israelitas ainda vá para a rua denunciar injustiças como o bombardeamento
de Beit Hanun. Desde a sua fundação, o
Estado de Israel nunca deixou de declarar alto e em bom som que é ele a única
democracia do Médio Oriente. Comparado com a Síria, com o Irão ou um pouco
menos com o Egipto ou a Jordânia, Israel pode certamente orgulhar-se de
defender valores democráticos como a liberdade de expressão, a supremacia da
lei e a organização de eleições livres. No plano estrutural e formal, Israel
é uma democracia muito desenvolvida; mas, no que diz respeito a valores
morais, esta democracia continua a ser frágil e vulnerável – tendo mesmo
caído muito baixo. Ao contrário dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos,
não há em Israel freios e contrapesos que permitam preservar um equilíbrio
democrático; e a sociedade civil ainda inclui populações que dependem
directamente da ajuda do Estado. Os valores da
democracia não estavam nada enraizados na cultura política que os pais
fundadores do Estado, entre os quais David Ben Gurion, trouxeram da Europa.
Estes homens começaram por enfrentar um conflito existencial entre Israel e
os árabes, aceitando o desafio de edificarem uma nova nação. Defenderam
ideais como a obediência ao Estado, a união e homogeneização da sua
população. Para eles, o Estado constituía um grande cadinho onde populações
muito heterogéneas, entre as quais os sobreviventes da Shoah, considerados «poeira humana» [1], deviam unir-se
com base em valores comuns. “ESTADO DE SÍTIO” Foi por isso que se
apegaram aos sinais exteriores da democracia, como a organização regular de
eleições, restringindo ao mesmo tempo, em nome da segurança, a liberdade de
imprensa, em particular através da censura militar. Foi também em nome da
segurança que impuseram aos cidadãos árabes de Israel, de 1948 a 1966, anos e
anos de “governo militar” acompanhados de restrições às suas liberdades.
Nisso reside, de resto, uma outra prova da não assimilação dos valores
democráticos, tendo em conta que a esmagadora maioria da população judia,
incluindo a maior parte das elites, aceitou como uma evidência a política de
segregação institucionalizada da minoria árabe. Quanto ao sistema
educacional, este deu prioridade a questões como a obediência ao Estado, o
conflito israelo‑árabe, o anti‑semitismo e o serviço militar.
Sob a fina capa dos manuais de educação cívica, feitos aparentemente para
inculcar nas jovens gerações os valores de igualdade e democracia,
dissimulavam‑se páginas repletas de estereótipos. Até à década de
1980, a literatura para crianças apresentou os árabes como seres inferiores,
sem identidade nacional e sedentos de sangue judeu. O mesmo aconteceu com os
livros escolares. Tais representações dos
árabes, bem como a visão negativa dos goyim – os não judeus – ou a expressão de um acentuado etnocentrismo,
representaram etapas importantes na formação do sentimento de “estado de
sítio” dos israelitas, que sempre consideraram o povo judeu uma vítima das
outras nações. Esta percepção é tanto mais forte quanto os judeus encaram a
sua história, nomeadamente os dois mil anos de diáspora, como uma série de
perseguições levadas a cabo pelos povos entre os quais viviam. A Shoah, obviamente, constitui o apogeu desta
demonstração. Todos os anos, os numerosos estabelecimentos escolares convidam
os seus alunos, rapazes e raparigas, a fazer uma peregrinação aos campos de
extermínio da Polónia. Estas viagens fomentam entre os alunos um grande sentimento
de angústia e contribuem para reforçar a sua percepção dos judeus como
vítimas. Em contrapartida, a falta de maturidade impede‑os de extrair
do genocídio lições mais complexas, que poderiam guiar as suas vidas e em
particular a sua atitude para com a ocupação, que eles se prestam a defender
durante o serviço militar. Dessas viagens à Polónia voltam em geral com
mensagens simplistas do género “nunca mais”, ou seja, “para impedir uma nova
catástrofe, temos de ser fortes”. Muitos deles retêm apenas da visita a
