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Médio
Oriente |
20/07/2006
Tão perto e tão longe Anabela Fino Israel está a bombardear o Líbano desde o passado dia 12, no que diz
ser uma resposta ao sequestro de dois soldados seus pelo Hezbollah. A
operação, segundo o chefe de Estado Maior adjunto do exército israelita,
general Moshé Kaplinski, deverá prolongar-se pelo menos por mais uma semana.
No encerramento desta edição, o número de mortos ascendia já a duas centenas
e meia, enquanto a destruição de edifícios e infra‑estruturas (pontes,
estradas, aeroporto, centrais de electricidade e abastecimento de água, entre
outras) prosseguia a um ritmo devastador. Longe do cenário de guerra – onde não chega o cheiro a sangue, nem
os gritos de dor, nem os estilhaços das bombas, nem o som das derrocadas, nem
o aguilhoar do medo sem medida –, lá longe, dizia, a União Europeia condena
os ataques do Hezbollah e o rapto dos dois soldados israelitas, exigindo a
sua libertação imediata, e pede «contenção» a Israel, cujo direito à
autodefesa não contesta. Igualmente longe do cenário de guerra – onde as imagens das crianças
mortas, se é que chegam, causam tanta emoção como as das chacinadas
alegremente por heróis de jogos de vídeo; onde a dor sem remédio de perder um
filho é medida por bitolas que distinguem aliados de adversários; onde os
direitos de uns não fazem sequer sentido fora do âmbito dos interesses de
outros –, lá longe, dizia, o Conselho de Segurança da ONU não conseguiu
sequer produzir um comunicado sobre a situação no Líbano, já que os EUA
rejeitam a exigência de um cessar-fogo até que Israel dê por concluída a “operação”
que está a levar a cabo. Mais longe ainda do cenário de guerra – e todavia tão próximo dos
que usam e abusam do poder de exterminar povos, invadir países e semear a
destruição –, lá longe, dizia, na cimeira do G8, Bush e Blair mostraram
involuntariamente ao mundo como de facto encaram a carnificina que está a ser
cometida no Líbano, ao falarem sem dar conta que os microfones (e as câmaras)
da reunião estavam ainda ligados. «O que é preciso é envolver a Síria, de
forma a que o Hezbollah pare de fazer merda e pronto», disse Bush, mais
preocupado em regressar a casa do que com os mortos no Líbano ou em qualquer
outro lugar do planeta. Amanhã, como ontem, a Casa Branca e as centrais de desinformação
farão saber que o “eixo do mal” – para o caso Síria e Irão – são os
verdadeiros responsáveis pelas vítimas das bombas israelitas e que não há
vida que valha os interesses do império. Enquanto isso, Israel vai continuar a sacrificar os seus próprios
filhos, distinguindo-os apenas com a duvidosa honra de considerar que o seu
sangue derramado vale infinitamente mais do que o sangue dos filhos alheios,
pelo que por cada um que tombar há que matar centenas de outros. Esta
contabilidade macabra não resgatará nenhum da morte, não aliviará a dor do
luto, não encherá o vazio da perda, mas contribuirá sem dúvida, como até
aqui, para estimular o ódio e alimentar a intolerância mútua. Longe, muito longe das bombas e das vidas ceifadas, os senhores da guerra e seus acólitos congratulam-se. As armas vendem-se como tremoço, o petróleo sobe, os lucros aumentam, o negócio vai bem e recomenda-se. |