Informação Alternativa

Médio Oriente

Julho 2005

 

«Instabilidade construtiva»

 

Walid Charara

Le Monde diplomatique

 

O Médio Oriente está em crise. Todos os indicadores económicas, sociais e políticos estão no vermelho, e a “Primavera árabe”, tão celebrada pela comunicação social, tarda em concretizar-se. O regime sério, obrigado a evacuar o seu exército do Líbano, está enfraquecido. A crescente força dos xiitas na região preocupa os dirigentes sunitas, nomeadamente os da Arábia Saudita e da Jordânia. Apesar da retirada israelita de Gaza, prevista para Agosto, a situação nos Territórios Ocupados continua explosiva, estando reunidos todos os ingredientes para uma nova Intifada. Mas, para Washington, há que perseverar na mesma via e estender a toda a região a sua perigosa estratégia.

 

Se quiser ter uma ideia da minha concepção da política externa, leia o livro de Nathan Sharansky. Há-de ajudá­‑lo a compreender muitas decisões que vão ser tomadas ou que já o foram». Na entrevista que concedeu ao Washington Times, o presidente George W. Bush chega mesmo a confessar que o livro de Sharansky é «o ADN da sua presidência» [1]. The Case for Democracy [2], escrito pelo antigo dissidente soviético que imigrou para Israel e foi ministro de Ariel Sharon, apresenta-se como uma defesa da democratização urgente do mundo árabe, enunciada como condição indispensável à assinatura duma paz global no Médio Oriente e à consolidação da segurança do mundo. Para atingir esse objectivo, segundo declarou a secretária de Estado Condoleezza Rice, os Estados Unidos não hesitariam em pôr em causa o statu quo que desde há décadas prevalece no Médio Oriente, «sejam quais forem os riscos a correr».

 

No essencial, esta visão adopta as teses de um certo orientalismo [3] que descreve o mundo árabe como um agregado de minorias religiosas e étnicas incapazes de viver juntas em entidades estatais de carácter nacional. As soluções preconizadas para promover ao mesmo tempo a democratização e os interesses dos Estados Unidos, pressupondo que estes estão indissociavelmente ligados, baseiam-se de forma explícita na instrumentalização do comunitarismo, no quadro duma estratégia designada «instabilidade construtiva». Chamando ao mundo árabe «o homem doente do século XXI», os inspiradores do presidente Bush quase nem dissimulam as esperanças de que ele venha a ter um destino comparável ao desse outro homem doente, do século XIX, que foi o Império Otomano, desmantelado na sequência da Primeira Guerra Mundial.

 

O islamismo, definido, por essência, como movimento terrorista, é denunciado por Sharansky como uma ameaça, não só à existência de Israel mas também ao mundo ocidental na sua totalidade. A erradicação do terrorismo não poderá todavia resultar apenas de uma acção puramente securitária contra essas organizações ou da eliminação das suas fontes de financiamento, sendo imperativo agir sobre as causas profundas do terrorismo, produto exclusivo das políticas dos regimes árabes tirânicos e corruptos, bem como da cultura do ódio que estes difundem. Segundo o antigo dissidente, a estratégia norte-americana no Médio Oriente e a ocupação israelita dos territórios palestinianos em nada contribuem para o “terrorismo”. Mas para ilustrar o papel preponderante dos factores endógenos na génese desse “terrorismo”, o melhor exemplo que Sharansky apresenta é o da Palestina.

 

Segundo ele, a violência armada anti­‑israelita e as operações de camicases foram geradas pela lavagem ao cérebro que a Autoridade Palestiniana terá orquestrado, através dos seus media e nas suas escolas. Esta entidade terá desviado contra Israel o furor da opinião pública palestiniana decorrente da sua própria corrupção e nepotismo. Por outro lado, ao mesmo tempo que afirma a sua convicção na universalidade da aspiração à liberdade e à democracia, Sharansky retoma muitos argumentos avançados pelos que sustentam a tese da incompatibilidade radical entre islão e democracia, tais como a recusa dos muçulmanos de separarem o Estado da religião, o seu culto da violência e da guerra, o estatuto inferior da mulher, etc. De notar que este “combatente da liberdade” demitiu-se das suas funções ministeriais em protesto contra o plano de retirada de Gaza elaborado pejo governo israelita.

 

Uma outra fonte de inspiração é Reuel Marc Gerecht, teórico neoconservador, especialista do Iraque e do xiismo e investigador no American Entreprise Institute, segundo o qual a administração Bush concebeu o seu projecto de um “Grande Médio Oriente” [4] baseando-se em parte nos trabalhos de «historiadores influentes como Bernard Lewis, da Universidade de Princeton, e Fouad Ajami, da Universidade John Hopkins» [5]. Radicalmente pró­‑israelita, Bernard Lewis tornou-se conhecido como um dos primeiros especialistas americanos a decretar, após a Guerra do Koweit em 1991, a morte do mundo árabe como entidade política; na sua análise, Estados árabes tinham combatido um outro Estado árabe (o Iraque) ao lado duma coligação ocidental, e a Organização de Libertação da Palestina (OLP) ficara marginalizada pela sua oposição à guerra [6].

