Informação Alternativa

Médio Oriente

23/10/2006

 

Razões histórico-políticas de um conflito

– Entrevista a José Goulão, jornalista –

 

Isabel Carvalho

A Voz do Operário Jornal

 

A Diáspora do povo judeu é, de algum modo, a causa remota do conflito no Médio Oriente. Segundo a história, foi a partir da destruição do segundo templo em Jerusalém, em 70 a.C., pelos romanos, que o povo judeu iniciou a sua dispersão pelo Mundo e é desde então que mantiveram o objectivo nacional e messiânico de voltarem à “Terra Prometida”, lugar que acreditam ser seu. Porém, é de lembrar que os árabes conquistaram a Palestina em 637 da Era Cristã, misturando-se então com os habitantes originais.

 

Seja como for, durante séculos, o regresso dos judeus esteve adormecido até que no século XIX, mercê de nacionalismos na Europa Ocidental, renasceu a vontade de voltar, mas para criar um “Lar judeu” na Palestina. E, assim, com esta intenção, nascia o sionismo político idealizado e teorizado pelo jornalista judeu­‑austríaco Theodor Herzl.

 

Estava então dado o primeiro impulso de um processo que viria a conseguir a instituição de um Estado Judeu na Palestina, o que se concretizou em 1947, com o voto de dois terços dos membros da Organização das Nações Unidas (ONU). É pois sobre este processo, complexo, que aqui nos fala José Goulão, jornalista e um profundo conhecedor de um conflito real, que perdura...

 

 

– Para começar, o que se dizia na teoria sionista?

 

Na teoria sionista de Theodor Herzl, o regresso à Terra Prometida seria o de um povo sem terra, para uma terra sem povo. Isto assim visto, desconhecendo a realidade, parecia uma ideia extraordinária e calou fundo em muitos judeus que viviam tempos de pogroms (grandes perseguições aos judeus) no Leste da Europa. Mas, a Palestina tinha povo e fazia parte do Império Otomano há centenas de anos. Viviam aí árabes muçulmanos, árabes não muçulmanos e também judeus em perfeita harmonia. Aliás, judeus e árabes davam­‑se naturalmente, porque a origem é comum e, sendo povos, digamos, primos, não havia o antagonismo que depois veio a verificar-se.

 

– Esse depois passa pelo fim do Império Otomano...

 

Pelo fim da Guerra 14/18, quando aqueles territórios ficaram sob a cobiça dos vencedores da guerra. Isto é, dos franceses e ingleses que decidiram dividir o Médio Oriente, como já tinham feito em África, consoante os seus interesses, que tinham já a ver com o que sabiam sobre as reservas petrolíferas e estratégias territoriais.

 

– Por falar em África, não houve a intenção de aí criar Israel?

 

Falou-se muito nisso, tal como se falou na Argentina e em Angola. Por duas vezes, em dois períodos históricos distintos, pensou-se na criação de um “lar judaico” em Angola. E essa formulação, “lar judaico”, está na origem de toda a confusão que veio a acontecer na Palestina. Mas a partilha dos territórios entre a Inglaterra e a França foi conseguida pelos ministros dos Negócios Estrangeiros de cada país, conhecido como o acordo Sykes­‑Picot. E, concretamente, aí também foi prometido um Estado aos Curdos, que está até hoje por resolver, sendo que a vida não é muito agradável para os que estão sob o domínio Turco e agora iraquiano.

 

– Então, a partir desse acordo, a Palestina fica sob mandato inglês...

 

Assim como o Líbano e a Síria ficaram sob mandato francês. Mandatos transitórios até que os povos, em teoria, tivessem condições para se governarem a si próprios. Portanto, tal como o Iraque, Síria e Líbano, assim a Palestina viria a ser independente. E, nesse acordo, não se punha sequer a hipótese de alterações demográficas.

 

– Só que os acontecimentos precipitaram-se?

 

Sim. A conjugação dos pogroms na Europa com a subida de Hitler ao poder criou um facto novo: a fuga de judeus para onde não fossem discriminados e perseguidos. O que origina um movimento demográfico intenso para a Palestina. E, independentemente dos judeus e os árabes residentes se darem bem, a chegada de judeus europeus teve impactos... Claro que os judeus foram-se instalando, foram comprando terras e foram alterando a relação de forças. E é deste choque de culturas que começaram a nascer ressentimentos, uns por ambição de quem chegava, outros por privilégios e direitos de quem estava... chegámos assim a 1948, altura em que devia ser declarada a independência da Palestina. Mas a declaração do Estado da Palestina tal como estava prevista, exigia já outro tipo de medidas, até porque a tensão social era muito grande. Havia violência e os grupos judaicos militarizados, na altura chefiados por Isaac Shamir e Menachem Begin, praticavam actos terroristas,... que eles diziam de libertação e os árabes viam como atentados terroristas e de soberania.

