|
Informação Alternativa |
|
Médio
Oriente |
11/07/2006
Agressão sob falso
pretexto Ismail Haniyeh * Washington Post; retirado de Esquerda No dia em que os americanos comemoravam o aniversário da sua
independência da ocupação colonial, nós palestinianos éramos mais uma vez
perseguidos pelos nossos ocupantes, que destroem as nossas estradas e
edifícios, as nossas centrais eléctricas e de distribuição de água, e que
atacam os nossos meios de administração civil. As nossas casas e edifícios de
governo são bombardeados, os nossos parlamentares capturados e ameaçados de
julgamento. A actual invasão de Gaza é só o último esforço para destruir os
resultados de eleições justas e livres realizadas no início deste ano. É a
consequência explosiva de uma campanha de cinco meses de guerra económica e
diplomática dirigida pelos Estados Unidos e por Israel. A intenção assumida
desta estratégia era forçar o palestiniano médio a “reconsiderar” o seu voto,
quando enfrentado com condições de vida cada vez piores; o seu fracasso era
previsível, e a nova agressão militar aberta e a punição colectiva são as
suas lógicas consequências. O soldado israelita “raptado” Gilad Shilat é
apenas um pretexto para uma acção prevista há meses. Para além de derrubar o nosso governo eleito democraticamente,
Israel quer incentivar divisões entre os palestinianos, afirmando que há uma
grande disputa de direcção entre nós. Sou forçado a rejeitar esta ideia
definitivamente. A liderança palestiniana está firmemente comprometida com o
conceito da shura islâmica, ou consulta mútua; é suficiente dizer que,
apesar de podermos ter diferenças de opinião, estamos unidos no respeito
mútuo e concentrados no objectivo de servir o nosso povo. Além disso, a
invasão de Gaza e o rapto dos nossos dirigentes e membros do governo tem o objectivo
de minar os recentes acordos alcançados entre o partido do governo e os
nossos irmãos e irmãs da Fatah e de outras facções, no sentido de se atingir
um consenso sobre como resolver o conflito. No entanto, o castigo colectivo
israelita apenas fortalece a nossa decisão de trabalharmos juntos. Enquanto inspecciono as ruínas da nossa infra-estrutura – a
generosidade das nações doadoras e os esforços internacionais uma vez mais
reduzidos a escombros por F-16 e mísseis de origem americana – os meus
pensamentos voltam-se outra vez para as mentes dos americanos. O que é que
pensam sobre isto? Pensam, sem dúvida, no soldado refém, capturado em batalha – no
entanto, milhares de palestinianos, incluindo centenas de mulheres e
crianças, permanecem nas cadeias israelitas por resistir a uma ocupação
ilegal que é condenada pelo direito internacional. Pensam no brio e na “firmeza” de Israel, que “enfrenta” os
“terroristas”. No entanto, um Israel nuclear possui a 13ª força militar do
planeta, uma força que é usada para controlar uma área do tamanho aproximado
de Nova Jersey, e cujos adversários não possuem forças armadas convencionais.
Quem é a vítima, supostamente a tradicional favorita da América, neste caso? Espero que os americanos reflictam de forma cuidadosa e fundamentada
sobre as causas profundas e as realidades históricas. Nesse caso, penso que
irão questionar as razões que levam um estado supostamente “legítimo” como
Israel a empreender décadas de guerra contra uma população refugiada, sem
nunca atingir os seus objectivos. As movimentações unilaterais de Israel no último ano não levam à
paz. Estes actos – a retirada temporária das forças de Gaza, o emparedamento
da Cisjordânia – não são caminhos para a solução, antes actos simbólicos e
vazios que não logram resolver o conflito subjacente. O controlo quase
absoluto sobre as vidas dos palestinianos nunca é posto em dúvida, como se
pode confirmar pelo sofrimento humanitário e económico dos palestinianos
desde as eleições de Janeiro. As actuais políticas israelitas de expansão,
controlo militar e assassinato escarnecem de qualquer noção de soberania ou
de bilateralismo. A sua “barreira de separação”, que atravessa a nossa terra,
está longe de ser um gesto de boa fé em direcção à coexistência. Mas há um remédio, que, apesar de não ser fácil, é consistente com
as nossas convicções de sempre. As prioridades palestinianas incluem o
reconhecimento do cerne do conflito sobre o território da Palestina e os
direitos de todo o seu povo; a resolução do problema dos refugiados de 1948;
a devolução de todas as terras ocupadas em 1967; e o fim dos ataques,
assassinatos e expansão militar israelitas. Ao contrário da descrição da
crise popular nos média americanos, o conflito não é apenas sobre Gaza ou a
Cisjordânia; é um conflito nacional mais abrangente que só pode ser resolvido
pela resolução de todas as dimensões dos direitos nacionais dos palestinianos
de uma forma integrada. Isto quer dizer o estabelecimento de um Estado na
Cisjordânia e em Gaza, uma capital na Jerusalém árabe oriental e a resolução
justa do problema dos refugiados palestinianos de 1948, com base na
legitimidade internacional e na lei vigente. Negociações relevantes, com um
Israel não‑expansionista e cumpridor da lei, só poderão começar depois
de ter começado esta enorme tarefa. Certamente o povo americano está a ficar mais cauteloso, depois de
50 anos e de 160 mil milhões de dólares em impostos para apoiar a capacidade
bélica de Israel – a sua “defesa”. Alguns americanos, acredito, devem
perguntar‑se se todo este sangue e riqueza não poderiam ter obtido
resultados mais tangíveis para a Palestina, se ao menos as políticas dos EUA
tivessem partido desde o início da verdade histórica, da equidade e da
justiça. Contudo, nós não queremos depender da riqueza internacional e das
doações americanas. Nós queremos aquilo de que gozam os americanos – direitos
democráticos, soberania económica e justiça. Pensámos que o nosso orgulho na
condução das eleições mais justas do mundo árabe poderia influenciar os
Estados Unidos e os seus cidadãos. Em vez disso, o nosso novo governo foi
confrontado, desde o início, por actos de sabotagem explícita e declarada da
Casa Branca. Hoje, esta agressão continua contra 3,9 milhões de civis que
vivem nos maiores campos de prisioneiros do mundo. A complacência da América
face a estes crimes de guerra é, como sempre, envolvida pela retórica da luz
verde: “Israel tem o direito de defender-se”. Estava Israel a defender‑se
quando matou oito membros de uma família numa praia de Gaza no mês passado,
ou os três membros da família Hajjaj no sábado, entre os quais Rawan, de 6
anos de idade? Recuso-me a acreditar que esta falta de humanidade assente bem
ao povo americano. Apresentamos esta mensagem clara: se Israel não permitir aos palestinianos
viver em paz, com dignidade e integridade nacional, os israelitas também não
poderão gozar desses direitos. Entretanto, o direito de nos defendermos de
soldados ocupantes e da agressão é uma questão de Direito, definida na Quarta
Convenção de Genebra. Se Israel estiver preparado para negociar de forma
séria e justa, e resolver as questões principais de 1948, antes das
secundárias de 1967, é possível uma paz justa e permanente. A partir de uma hudna
(interrupção abrangente de hostilidades por um período de tempo acordado), a
Terra Santa ainda tem uma oportunidade para ser fonte de paz e de economia
estável para todos os povos semitas da região. Se ao menos os americanos
soubessem a verdade, esta possibilidade poderia tornar-se realidade. _______ * Primeiro‑ministro da Autoridade Nacional Palestiniana. |