Auschwitz que o genocídio nazi e, mais geralmente, a história do anti‑semitismo
atribuem direitos particulares aos israelitas, entre os quais o de atentarem
contra os direitos fundamentais dos seus vizinhos, usufruindo ao mesmo tempo
de uma imunidade total em relação a críticas. Não é por acaso que
Avigdor Lieberman faz parte dos judeus que cresceram na URSS antes de virem
para Israel e tem nesta imigração um considerável apoio. Desde a década de
1970, e sobretudo desde 1990, mais de um milhão de soviéticos emigraram para
a “terra prometida”. Na sua maior parte são pessoas que não têm experiência
nenhuma da democracia ocidental nem conhecimento nenhum do conflito israelo‑árabe,
tendo‑se por isso revelado particularmente permeáveis à mensagem violenta
das forças de direita, ao ponto de sonharem com um homem forte que “volte a
pôr ordem” em Israel. A imprensa em língua russa, que leva a cabo uma
incessante propaganda contra os árabes e a esquerda, contribui muito para
acentuar este género de opinião. Mas os valores da democracia são também
estranhos aos judeus ortodoxos e aos religiosos da direita nacionalista, que
hoje em dia congregam cerca de um quarto da população israelita – proporção
esta que deverá aumentar, tendo em conta a taxa de natalidade destes grupos
sociais, três vezes superior à da média nacional. A ignorância destes
princípios ou a indiferença a seu respeito não tem apenas influência nas
relações com a minoria árabe e o conflito com os palestinianos,
transparecendo também no debate entre a esquerda e a direita e entre
religiosos e laicos. O assassinato do primeiro-ministro Itzhak Rabin mostrou
bem o grau de intolerância dos israelitas para quem o território é um valor
supremo perante aqueloutros para quem o mais importante é a busca da paz. A minha caixa de
correio electrónico é constantemente invadida por mensagens de insultos e
ameaças de morte, a maior parte das quais provém de leitores judeus que não
aderem às ideias que exprimo nos meus artigos. São ideias consideradas extremistas
em Israel, embora não difiram das que são formuladas pela esquerda e pelo
centro nos países democráticos. O ano passado, um judeu ortodoxo apunhalou um
jovem que tinha participado numa marcha de homossexuais em Jerusalém. Este
ano, na sequência das manifestações e ameaças dos judeus ortodoxos, a polícia
anulou essa marcha, a pretexto de que os acontecimentos de Beit Hanun terão
criado uma situação que não lhe permite garantir a segurança dos
manifestantes. Quase sessenta anos
após a sua criação, Israel não engendrou uma sociedade civil forte, capaz de
resistir às autoridades económicas e políticas, nem sequer agentes eficazes
de socialização. Quando o Partido Trabalhista, única alternativa teórica à
direita, participa num governo que marginaliza totalmente a Autoridade
Palestiniana, como poderá o povo reconhecer a diferença entre o que é ético
ou não, entre o que é ou não é democrático? Quando o laureado do Prémio Nobel
da Paz, Shimon Peres, secunda o primeiro-ministro de um governo que
bombardeia bairros residenciais em Beirute e em Gaza, para o homem comum
passa a ser difícil distinguir entre o bem e o mal, o bom e o ruim. Ehud Barak, eleito
primeiro-ministro em 1999 com os votos da esquerda e dos árabes israelitas,
repete continuamente, desde o revés da Cimeira de Camp David, em 2000, que
«revelou o rosto verdadeiro de Arafat» e «descobriu» que os representantes
palestinianos «não são verdadeiros parceiros» com vista ao estabelecimento do
seu Estado ao lado de Israel. Esta versão da falência dos Acordos de Oslo
levou muitos israelitas a aderir a respostas extremas, tais como o muro que
está a ser construído na Cisjordânia, a separação unilateral de Ariel Sharon
ou o projecto de “transferência” oriundo do repertório racista de Avigdor
Lieberman. A estes elementos
históricos, psicológicos e políticos fundamentais vieram juntar-se, nos
últimos anos, verdadeiras ameaças: os atentados suicidas do Hamas e da Jihad
Islâmica, os tiros de artilharia do Hezbollah e o programa nuclear iraniano.
