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Oriente |
01/08/2006
A Likud Connection Jorge Costa * Nenhum massacre desvia os Estados Unidos do seu alinhamento
incondicional com os crimes de Israel. Pelo contrário, Bush insiste na recusa
da condenação das matanças de civis e no bloqueio de qualquer resolução da
ONU sobre o bombardeamento dos seus próprios funcionários. Israel é o porta-aviões que nunca vai ao fundo, dizia um antigo
secretário de Estado, Alexander Haig. Mas hoje é muito mais do que isso: o
sionismo mais extremo é o cimento da elite republicana no poder em
Washington. Esse compromisso é renovado por duas influências combinadas: a da
tribo neoconservadora e a do fundamentalismo evangélico. A SOMBRA NEOCONSERVADORA SOBRE O LÍBANO Durante os difíceis tempos clintonianos, os neoconservadores
procuraram novos aliados. No Médio-Oriente, a ponte com Israel, e em
particular com a direita do Likud, era estratégica para o futuro. A 8 de
Julho de 1996, o guru neoconservador Richard Perle foi a Telavive entregar a
Benjamim Netanyahu, o então primeiro‑ministro, um relatório que lhe
tinha sido encomendado: “Uma Clara Ruptura: Nova Estratégia para Assegurar o
Essencial”. Dois dias depois, Netanyahu discursou perante o Congresso
norte-americano e retomou literalmente parte do texto. A estratégia do relatório é simples e violenta. Começa por
argumentar que o processo de negociações de paz com Arafat enfraqueceu Israel
e criou uma «exaustão nacional». Em resposta, a negociação devia ser
substituída pela força, para conter os palestinianos, e em toda a região,
para enfrentar a ameaça árabe. O direito de assassinar dirigentes e ocupar
territórios palestinianos, a anexação permanente de Gaza, a guerra contra o
Iraque e a Síria, a cooperação com a Turquia e a Jordânia, tudo era tratado
no texto sob a forma de um grande desenho estratégico para transformar o mapa
do Médio-Oriente. O relatório, contemporâneo do manifesto neoconservador “Projecto
para um Novo Século Americano”, também foi escrito por uma equipa do American
Entreprise Institute (AEI). Com Richard Perle, que já passara pela direcção
do Jerusalem Post, estavam James Colbert, do Jewish Institute for
National Security Affairs (JINSA), Douglas Feith, que chegaria com Bush a
número três do Departamento da Defesa, e David Wurmser, hoje primeiro
conselheiro do vice-presidente Dick Cheney para assuntos do Médio-Oriente.
Antes de ser eleito, também Cheney estava nos quadros do JINSA – uma
organização que conta nas suas actividades com o financiamento de colonatos
nos territórios ocupados – assim como John Bolton, actual embaixador na ONU,
com o perfil que se conhece na presente crise. O compromisso dos neoconservadores com a direita do Likud foi ainda
mais longe, e alguns deles dispuseram‑se mesmo a ir trabalhar para
Benjamin Netanyahu. Antes de se tornar porta-voz da Casa Branca durante os
primeiros anos da ocupação do Iraque, Ari Fleischer era conselheiro eleitoral
de Netanyahu. Douglas Feith foi também conselheiro de Netanyahu, embora se
tenha afastado dele depois, considerando que mesmo a direita mais dura fazia
cedências aos palestinianos. Já no Pentágono, Feith foi essencial na ligação
a Ahmed Chalabi, iraquiano que passou de conferencista do JINSA a homem dos
neoconservadores para o pós-Saddam. Soube‑se depois que este foi o
circuito de destilação das mentiras sobre armas de destruição massiva que
precederam a invasão do Iraque. Como advogado, Feith partilhara escritório
com Marc Zell, extremista do Likud e porta-voz de colonatos da Cisjordânia,
escritório onde também marcou presença Salem Chalabi, sobrinho de Ahmed e
presidente do tribunal especial para Saddam em Bagdade. O consulado de Feith
como subsecretário da Defesa (2001-2005) terminou com investigações do FBI
sobre o seu envolvimento na passagem de informações secretas sobre o Irão, do
Pentágono para a embaixada israelita. Mas os “Likudniks” da administração Bush não caíram todos em
desgraça com a crise iraquiana. O melhor exemplo disso é Elliot Abrams,
adjunto do Presidente e responsável pelo Médio Oriente no Conselho de Segurança
