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Oriente |
07/09/2006
Gaza está a morrer Patrick
Cockburn Gaza está a morrer. O
assédio israelense ao enclave palestiniano é tão intenso que a sua população
se encontra à beira da inanição. Aqui, na costa do Mediterrâneo, está a ter
lugar uma enorme tragédia que está a ser ignorada porque a atenção do mundo
tem sido desviada pelas guerras do Líbano e do Iraque. Toda uma sociedade está
a ser destruída. Há 1,5 milhões de palestinianos aprisionados na área mais
densamente povoada do mundo. Israel paralisou todo o comércio. Proibiu até os
pescadores de se afastarem da costa, por isso eles metem‑se às ondas
na tentativa inútil de capturar peixe com redes lançadas à mão. Muitas pessoas estão a
ser mortas pelas incursões israelenses que ocorrem diariamente por terra e
por ar. Desde 25 de Junho, um total de 262 pessoas foram mortas e 1200
feridas, das quais 60 tiveram os braços ou as pernas amputados, diz o doutor
Juma Al Saqa, director do hospital Al Shifa na cidade de Gaza, que está a
ficar rapidamente sem medicamentos. Destas, 64 eram crianças e 26 mulheres.
Até agora, este sangrento conflito em Gaza recebeu apenas uma fracção da
atenção reservada pelos meios de comunicação internacionais à guerra do
Líbano. Foi no dia 25 de Junho
que o soldado israelense Gilad Shalit foi capturado e dois outros soldados
foram mortos por militantes palestinianos que utilizaram um túnel para sair
da Faixa de Gaza. Na sequência disso, escreve Gideon Levy no diário Haaretz, o exército israelense «tem vindo a arrasar Gaza –
não há outra palavra para o descrever – matando e demolindo, bombardeando e
lançando projécteis, indiscriminadamente». Para todos os efeitos, Gaza foi
reocupada, pois os soldados e os tanques israelenses entram e saem a seu bel‑prazer.
Na semana passada, ocuparam várias casas no distrito de Shajhayeh, na região
norte, e ficaram nelas durante cinco dias. Quando se retiraram, 22
palestinianos tinham sido mortos, três casas estavam destruídas e olivais,
árvores de citrinos e de amêndoas tinham sido destruídos com bulldozers. Fuad Al Tuba, agricultor
de 61 anos que possuía aqui uma quinta, disse: «Até destruíram 22 das minhas
colmeias e mataram 4 ovelhas». Apontou tristemente para um campo, com a sua
terra arenosa acastanhada revolvida pelas correntes dos bulldozers, onde
havia pilhas de troncos e ramos destroçados das quais pendiam folhas secas.
Perto, um carro amarelo erguia‑se sobre a dianteira no meio de uma
pilha de blocos de cimento que antes haviam sido uma pequena casa. O filho dele, Baher Al
Tuba, descreveu como, durante cinco dias, os soldados israelenses o confinaram
a ele e à sua família numa sala da sua casa onde sobreviveram bebendo água de
um aquário. «Os franco‑atiradores tomaram posições nas janelas e
atiravam contra qualquer um que se aproximasse», disse. «Mataram um dos meus
vizinhos que se chamava Fathi Abu Gumbuz, que tinha 56 anos e que só saiu
para ir buscar água». Às vezes, o exército
israelense avisa antes de uma casa ser destruída. O som que os palestinianos
mais temem é o de uma voz desconhecida no seu telemóvel dizendo que têm meia
hora para deixarem a sua casa antes de ser atingida por bombas ou mísseis.
Não há apelação possível. Mas não são só as
incursões israelenses que estão a destruir Gaza e o seu povo. Na redacção
eufemística de um relatório do Banco Mundial publicado no mês passado,
Cisjordânia e Gaza enfrentam «um ano de recessão económica sem precedentes.
Os rendimentos reais podem diminuir em pelo menos um terço em 2006 e a
pobreza afectar perto de dois terços da população». Pobreza, neste caso,
significa um rendimento per capita inferior a dois dólares por dia. Há sinais de desespero
por todo o lado. A criminalidade está a aumentar. As pessoas fazem de tudo
para alimentarem as suas famílias. O exército israelense entrou na zona
industrial de Gaza para procurar túneis e expulsou a polícia palestiniana.