Todos os dias o porta-voz do governo vem lembrar estes perigos. O medo do
próximo atentado torna-se mais concreto do que a aspiração à paz. A angústia
colectiva, característica da sociedade judaica israelita, contribui para
perpetuar a crença na força militar como única garantia de sobrevivência do
Estado e, por conseguinte, para atrasar a resolução do conflito
israelo-árabe. A sociedade israelita fez sem dúvida grandes progressos,
passando da negação total do povo palestiniano à aceitação de um Estado onde
ele possa viver livre. Mas não está plenamente convencido disso, não se
mostrando portanto claramente decidida a separar-se de toda a Cisjordânia.
Daí a falta de progressos na resolução do conflito. Os bombardeamentos do
Hezbollah contra o Norte do país, no Verão passado, criaram uma atmosfera de
estado de emergência. As fraquezas do governo e do exército, tanto na frente
militar como na retaguarda, abalaram a confiança dos israelitas nas suas
instituições. Foi isso que serviu de trampolim a Lieberman para voltar para o
governo; e não foi por acaso que ele pediu e obteve o lugar de ministro
responsável pelas questões estratégicas. Pelo facto de os israelitas não
manifestarem claramente a vontade de pôr fim ao sangrento conflito com os
árabes, o Partido Trabalhista decidiu arrumar a bandeira da paz. E apesar de
o grande irmão americano apregoar o seu desejo de “democratizar o Médio
oriente”, foram também postas a meia haste as bandeiras da democracia e da
igualdade. TERRENO FÉRTIL Personalidades
políticas consideradas esclarecidas e liberais, como a professora Yuli Tamir,
ministra da Educação, e o deputado Ami Ayalon, co-signatário dum audacioso
projecto de paz em parceria com o professor Sari Nusseibeh, não quiseram ir
contra a corrente e votaram também a favor da integração de Lieberman no seu
governo. Além disso, entre os “centristas”, no seio da classe política ou
entre a comunicação social, muitas personalidades influentes falam a favor do
seu programa. E a transferência que ele prevê de uma parte dos árabes
israelitas para os territórios palestinianos? Garantem estes moderados que o
“patrão” do partido Israel Beitenu deseja apenas que «os árabes israelitas
troquem a sua cidadania israelita por uma cidadania palestiniana». Não faltam na história
humana exemplos de situações em que certas ameaças prolongadas ou certas
recessões económicas serviram de terreno fértil a regimes fascistas, que se
impuseram pela força ou até democraticamente. Foi isso que no século passado
aconteceu nos mais instruídos países do continente europeu. A situação da
sociedade israelita neste início do século XXI revela-se mais grave do que a
da Polónia ou da Checoslováquia na década de 1960: os polacos e os checos
sabiam que, sob o comunismo, viviam em regimes não democráticos. Por isso se
viraram para outros modelos, ouviram em segredo as rádios ocidentais e
inculcaram nos seus filhos valores de liberdade e de justiça. Os israelitas, porém,
não tentam mudar. Estão convencidos de que a sua democracia é um modelo a seguir
pelos países vizinhos e que as Tsahal são o exército mais moral que há no
mundo. Declamam slogans, mas esquecem os princípios fundamentais da
democracia, entre os quais os direitos das minorias. Quanto à esquerda, que
publicamente denuncia os perigos que pairam sobre a sociedade, esta vê-se
apanhada na armadilha da marginalização: não só não tem impacte no governo
como se limita a aproximá-lo da direita extremista, em constante progressão. Um povo que esquece o
seu passado dificilmente pode construir a sua identidade no presente. O
mesmo, porém, acontece ao povo que se apoia principalmente na memória do
passado; também a este será difícil edificar um futuro diferente numa nova
realidade. Os slogans e a auto-satisfação da esquerda não podem substituir‑se
à construção duma sociedade democrática alicerçada em valores morais. O
fracasso da aventura no Líbano, este Verão, era uma oportunidade para
enveredar pelo caminho dessa construção. Infelizmente, as autoridades
políticas e militares preferiram uma fuga para a frente guerreira. _____ * Jornalista do diário Haaretz (Telavive). [1] George Corm, Um sonho “dissidente” de solução global, Le Monde
diplomatique, Dezembro 2006. [2] David Ben Gurion
aludiu à «poeira humana» que, vinda de todos os cantos da Terra, se
transformou num Estado soberano para ocupar um «lugar honroso na família das
nações». |