Informação Alternativa

Médio Oriente

01/11/2006

 

A prisão e os seus guardas

 

Mustafa Barghouti *

Al-Ahram

 

Mustafa Barghouti faz um apelo veemente aos seus compatriotas palestinianos para cessarem as lutas entre facções e, a uma só voz, condenarem e resistirem à ocupação

 

Ser palestiniano significa conhecer a prisão em primeira-mão. Como qualquer pessoa que passou por uma prisão sabe, permite-se frequentemente aos prisioneiros compartilhar o espaço dos pavilhões e até lutar pelo seu estatuto e prestígio, sempre e quando o guarda tenha o controlo da fechadura, das chaves, da porta e dos muros. O que importa realmente ao guarda é poder entrar na cela a qualquer momento e manter os presos na linha. Não há nada mais triste do que ver os presos tão absorvidos na sua disputa interna que se esquecem da situação real: que estão privados de liberdade, e por isso de poder.

 

Foi isto que aconteceu nos territórios ocupados [da Palestina] durante os últimos sete meses, onde a Fatah e o Hamas estiveram demasiado ocupados a dar-se cotoveladas para poder pensar noutra coisa. Entretanto, as forças de ocupação intensificaram a sua escalada de ataques brutais, expandindo as suas actividades de construção de colonatos, continuando a construção do muro de separação racista, e persistindo na alteração das fronteiras e da demografia de Jerusalém. Os israelitas estão a destruir qualquer oportunidade de um Estado palestiniano independente, e nós estamos demasiado ocupados para falar a uma só voz.

 

As forças de ocupação instalaram-nos em prisões de vários tamanhos. Algumas são tão pequenas como uma cela, como em Al-Noaman e em Qalqilya. Outras são como pavilhões, como em Belém ou Nablus. Outras são maiores, como a Faixa de Gaza. Nestas prisões, continuamos a lutar e a insultar-nos uns aos outros. Continuamos a manobrar para retirar vantagem de um poder imaginário, um poder que é controlado na sua totalidade pelos nossos ocupantes.

 

A ocupação aproxima-se do seu 40º aniversário e aperfeiçoou o sistema de opressão racista. Enquanto isso, estamos mais divididos que nunca, mais incapazes que nunca de frustrar os planos deles. As autoridades ocupantes estão a reter os salários dos funcionários públicos, e contudo ninguém levanta a voz para protestar. Pelo contrário, acusamo-nos uns aos outros das consequências. Todos sabem que a soma total do dinheiro retido pelas forças de ocupação, injustificadamente e contradizendo acordos prévios, ascende a 550 milhões de dólares – mais do que suficiente para cobrir todos os salários por pagar.

 

Os doadores do leste e do oeste estão a pressionar para ampliarmos os nossos serviços de segurança. Agora já podemos entrar no Livro Guiness de Recordes como o único governo do mundo onde o pessoal dedicado à segurança (mais de 81.000) supera o resto dos funcionários públicos. E, ainda assim, não temos segurança nem paz. E, o que é pior, os nossos serviços de segurança estão a ser usados como milícias, uma situação que é degradante segundo qualquer padrão.

 

Costumávamos criticar o orçamento palestiniano porque destina 25% dos seus gastos à segurança, 0,8% à agricultura e 9% à saúde. Agora as coisas estão a ficar ainda piores. O próximo orçamento – aplicável logo que e se terminar o bloqueio – destinará 33,5% à segurança, 0,7% à agricultura e 7% à saúde.

 

O último Conselho Legislativo foi marginalizado. Mas a nossa resposta ao sequestro de 40 membros do novo Conselho Legislativo foi levar as actividades do conselho a um ponto morto. A nossa paralisante luta entre facções impediu-nos de encontrar uma resposta às acções antidemocráticas da potência ocupante.

 

Durante a primeira Intifada, costumávamos enfrentar a ocupação. Costumávamos organizar a ajuda médica, desafiando Israel, para tratar os feridos e cuidar dos doentes. Quando Israel encerrava as nossas escolas e universidades, organizávamos comités de base para a educação. Quando as autoridades ocupantes nos prendiam, estabelecíamos clínicas e aulas nas prisões. Agora fechamos as nossas escolas com as nossas próprias mãos. E alguns de nós não sentem compaixão diante de uma mulher pobre que necessita de ajuda médica para poder dar à luz.

 

Apesar do cerco e das prisões – e num momento em que não tínhamos governo –, ninguém passava fome durante a primeira Intifada graças aos planos sociais e à caridade organizada. Agora milhares não conseguem alimentar os filhos, enquanto outros engordam com salários incrivelmente altos – para os níveis locais – trabalhando para agências estrangeiras.

 

Israel aprendeu com os seus erros durante a primeira Intifada. Israel conseguiu distrair-nos por meio dos Acordos de Oslo e seus anexos. Depois mudou as regras do jogo, para demonizar a nossa justa luta e denegrir os nossos valores humanos. Agora, a cada dia que passa, temos de demonstrar ao mundo a nossa boa conduta. E em vez de permanecermos unidos face a esta grave injustiça, alguns de nós regozijam-se a demonstrar os erros dos nossos compatriotas.

 

Toda a estratégia de Israel está baseada em distorcer a essência da nossa luta, em torcer as normas e as leis internacionais. Israel pretende converter os territórios ocupados em territórios disputados. Israel quer apresentar a legítima luta contra a injustiça como actos de terror. Israel quer que a culpa recaia, não sobre a ocupação, mas sim sobre as vítimas da ocupação. E contudo as ideias de Israel estão a penetrar na nossa cultura política. Alguns de nós envergonham-se agora de reafirmar o nosso direito a defender a nossa dignidade e resistir. Alguns de nós querem que capitulemos, em vez de entender e mudar a realidade.

 

Num momento em que precisamos de uma estratégia e de uma acção unidas, quando precisamos de capitalizar o fracasso de Israel no Líbano, quando basta uma mera visita de um jornalista aos muros da ocupação para que se veja a falta de humanidade de Israel, os meios de comunicação do mundo estão centrados nas nossas lutas intestinas.

 

Disse­­‑o antes e volto dizê­‑lo: não há saída para a frente se não for através de um mandato de unidade nacional. Temos de chegar a acordo, mesmo que temporariamente, sobre uma visão unificada. E precisamos de ter um governo de unidade nacional – esteja ele integrado pelas facções, pelos tecnocratas ou pelos independentes. O mais importante é que o governo esteja unido.

 

Precisamos de um mecanismo unificado para lidar com o conflito, para defender os nossos direitos, para romper o cerco e proteger o nosso povo e o nosso nome do severo juízo da história. Temos de recordar que o conflito não deve ser entre as nossas facções, mas entre o nosso povo e as forças que de ocupação, injustiça e repressão.

 

Precisamos de recordar que, por maiores que sejam as prisões em que vivemos, nas nossas aldeias e cidades, continuam a ser prisões. E que a única forma de derrubar os muros dessas prisões é trabalharmos juntos. Aqueles que nos assediam devem saber que não podem dividir-nos. Devemos unificar a nossa visão, ainda que discordemos nos nossos pontos de vista. Devemos retirar dos nossos olhos a venda que nos impede de ver os controlos, as detenções diárias, as repetidas incursões e o sorriso deleitado nas caras dos nossos torturadores e opressores.

 

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* Mustafa Barghouti é secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestiniana.