Informação Alternativa

Médio Oriente

26/07/2006

 

Ester Mucznik não fala por mim

 

Alan Stoleroff *

esquerda.net

 

(Após leitura da crónica habitual de Ester Mucznik no Público de 21 de Julho de 2006)

 

Enquanto todos os jovens israelitas são obrigados a servir o Estado nas forças armadas, Ester Mucznik (a nossa própria “Investigadora em assuntos judaicos”) é uma voluntária, oferecendo os seus serviços à máquina propagandística sionista gratuitamente e por convicção identitária. Contudo, a sua apologia, composta na “calma tensa” de Tel Aviv, da solidariedade da população israelita face à realidade da guerra, inclusive dos deputados árabes (mentira), não deve impressionar muito a opinião pública informada em Portugal ou na Europa em geral.

 

Mesmo aqueles que assumem o seu “ocidentalismo” nas “guerras culturais” actuais não ficam indiferentes à “desproporcionalidade”, ou seja, à brutalidade e criminalidade, da resposta das forças armadas israelitas à provocação (irresponsável) do Hizbollah do dia 12 de Julho que se baseia nos princípios de castigo colectivo e na estratégia explícita do uso da força máxima. O quartel­‑general da força aérea israelita anunciou que foram 23 toneladas de bombas a atingir a sede do Hizbollah em Beirute!

 

Mesmo quem não viu as fotografias da destruição do sul de Beirute, onde o povo do Hizbollah se concentra, entende que não é com avisos à população que se vai evitar que a matança transbordasse para a população civil quando se deixa cair 23 toneladas de bombas numa zona urbana. Ou será que as forças armadas israelitas identificam todos os xiitas com Hizbollah, e portanto todos (idosos, mulheres, crianças, homens não­‑pertencentes às milícias) são alvos – secundários mas aceitáveis porque os danos colaterais são um mal menor quando se trata da segurança de Israel?

 

Em Beirute e no sul do Líbano não reina uma “calma tensa”; reina a fuga das populações civis deliberadamente e assumidamente provocada pelas forças armadas israelitas, e reina a guerra, a invasão de forças terrestres israelitas que se confrontam directamente com as tropas do Hizbollah numa tentativa de operação de limpeza. Vamos ver se o exército israelita (IDF) efectua uma limpeza: se tratarem dos cadáveres abandonados pelas populações em fuga, se recolherem os mísseis iranianos de Hizbollah, se criarem de novo uma zona tampão entre o Líbano e o norte de Israel etnicamente limpa das populações xiitas apoiantes do Hizbollah para que uma força internacional aceitável ao governo israelita possa reocupá-la.

 

É interessante e revelador que Ester Mucznik nos escreve que as coisas não voltarão à situação anterior que foi criada pela retirada “voluntária” de Israel do sul do Líbano e de Gaza (ou seja, o Hizbollah e a resistência palestiniana não tiveram qualquer impacto nas decisões de retirada das duas zonas?!?). Ester Mucznik agora junta a sua voz aos proponentes da direita que criticam Barak e Sharon por terem alterado as formas de ocupação desses territórios, a segunda com base na política da “separação unilateral” e “convergência”.

 

Estes comentários de Mucznik são reveladores porque representam um pensamento israelita de que é necessário agora acabar uma tarefa, ou seja, acabar com “eles”. Apesar de ser identificado como “traidor” à causa judaica em sites da extrema-direita sionista, enviam comunicados para o meu endereço de e­‑mail (se calhar pensam que um judeu sempre será susceptível à “solidariedade” racista e nacionalista) e um último comunicado a circular foi mesmo neste sentido que parafraseio assim: “Aproveitemos da situação, em que o mundo ocidental compreende a justiça da nossa resposta aos ataques ao nosso território soberano e aos raptos dos nossos soldados corajosos e puros, para acabar de uma vez por todas com eles!” No caso do sul do Líbano, o quartel geral das IDF está a anunciar que a operação vai durar algum bom tempo além da semana que Bush e Condoleza atribuíram para o trabalho.

 

Mas Mucznik não escreveu sobre a guerra aos palestinianos em Gaza e não acho que foi um esquecimento: é para confundir a sequência de acontecimentos que produziram a ofensiva israelita contra Gaza com a provocação do Hizbollah no norte. Sobre a situação em Gaza, Mucznik critica Vital Moreira (que caracterizou os actos militares das forças de resistência palestiniana do Hamas e Jihad Islâmica como “resistência legítima à ocupação”) para nos fazer entender que também no sul é Israel que é vítima de agressões dos islamitas, como se pudesse comparar o lançamento de rockets caseiros Qassans aos ataques de F-16s e Apaches, como se pudesse comparar a captura de um soldado israelita ao aprisionamento e rapto de milhares de palestinianos militantes da resistência e suspeitos de resistência. (É sabido que no dia anterior à captura do soldado Shalit, a tropa israelita tinha raptado vários palestinianos do Hamas em Gaza.) Portanto, tudo serve para liquidar a crítica à ocupação israelita que dura quase 40 anos.

 

Em vez de fazer apologia e elogio a esta tendência de solidariedade e de fechamento das fileiras da população israelita, Mucznik deveria criticar a continuação de uma estratégia desastrosa para o Estado de Israel e para a segurança relativa da população do Estado. A paz e o reconhecimento mútuo não virão da “reafirmação da dignidade e da força dissuasora” das forças armadas israelitas; só virá o ódio de povos dilacerados e humilhados.

 

Este governo do Kadima, com a ajuda do líder dos trabalhistas, Peretz, dirigente da Histadrut, ex-proponente do “processo de paz” como o seu colega, Peres, Prémio Nobel que foi o autor da violência contra Líbano na campanha “Vinhas da Ira”, escolheu esta estratégia da resposta maciça de forma análoga como tem vindo a desenvolver a sua estratégia de “convergência”, ou seja, da delineação unilateral das fronteiras de Israel e de anexação e de consolidação do apartheid. Toda a evolução que produziu a conjuntura actual deriva da política de Israel e dos EUA em negarem os resultados da eleição democrática na Palestina, para recusar a negociação do que quer que seja, porque não há parceiro aceitável para tal, esta política que é um corolário da política dos EUA de Bush e Cheney para o Iraque e o Médio Oriente.

 

Toda a política de Israel, desde a sua rejeição sob o governo de Netanyahu de qualquer simulacro de um “processo de paz”, tem sido a negação de oportunidades para a obtenção de paz e para uma resolução dos conflitos, coberta por um discurso hipócrita e duplíce , e como a maior parte da política de Israel desde as guerras de 67 e 73, estas políticas “fracassaram” produzindo sempre as consequências não-intencionadas de políticas de curto prazo e curta visão cínica.

 

A invasão do Líbano para esmagar a OLP em 1982 produziu o Hizbollah, a promoção do Hamas como contrapeso à Fatah durante a primeira Intifada resultou na expansão do movimento islamista contra os corruptos e ineptos que regressaram da Tunísia, a ganância para manter e expandir os colonatos após os acordos de Oslo e a arrogância estúpida de ter explorado e humilhado Arafat e a Autoridade Palestiniana e não ter produzido um acordo final e justo quando havia uma oportunidade, a tentativa de isolamento do governo do Hamas.

 

Mas a realidade é que desde Netanyahu – com o intervalo do governo de Barak que também perdeu as suas oportunidades diplomáticas devido à duplicidade que derivou do tratamento arrogante de Arafat e da questão dos refugiados – desde então a estratégia do Estado de Israel não tem a ver com um “processo de paz” no sentido da resolução do conflito político territorial com base na solução de dois estados viáveis. A paz procurada pela política israelita era a submissão dos palestinianos a um estado fantoche fundado sobre bantustões e a anexação sem compensação da maior parte dos colonatos da Cisjordânia.

 

Em contraste com Ester Mucznik, escrevo a partir de Lisboa onde consigo distanciar-me da claque da nossa tribo e consigo ver o sofrimento e a tragédia tanto dos palestinianos e dos libaneses como dos israelitas. Contudo estou também consciente da desproporcionalidade brutal na contagem das vítimas, e a desvantagem não é do lado do “meu povo”, muito longe disso e em todos os indicadores.

 

Lembro-me que a vitimização do Holocausto não justificará nunca a política racista baseada na vingança contra todo o mundo e sobretudo os povos árabes e islâmicos. Rejeito a política da administração Bush/Cheney de destruição do Iraque e do Médio-Oriente e rejeito a estupidez e a cegueira teimosas que nos levam a negar que seja a ocupação dos territórios palestinianos conquistados em 67 a causa profunda e básica de guerra e a não ver que esta guerra vai arrastar o mundo inteiro para o desastre.

 

Ester Mucznik não fala por mim; estou do lado dos 500-600 israelitas que se manifestaram em Tel Aviv no domingo da semana passada contra a guerra e contra a ocupação.

 

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* Alan Stoleroff, judeu, professor de sociologia no ISCTE, Lisboa.

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