Quando os israelenses se retiraram, foram substituídos, não pela polícia, mas
por saqueadores. Num dia desta semana, havia três carros puxados por burros a
remover pedaços de metal retorcido dos restos de fábricas que antes
empregaram milhares. «É o pior ano para nós
desde 1948 [quando refugiados palestinianos entraram de enxurrada em Gaza]»,
diz o doutor Maged Abu-Ramadan, antigo oftalmologista que é presidente de
Gaza. «Gaza é uma prisão. Nem as pessoas nem as mercadorias podem sair daqui.
As pessoas já estão a passar fome. Tentam sobreviver à base de pão e falafel,
e alguns tomates e pepinos que elas mesmas cultivam». As poucas vias que os
moradores de Gaza tinham de ganhar a vida desapareceram. O doutor Abu‑Ramadan
afirma que os israelenses «destruíram 70% dos nossos laranjais para criar
áreas de segurança». Cravos e morangos, dois dos principais produtos de
exportação de Gaza, foram deitados fora ou deixados a apodrecer. Um ataque
aéreo israelense destruiu a central de energia eléctrica, pelo que 55% da
energia se perdeu. O fornecimento de energia eléctrica está a tornar‑se
agora quase tão intermitente como em Bagdade. O assalto israelense ao
longo dos últimos dois meses golpeou uma sociedade já atingida pela retirada
dos subsídios da UE depois da eleição do Hamas para o governo palestiniano em
Março. Israel está a reter impostos correspondentes à entrada de mercadorias
em Gaza. Sob pressão dos EUA, os bancos árabes no estrangeiro não transferem
fundos para o governo [palestiniano]. Dois terços das pessoas
estão desempregados e o terço restante, que na sua maioria trabalha para o
Estado, não está a ser pago. Gaza é actualmente a região mais pobre do
Mediterrâneo. O rendimento anual per capita é de 700 dólares, comparados com
20.000 dólares em Israel. As condições são muito piores do que no Líbano,
onde o Hezbollah compensa liberalmente as vítimas da guerra pela perda das
suas casas. Se Gaza já não tivesse problemas suficientes, esta semana houve
greves de protesto e marchas de soldados, polícias e agentes de segurança não
pagos. Foram organizados pela Fatah, o movimento do presidente palestiniano
Mahmoud Abbas, também conhecido como Abu Mazen, que perdeu as eleições para o
Hamas em Janeiro. Os seus partidários marcharam pelas ruas agitando as suas
Kalashnikovs no ar. «Abu Mazen, és valente», gritavam. «Salva-nos deste
desastre». Homens armados do Hamas, de rosto carrancudo, mantiveram um perfil
discreto durante a manifestação, mas os dois lados não estão muito longe de
se digladiarem nas ruas. O assédio israelense e
o boicote europeu são um castigo colectivo para todos em Gaza. É improvável que
os homens armados sejam dissuadidos. Num leito do Hospital de Shifa, estava
um jovem robusto chamado Ala Hejairi com feridas no pescoço, pernas, peito e
estômago. «Estava a colocar uma mina antitanque na semana passada em
Shajhayeh quando fui atingido por disparos de um avião israelense não
tripulado», disse. «Regressarei à resistência quando melhorar. Por que
deveria preocupar‑me? Se morrer, morrerei como mártir e irei para o
paraíso». O pai dele, Adel,
afirmou que estava orgulhoso do que o seu filho tinha feito, acrescentando
que três sobrinhos seus já eram mártires. Apoiava o governo do Hamas: «os países
árabes e ocidentais querem destruir este governo porque é o governo da
resistência». À medida que a economia
sucumbe, haverá muitos mais jovens em Gaza dispostos a tomar o lugar de Ala Hejairi.
Sem treinamento e mal armados, na maioria vão ser mortos. Mas a destruição de
Gaza, actualmente em curso, assegurará que a paz no Oriente Médio não seja
possível por várias gerações vindouras. |