 

DO IRÃO À SÍRIA

 

A expressão “Médio Oriente” foi proposta desde então como alternativa a “mundo árabe”. Fazendo­‑se eco, catorze anos depois, das recomendações de Bernard Lewis, Robert Satloff, director executivo do influente Washington Institute for Near East Policy, aconselha, num artigo em forma de carta­‑aberta dirigida a Karen P. Hughes, subsecretária de Estado para a diplomacia pública, «a banir os termos “mundo árabe” e “mundo muçulmano” do léxico diplomático americano. Defenda na medida do possível uma abordagem específica de cada país, em palavras e actos. Os islamitas radicais querem abolir as fronteiras e criar um mundo supranacional em que as linhas de demarcação separem o âmbito do islão do âmbito da guerra. Não lhes ceda terreno antes mesmo de os ter combatido» [7].

 

Quanto a Fouad Ajami, verdadeira caução árabe dos partidários do Likud e dos neoconservadores de Washington, este é o principal porta-voz da análise comunitarista da realidade sociopolítica árabe. No seu último artigo dedicado às recentes evoluções no Líbano, considera que «o país do Cedro foi sempre, na sua essência, um centro cristão», acrescentando que «muitos libaneses estão convencidos de que a falta de empatia [dos árabes para com o Líbano] resulta do facto de este país ser principalmente cristão, nele havendo ainda, além desta, outras comunidades heterodoxas. Há uma grande parte de verdade neste ataque» [8].

 

A estratégia dos Estados Unidos não é por certo uma tradução mecânica destes pontos de vista, interferindo na sua elaboração muitos outros factores. Mas, segundo confessam Bush e os seus colaboradores, estas concepções dão-lhe uma visão global e linhas directrizes. Robert Satloff chama a esta estratégia «instabilidade construtiva», constatando que «historicamente» a procura da estabilidade foi uma característica da política dos Estados Unidos no Médio Oriente. «Noutras regiões do mundo, os estrategos americanos debatiam a pertinência da estabilidade, mas George W. Bush foi o primeiro presidente a considerar que a estabilidade em si mesma era um obstáculo ao avanço dos interesses americanos no Médio Oriente. (...) Na sua acção, os Estados Unidos recorreram a um leque de medidas coercivas e não coercivas, desde o uso da força militar para mudar os regimes no Afeganistão e no Iraque, passando por uma política de alternadas promessas e ameaças, primeiro para isolar Yasser Arafat e encorajar uma nova e pacífica direcção palestiniana, até aos incitamentos corteses ao Egipto e à Arábia Saudita para que enveredassem pela via das reformas» [9].

 

Ou seja, a via da força é reservada aos adversários dos Estados Unidos e a via suave aos seus aliados. No actual contexto regional, refrear a influência iraniana é uma prioridade dos Estados Unidos com vista a tornar Teerão mais vulnerável às pressões internacionais que visam levá-lo a abandonar o seu projecto nuclear ou, pelo menos, a limitar a sua capacidade de resposta em caso de ataque às suas instalações. Este refreamento pressupõe forçar a Síria, último Estado aliado do Irão no Médio Oriente, a romper esta aliança e a desarmar o Hezbollah. Perante a recusa síria, motivada sobretudo pela ausência duma contrapartida consequente como o reatamento das negociações israelo­‑egípcias sobre os Golãs –, Wasbington, a que se juntou Paris, obterá em Setembro de 2005 no Conselho de Segurança das Nações Unidas a aprovação da Resolução 1559 exigindo a retirada das tropas sírias do Líbano, o desarmamento das milícias libanesas e não libanesas (Hezbollah e organizações palestinianas) e a mobilização do exército libanês no Sul do país [10].

 

A votação desta resolução foi vista por muitas forças políticas e comunitárias no Líbano como o anúncio, pela “comunidade internacional”, do fim do mandato sírio sobre o Líbano, aceite quinze anos antes. Para a oposição libanesa foi um encorajamento com vista a mobilizar-se contra a presença das tropas de Damasco no seu país. O assassinato do ex-primeiro ministro Rafic Hariri, a 14 de Fevereiro de 2005, actualmente objecto duma investigação internacional, foi o ponto de partida de manifestações maciças, com o comunitarismo em pano de fundo, contra o poder libanês e pela retirada das tropas sírias, a que se juntou uma intensificação das pressões internacionais exercidas sobre os dois países. Autêntica “revolução laranja”, aparentada às “revoluções democráticas” que ocorreram na Sérvia, na Geórgia e na Ucrânia, esta mobilização conseguiu, graças aos apoios americano e francês, atingir o seu principal objectivo: a retirada síria do Líbano.

