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27/08/2006
Farto dos lamurientos Gideon
Levy * “Os miúdos das velas” cresceram
e tornaram-se no “movimento de protesto” desta guerra. A juventude confusa
que se sentou a chorar com as suas guitarras e as suas velas na praça de
Telavive, após o assassinato de Rabin, está actualmente sentada no Jardim das
Rosas, em frente ao gabinete do primeiro‑ministro, não menos confusa,
e parecendo protestar contra a guerra – evidentemente, só depois desta ter
cessado. Tal como era impossível
saber o que as crianças das velas queriam, é difícil compreender o que querem
os reservistas e as suas famílias desoladas. A maior parte das suas queixas
deveria ser dirigida contra si mesmos: onde estavam até agora? Se é só a
exigência de que alguns responsáveis voltem para casa, é uma perda de tempo
deles e nosso. Clones daqueles que são
depostos muito rapidamente os substituirão e nada mudará. Olmert, Peretz e
Halutz voltarão para casa, e Netanyahu, Mofaz e Barak chegarão ao poder. Pela primeira vez
depois de muitos anos terríveis durante os quais matámos e fomos mortos sem
razão, há pontos de interrogação que marcam o discurso público. Essa mudança
deveria ser bem-vinda. Mas aqueles que examinam o conteúdo do novo protesto, não deveriam acalentar grandes
ilusões. Os argumentos dos manifestantes resumem-se a dois pontos principais,
ambos tão estreitos como o mundo dos reservistas: as IDF [Forças de Defesa
Israelenses] não estavam preparadas para a guerra, e a guerra foi terminada
demasiado depressa. Sobre o primeiro ponto,
muitos são responsáveis, e o segundo ponto não justifica o protesto. Questões
bem mais graves e profundas pairam no ar sobre como fomos sequer para esta
guerra, como poderia ter sido evitada, porque é que a guerra é a única
linguagem que conhecemos, quais são os limites da utilização do poder e para
onde vamos agora. O novo movimento de protesto não está a levantar estas questões. Ainda que esta vaga de
protestos seja bem sucedida, que uma comissão de inquérito seja estabelecida
e duas ou três pessoas paguem com os seus lugares, nada mudará. Tal como os
protestos de 1973 não trouxeram a mudança desejada, excepto para as poucas
pessoas afastadas dos lugares, os protestos de 2006 não trarão verdadeira
mudança. Lamentar-se após a guerra não é uma agenda nacional, e muito menos
se evita a todo o custo as questões principais. Se são apenas os
manifestantes “laranja” contra a desconexão [1] disfarçados, até antecipa
novos perigos. Antes de mais, os
signatários da petição e os manifestantes que fazem sit‑in no Jardim das Rosas deveriam perguntar a si mesmos
onde estavam até agora. Tirando os “laranjas”, a maior parte deles votou no
partido Kadima, talvez no Likud ou no Trabalhista, muitos serviram nas
reservas nos territórios ocupados, trataram dos seus assuntos pessoais e
mantiveram‑se calados. Durante anos, tomaram parte directa ou indirecta
em programas nacionais inúteis, desde a construção do muro ao empreendimento
de colonização e ao aprofundamento da ocupação. Viram com os seus próprios
olhos como as IDF foram transformados numa força de polícia de ocupação,
bravateando com os fracos mas não treinadas para lidar com os fortes. Protegeram os colonos,
viram o sofrimento causado pela ocupação, foram testemunhas ou participaram
no maltrato dos palestinianos. Por conseguinte, a responsabilidade pela falta
de preparação das IDF é deles, em parte devido ao que fizeram e em parte
devido ao seu silêncio. Não podem pretender agora que ficaram surpresos com o
fracasso das IDF em executar: estavam lá quando o exército alterou o seu
rosto. Souberam todos estes anos que controlar as identidades nas barreiras
rodoviárias, invadir quartos, perseguir crianças nos becos e demolir milhares
de casas não é uma preparação para a guerra. Esperava-se que
compreendessem que as actividades de ocupação do exército nos territórios
inspiram muito ódio contra nós, que as políticas de recusa de Israel a põem
em maior perigo que qualquer outra coisa e que o verdadeiro teste do exército
não é nas casbahs. Mesmo a falta de prontidão na frente interna não deveria
tê‑los surpreendido: um país que abusa dos fracos em tempos de
calmaria também o fará em tempos de guerra. O que há de tão novo e
surpreendente em tudo isto? O outro ponto, a
suspensão dos combates, não justifica certamente o protesto, mas na verdade
um cumprimento. Em vez de perguntar porque estoirou a guerra, os
manifestantes estão a perguntar porque terminou. Se há algo pelo qual o
comando da guerra mereça algum crédito, é pela sua hesitação nas últimas
etapas da guerra. É uma vergonha que não tenham hesitado mais cedo. E se
tivéssemos continuado a guerra, onde terminaríamos exactamente? Foram a
determinação, a arrogância e a pressa do comando da guerra nas primeiras
fases os pecados originais contra as quais o protesto deveria apontar. Acima de tudo, é
deprimente verificar que nenhum dos manifestantes está a levantar questões
morais. Um movimento de protesto que não diz nada sobre a terrível destruição
que infligimos no Líbano, de como matámos centenas de civis inocentes e de
como transformámos dezenas de milhares em refugiados empobrecidos, não é, por
definição, um movimento moral. Mesmo após ter sido provado que a força
excessiva não era eficaz, nenhuma manifestação foi dirigida contra ela.
Durante quanto tempo mais vamos continuar a concentrar‑nos em nós
mesmos e na nossa aflição? É pedir demasiado aos manifestantes,
que são supostamente os quadros da vanguarda, que olhem um instante para o
que fizemos a outra nação? Porque é que depois dos massacres de Sabra e de
Chatila, que nem sequer foram directamente obra nossa, massas de pessoas
desceram às ruas e agora ninguém pia sobre a destruição que semeámos no
Líbano com as nossas próprias mãos, e para nada? Com tais movimentos de
protesto, Israel não precisa dos cordeiros silenciosos que a caracterizaram
nestes últimos anos. Deveríamos estar fartos de tais lamurientos. Talvez
sejam soldados corajosos no campo de batalha, mas no terreno do protesto não
são nada mais que soldados cobardes. _______ * Gideon Levy é
jornalista no diário israelense de esquerda Ha’aretz. Muito crítico da ocupação israelense, tem neste
jornal uma crónica semanal das violações cometidas contra os palestinianos
sob o título de “Twilight Zone”. Ao longo dos anos tornou-se para a direita
israelense um ícone do “esquerdismo pró‑palestiniano” e um álibi‑contraste
para os outros. «Como poderíamos não ser uma democracia? Deixamos escrever
Gideon Levy!», costuma dizer o ministro da Defesa, Shaul Moffaz. Gideon Levy
é membro da conferência anti‑imperialista Axis for Peace organizada pela Rede Voltaire (nota
retirada da versão francesa em Voltaire). [1] Os colonos que
recusam a desconexão de Gaza adoptaram as cores da “revolução laranja”
ucraniana. |