 

– Havia então um problema no terreno...

 

Havia. E é então que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprova a resolução 181/47 de partilha da Palestina: dois estados, um de maioria branca, outro de maioria árabe, que os dirigentes judaicos aceitaram e os árabes, influenciados pelos regimes conservadores da Jordânia e do Egipto, rejeitaram, indo para a guerra. Israel, entretanto, proclama o seu Estado e os palestinianos não o reconhecem. A situação no terreno era instável pois os árabes continuavam legitimamente à procura de condições para criarem o seu Estado. Mas isso foi sendo adiado até que os palestinianos assumiram voz própria, com Yasser Arafat, em 1967, quando este assumiu a presidência da Organização de Libertação da Palestina (OLP).

 

– Há solução para o Médio Oriente?

 

A minha interpretação é que só se resolve o conflito com diálogo directo, cara-a-cara, entre israelitas e palestinianos e com o envolvimento das Nações Unidas. Mas de preferência sem intervenções directas e sem pressões, sobretudo dos Estados Unidos. É preciso depois que os interesses de uns não tornem reféns os interesses dos outros. Por exemplo, a água tem de ser para todos e não para uns administrarem e os outros comprarem ou nem sequer a terem. Portanto, com uma divisão harmónica dos recursos será viável a existência pacífica do Estado de Israel e a existência pacífica do Estado da Palestina. Mas um Estado palestiniano com os meios e com o território que lhes permita viverem tal qual os israelitas. Isto parece um pouco utópico atendendo à situação... mas não há outra forma. Desde 1967 até agora está visto que a solução militar não resulta. Não é possível a aniquilação de um povo pelo outro, nem é possível, utilizando as metáforas geográficas, atirar com os israelitas para o Mediterrâneo nem com os palestinianos para o deserto, embora haja quem pense isso na direita israelita.

 

– Mas há sectores que defendem que já existe um Estado palestiniano?

 

É. O Estado da Jordânia, que tem uma maioria populacional palestiniana resultante da sua expulsão da Palestina. Mas, entretanto, entre os neoconservadores norte-americanos surgem teorias interessantes para a partilha do Iraque, onde se reservaria uma espécie de “lar para os palestinianos”. Parece realmente um delírio mas são teorias que estão escritas e que são compartilhadas com israelitas, como é o caso do ex-primeiro­‑ministro, Benjamin Netanyahu.

 

– Quando se criou Israel, havia uma aura romântica na sua criação…

 

Havia e foi compartilhada por correntes progressistas de todo Mundo, pois pensava-se que era possível criar o socialismo na Terra Prometida... os quibuts e as outras formas de organização social eram progressistas e contrastantes com o conservadorismo árabe, daí a criação do Estado de Israel ter sido apadrinhada pelas duas grandes potências da altura, os Estados Unidos e a União Soviética. Mas os povos têm direitos e não se pode trazer agora toda a questão territorial outra vez à superfície, criando uma espécie de caos, como defendem os neoconservadores, para daí nascer a nova realidade, repetindo-se um erro histórico. Neste momento, à margem desses delírios, existe uma realidade: os palestinianos têm de ter o seu Estado e a melhor forma de o conseguirem é dialogando directamente com Israel. Claro que a situação interna alterou-se. A gestão da OLP foi substituída pelo fundamentalismo religioso que hoje é maioritário, porque o processo de paz falhou. É preciso dizer que hoje os palestinianos, pelo menos a OLP assim o defendia, aceitam a criação de um Estado Palestiniano já apenas no território da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Leste, o que é um imenso recuo territorial em relação a 1948.

 

– Há uma intenção expansionista de Israel?

 

Há quem diga que sim, pois alegam que Israel tem interesse em anexar a parte muçulmana do Líbano. Isto também parece um delírio, mas o Sul do Líbano tem recursos de água tal como os Montes Golan têm. Aliás, a água do rio Litani, uma fronteira natural no Líbano, nasce nos Montes Golan que estão ocupados por Israel. Estas situações são resolúveis, mas a verdade é que para o serem tem de haver partilha. E, desde o início, a partilha é o que está em causa...

 

– Neste quadro, qual o papel dos Estados Unidos?

 

Os interesses dos Estados Unidos são internos e externos. Internos porque a comunidade judaica que se revê em Israel prefere ficar nos EUA onde tem muito peso, nomeadamente nos órgãos de decisão: faz presidentes, desfaz presidentes se for preciso, tem um império mediático que é Hollywood, faz imagem e cria factos. Esta uma realidade interna importante, que deve ser sempre tida em conta. Depois há interesses estratégicos. Israel é de facto uma ponta de lança dos EUA em toda uma região, que não se sabe para onde caminha. Inclusivamente, apesar da ditadura da Arábia Saudita ser aliada dos EUA, estes estão sempre preocupados com o que lá acontece e, portanto, Israel é, digamos, um facto concreto e seguro para os EUA. Os EUA têm em Israel a absoluta confiança da defesa dos seus interesses. Além disso, permite-lhe fazer operações militares no Líbano sem envolvimento directo, como aconteceu. Portanto, os EUA estão sob cobertura de bandeiras internacionais no Iraque, no Afeganistão através da NATO, no Líbano e na Palestina através de Israel. São então sempre os mesmos interesses que estão por trás e a que se podem acrescentar interesses próprios de Israel, mas é sempre a somar, porque os seus interesses básicos estão salvaguardados. Pode-se perguntar como é que uma guerra civil salvaguarda interesses básicos. Mas com a guerra civil no Iraque ainda não deixou de correr petróleo. E, enquanto correr, a situação está tolerável.

 

– E a pressão sobre o Irão...

 

O Irão é uma realidade histórica muito mais antiga que a daqueles que dão lições de civilização. O Irão é um país de grande sabedoria, de grande cultura, com uma personalidade e uma civilização fortíssima que não são juncáveis por aqueles que têm 200 anos de uma falsa civilização, de uma civilização de plástico, naquilo que é visível e não naquilo que existe de cultura e civilização enraizada nos EUA, que não se reflecte no poder dominante.

 

O Irão é uma realidade no Médio Oriente anterior a todas estas realidades. Assim, o Irão é um país que lê a realidade regional e internacional com muita experiência e, ao que parece, para choque de toda a humanidade, estariam a construir a arma nuclear, porém, sem chocar toda a humanidade, Israel, a outra potência forte no Médio Oriente, tem armas nucleares. Logo, existe aqui, à partida, um desequilíbrio. E, sem reconhecer se há ou não um esforço do Irão para ter armas nucleares, a situação real é que Israel tem e é uma ameaça para o Irão, pois representa interesses imperialistas e expansionistas no Médio Oriente… Ou assumimos de cruz que Israel não ataca ninguém? Não é essa a realidade que existe no mundo. Assim, a posse de armas nucleares é, no mínimo, um factor dissuasor.

 

– E a Índia e o Egipto?

 

Bom. À Índia teve de se lhe dar o direito de ter a sua arma nuclear, porque o Paquistão criou a sua através dos EUA. Toda a tecnologia e todo o financiamento dessas armas nucleares paquistanesas foram asseguradas pelos EUA, como é hoje comprovado em certos programas e até no programa 60 Minutos que, como se sabe, pratica censura... O certo é que ao criarem a bomba atómica do Paquistão, por arrastamento tiveram de tolerar a da Índia. E, agora, há realmente um problema do Irão para os EUA. Já para o Mundo, não existe problema Irão de espécie nenhuma.

 

José Goulão, nascido em 1950, é jornalista desde 1974. Integrou as redacções de vários jornais, nomeadamente, da Capital, O diário, Diário Económico, Valor, Vida Mundial e de outros órgãos de comunicação social onde dedicou, em geral, as suas prosas a assuntos internacionais. Foram, porém, as suas análises sobre o Médio Oriente, nas televisões e na rádio, que o projectaram como especialista. Uma classificação a que foge ao traçar o seu perfil da seguinte forma:

 

«José Goulão é um jornalista que foi um dia para Beirute, para a guerra de 1982, e ficou completamente fascinado pela problemática do Médio Oriente.

 

É um jornalista que quanto mais aprofunda o conhecimento sobre essa área menos sabe sobre ela, porque a riqueza cultural, civilizacional e o que está em causa naquela região é de tal modo arrebatadora que ultrapassa o fascínio... e é tão complexa, que é inimiga de quem se acha senhor da verdade.

 

Portanto, em relação àquela região, eu jornalista, não tenho nem a verdade, nem o conhecimento, nem o preconceito.

 

Sei que conheço o que lá se passa, mas não tenho a veleidade de conhecer o Médio Oriente.»

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