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30/11/2006
Outra Naqbah? Jorge Cadima O dia 29 de Novembro é,
por decisão da ONU em 1977, Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da
Palestina. É o dia que os palestinos designam por “Naqbah”, a catástrofe. É o
dia em que, em 1947, a ONU decidiu dividir a Palestina e criar dois Estados,
um judaico e um árabe-palestino. Seguiu-se a limpeza étnica que criou milhões
de refugiados palestinos. Quase 60 anos depois, o Estado Sionista expande-se
muito para lá das fronteiras que a Resolução da ONU lhe atribuiu. A promessa
de um Estado Palestino continua letra morta. Há poucos dias foi
anunciado um “cessar-fogo” e mais uma retirada israelita da Faixa de Gaza. A
história recente e menos recente não dá motivos para esperanças. Israel
cometeu uma enorme chacina nestes últimos meses em Gaza. Apenas entre 12 de
Outubro e 22 de Novembro foram mortos 172 palestinianos, dos quais 29
crianças (Centro Palestino para os Direitos Humanos, www.pchrgaza.ps).
Em média, mais de 4 mortos por dia. A auto-proclamada “comunidade
internacional” – dos EUA à União Europeia – sempre ocupada a pedir “tribunais
internacionais” e a lançar guerras contra quem não cumpra as suas ordens, não
apenas deixa os assassinos impunes: castiga as vítimas, continuando a impor
um férreo bloqueio que deixa os habitantes dos territórios ocupados, e em
particular da Faixa de Gaza, numa gravíssima situação de emergência
humanitária. Castiga‑se um povo por continuar a resistir e a lutar
pela promessa não cumprida da “comunidade internacional”: o direito a uma
pátria. Os crimes do Estado
Sionista de Israel são diários. As ameaças dos seus dirigentes ultrapassam
tudo aquilo que seria aceite nas bocas de outros dirigentes, mesmo nos tempos
que correm. Dois anos após a misteriosa morte do Presidente Arafat, nunca foi
feito um diagnóstico oficial de causa de morte, nem uma autópsia (será que
encontrariam polónio-210?). Convém relembrar as ameaças públicas de execução que
lhe foram feitas em comunicado oficial do governo israelita (11.9.03):
«Yasser Arafat é um obstáculo completo a qualquer processo de reconciliação
[...] Israel agirá para remover esse obstáculo da maneira, no momento e das
formas que decidirá em tempo oportuno». Para que não ficassem dúvidas, o
então vice, e actual primeiro-ministro Olmert veio esclarecer que «o
assassinato de Arafat era um dos meios de concretizar a ameaça de o
“remover”» (Guardian, 15.9.03). E o
jornal Jerusalem Post desse mesmo dia
escrevia um editorial de título singelo “Matar Arafat”: «Devemos matar tantos
dirigentes do Hamas e da Jihad Islâmica quanto possível, tão depressa quanto
possível [...] E devemos matar Yasser Arafat, porque o mundo não nos deixa
outra alternativa. [...] Matar Arafat, mais do que qualquer outro acto,
demonstrará que a arma do terror é inaceitável» [!!]. A escalada fascizante
do Estado Sionista prossegue agora com a ascensão a vice-primeiro ministro de
Avigdor Lieberman, dirigente do partido Yisrael Beitein, defensor de novas
limpezas étnicas. «Não há nada anti-democrático em transferências [de
populações]. [...] A separação, tal como a cirurgia, ajuda à cura» declarou
ao jornal Haaretz (19.4.02). Em afrikaans,
a palavra para “separação” é “apartheid”. O seu colega de partido
Aharonovitch já apelou a «assassinar» o primeiro ministro palestino, Haniyeh
(ynetnews.com,
18.11.06). O pacifista israelita Uri Avneri compara os perigos, e a ausência
de reacção pública, com os «últimos dias da República de Weimar» na Alemanha
de 1933, antes da subida ao poder de Hitler (Gush
Shalom, 6.11.06). Três factos a reter:
(i) o Partido Trabalhista de Israel, colega do PS na Internacional
Socialista, faz parte do governo com Lieberman; (ii) a reacção da União
Europeia (através da porta-voz oficial de Javier Solana, Cristina Gallach) à
entrada de Lieberman para o Governo é que «compreenderão que não podemos
interferir na constituição de um governo estrangeiro»; (iii) Israel possui
centenas de armas nucleares e Lieberman é também «Ministro de Assuntos
Estratégicos» com responsabilidade pelo dossier Irão. |