Nacional (NSC). Abrams chegou a ser condenado por mentir ao Congresso no
âmbito do processo Irão‑Contras, mas foi indultado por Bush pai e
recuperado por Bush filho. Nos anos 80, Israel era entreposto norte‑americano
para fornecimentos secretos de armas a Khomeini contra Saddam e aos Contras
da Nicarágua – e Abrams, bem relacionado em Telavive, era homem para esse
serviço. Extremista judeu, Abrams é um segregacionista, que defende a endogamia
judia e escolas separadas: «Fora de Israel, não pode haver dúvidas de que os
judeus devem manter-se à parte da nação onde vivem. A verdadeira natureza de
ser judeu é estar à parte – excepto em Israel – do resto da população» (in Faith
or Fear: How Jews Can Survive in a Christian America, New York: Free
Press, 1999). Em 2000, Abrams lança-se contra as organizações judaicas norte‑americanas
que defendiam a continuação das negociações com a Autoridade Palestiniana e
exigiam a interrupção dos ataques israelitas. Em 2002, chega ao Conselho de
Segurança Nacional, onde se mantém até hoje. A sua nomeação está assinada
pela então presidente do NSC... Condolezza Rice. O SIONISMO DOS CRISTÃOS FUNDAMENTALISTAS Igualmente incondicional no apoio à ala mais violenta do regime
israelita é a chamada “Bible Belt”, a direita evangélica que constituiu a
aliança mais importante da reeleição de Bush em plena crise iraquiana, com
uma campanha centrada nos casamentos homossexuais, aborto e educação sexual.
Já com o Líbano sob fogo, em finais de Julho, 3400 delegados reuniram-se no
Texas para a apresentação dos Cristãos Unidos por Israel. A organização
pretende ser um elemento de pressão institucional e de campanha pela
intransigência expansionista de Israel. Estiveram presentes o embaixador
israelita e Ken Mehlman, presidente do Partido Republicano. Bush e Olmert
enviaram as suas saudações. A história desta afinidade entre a direita cristã norte-americana e
o extremismo israelita é a do crescimento do peso das correntes evangélicas
apocalípticas: sondagens recentes apontam para que 20% a 25% dos cerca de 100
milhões de evangélicos norte-americanos são receptivos às teses do sionismo
cristão, uma vez que se reconhecem na profecia do fim dos tempos e do
Armagedão (Reagan fazia alusões frequentes à sua crença nestes anúncios).
Para as correntes cristãs sionistas, o Estado de Israel ocupando toda a
Palestina histórica é a concretização da profecia do Antigo Testamento e uma
pré-condição divina para o retorno do Messias. A guerra torna‑se dogma
religioso. Estas doutrinas, que já contam mais de século e meio, ganharam
relevância política na última década, graças à forte participação eleitoral
dos conservadores evangélicos e à sua vinculação crescente aos
neoconservadores. Os cristãos sionistas tiveram grande relevo na disputa da
opinião pública norte‑americana contra os acordos de Oslo e
empenham-se no financiamento de novos colonatos, com o apoio à imigração de
judeus de países de Leste. São visitas frequentes dos líderes israelitas, e
sustentam em referências bíblicas o seu alinhamento com Sharon e Olmert. De facto, seja pela mão do cinismo neoconservador – teorizado por
Leo Strauss sobre o bom uso da religião pela elite esclarecida –, seja pelo
peso próprio do fundamentalismo religioso, a globalização armada apresenta‑se,
como escreveu Bob Woodward em A Guerra de Bush, inserida «na grande
visão de um plano de Deus». Ou, como reza a passagem bíblica citada pela
família Cheney no seu cartão de Natal, «se um pardal não pode cair no chão
sem que Ele saiba, será possível que um império possa emergir sem a Sua
ajuda?». Além da narrativa religiosa, nos EUA como em Israel, vive uma agenda
precisa: um Médio-Oriente redesenhado, com centro militarizado em Telavive,
Estados fracos e desestruturados em toda a região, e tutela imperial sobre as
suas riquezas naturais. Para lá chegar, o choque de fundamentalismos é o
mundo perfeito da “Likud connection”. ________ * Jorge Costa escreveu, com Francisco Louçã, o livro A Globalização Armada – as aventuras de George W. Bush na Babilónia. |