 

Tais revoluções ilustram um novo modo de ingerência internacional, a que Gilles Dorronsoro chama «estratégia de desestabilização democrática» [11] consistindo esta em «apoiar-se em sectores da sociedade civil que reclamam a mudança, em apoiar a sua acção mobilizando a seu favor os media locais e internacionais, em inventar um herói federador da contestação e em reforçar a pressão internacional sobre os poderes contestados. No Líbano, todavia, a aplicação desta estratégia agravou o comunitarismo, pondo as componentes do país umas contra as outras».

 

Nos outros países da região que são alvo de «instabilidade construtiva», a instrumentalização do comunitarismo está na ordem do dia. Na Síria, os Estados Unidos terão decidido encorajar uma mudança de regime, porque, como sublinha Satloff, «eles não têm interesse em que sobreviva o regime de Assad, regime minoritário cujos frágeis fundamentos são o medo e a intimidação. Os estalidos no edifício do regime podem transformar­‑se rapidamente em fissuras e a seguir em tremores de terra» [12]. O autor afirma depois que os Estados Unidos deveriam concentrar-se em três prioridades:

 

– Coligir o máximo de informações sobre as dinâmicas políticas, sociais, económicas e «étnicas» (o adjectivo é de Satloff) que se manifestam no interior da Síria.

 

– Levar a cabo uma campanha sobre temas como a democracia, os direitos humanos e o Estado de direito.

 

– Não dar ao regime sírio nenhuma saída, a não ser que o presidente Bachar El­‑Assad esteja pronto a deslocar­‑se a Israel no contexto duma iniciativa de paz ou se ele expulsar do território sírio todas as organizações anti­‑israelitas e renunciar publicamente à violência, «luta armada ou resistência nacional, na gíria local».

 

No Iraque, a reconstrução do sistema político – com base na representação comunitária e étnica sob supervisão americana – avivou as tensões entre as diversas componentes da sociedade. A organização de eleições legislativas, apesar do boicote maciço dos “árabes sunitas”, não exprimiu simplesmente a solicitude americana de dotar o país com um governo relativamente representativo, correspondeu também a uma estratégia comunitária, explicitada por Reuel Marc Gerecht num artigo publicado antes das eleições: «Alaui [então primeiro­‑ministro iraquiano] e os americanos têm de mostrar claramente que os xiitas estão a chegar e que a elite árabe sunita tem no máximo um ano para aderir ao novo Iraque. Na mesma altura, ele e os americanos deveriam afirmar abertamente e de forma regular que o novo exército iraquiano será na sua maioria composto por xiitas e curdos porque os sunitas árabes não lhes deixaram outra opção... Os sunitas árabes têm de saber, e têm de o sentir na pele, que estão em vias de perder tudo no Iraque» [13].

 

Uma maioria de sunitas árabes acabou por compreender essa situação, o que explica a radicalização da resistência anti­‑americana por um lado, e, por outro, a multiplicação das violências entre sunitas e xiitas, pressagiando uma sangrenta guerra civil. Os Estados Unidos, por tanto quererem jogar a cartada do comunitarismo para enfraquecer os Estados e as forças opostas à sua hegemonia, ao imporem-se como instigadores e árbitros de verdadeiras guerras civis de baixa intensidade, acabam por suscitar dinâmicas centrífugas que dificilmente poderão controlar.

 

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* Jornalista. Autor, com Frédéric Domont, de Hezbollah, un parti islamo-nationaliste, Fayard, Paris, 2004.

 

[1] Cf. The Independent, Londres, 6 de Fevereiro de 2005.

[2] Nathan Sharansky, The Case for Democracy. The Power of freedom to Overcome Tyranny & Terror, Public Affairs, Nova Iorque, 2004.

[3] Ler Edward W. Said, L’Orientalisme, Seuil, Paris, 1994. (Em edição portuguesa: Orientalismo, Cotovia, Lisboa, 2004.)

[4] Ler Gilbert Achcar, Le nouveau masque de la politique américaine au Proche-Orient, Le Monde diplomatique, Abril de 2004.

[5] Reuel Marc Gerecht, The Struggle for the Middle East, The Weekly Standard, Washington, 3 de Janeiro de 2005.

[6] Bernard Lewis, Rethinking the Middle East, Foreign Affairs, Nova lorque, Outono de 1992.

[7] Robert Satloff, Memo to Karen P. Hughes, Washington Institute for Near East Policy, 28 de Março de 2005.

[8] Fouad Ajami, The Autumn of the Autocrats, Foreign Affairs, Nova Iorque, Maio-Junho de 2005.

[9] Robert Satloff, Assessing the Bush Administration’s Policy of Constructive Instability, Washington Institute for Near East Policy, 15 de Março de 2005.

[10] Ler Alain Gresh, Les vieux parrains du nouveau Liban, Le Monde diplomatique, Junho de 2005.

[11] Libération, 10 de Março de 2005.

[12] Robert Satloff, op. cit.

[13] Ruel Marc Gerecht, op. cit.

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