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03/01/2006 A Palestina abandonada Alain Gresh Subtilmente,
imperceptivelmente, ao longo dos últimos anos vários dirigentes mas também
órgãos de comunicação social europeus alteraram a forma de abordar o drama da
Palestina e a solução do conflito israelo‑palestiniano. Durante aquilo
que foi chamado o “processo de Oslo”, era claro que a solução passaria por
uma negociação de conjunto fundada numa retirada das tropas israelitas dos
Territórios Ocupados em 1967, inclusive da parte oriental de Jerusalém, no
estabelecimento de fronteiras duradouras entre o Estado palestiniano e
Israel, e numa solução aceitável para os refugiados palestinianos. As
negociações de Camp David (Julho de 2000), tal como as de Taba (Janeiro de
2001) incidiam sobre estes contenciosos. Os últimos anos foram
pontuados pela deflagração da Segunda Intifada, no fim de Setembro de 2000,
pela sangrenta repressão posta em prática pelo exército israelita desde os
primeiros dias – meses antes dos primeiros atentados suicidas –, pela
escalada de violência, pela eleição de Ariel Sharon como primeiro‑ministro,
pela multiplicação dos atentados contra civis israelitas, e depois pela
retomada do controlo total dos Territórios Ocupados pelo exército israelita. No
entanto, do ponto de vista do direito internacional, e seja qual for a
apreciação que se possa ter sobre a estratégia e a táctica da Autoridade
Palestiniana, os problemas de base permanecem: a Cisjordânia, Gaza e
Jerusalém Oriental continuam a ser territórios ocupados, Israel continua a
ser uma potência ocupante, e a criação de um Estado palestiniano independente
continua a ser a chave para a paz. CRIMES DE GUERRA ESCONDIDOS Contudo, se se ler as
declarações dos dirigentes europeus e se seguir a actualidade repercutida na
comunicação social, constata-se uma inflexão de perspectiva: é doravante aos
palestinianos, ou seja aos ocupados, que cabe provar a sua boa vontade. As
referências da União Europeia às obrigações de um e de outro campo escondem
mal a ligação à visão do primeiro-ministro israelita, quando afirmam que
qualquer avanço no caminho para a paz depende da Autoridade Palestiniana, que
é esta que deve reformar‑se, liquidar os grupos armados e dar provas
da sua vontade de coexistir com Israel. Esta ligação é também muito
perceptível na comunicação social, que tende a apagar a realidade da política
israelita no terreno, a subestimar o seu carácter repressivo e contrário ao
direito internacional e a ocultar os crimes de guerra cometidos. Em França,
as violentas campanhas levadas acabo contra certos jornalistas e
intelectuais, de Daniel Mermet a Edgar Morin, passando por Jean Ferrat,
contribuíram para paralisar uma parte dos jornalistas: quem desejaria ser
qualificado, mesmo erradamente, como anti-semita? Um caso exemplar é fornecido
pelo editorial do Libération de 2 de Janeiro de 2006, que lamenta a
situação prevalecente na Palestina. Mas de quem é a culpa? «Há um ano»,
escreve Patrick Sabatier, «a eleição de Mahmud Abbas para o lugar de Arafat
fora um motivo de esperança. Uma janela de oportunidade tinha sido aberta, e
através dela podia passar um vento de democratização e de reformas nos
territórios palestinianos [sic!, sobretudo não se utilize a palavra
ocupação], bem como um vento de desmilitarização da política palestiniana
tendo em vista retomar as negociações com Israel. Esta janela está hoje
prestes a ser violentamente fechada na cara dos partidários da paz». A
responsabilidade do governo de Sharon praticamente não é evocada... A evacuação da Faixa de Gaza
durante o Verão de 2005 representou, deste ponto de vista, um outro exemplo
edificante. Durante semanas, a comunicação social internacional incidiu os
projectores sobre alguns milhares de colonos evacuados, detendo-se
extensamente sobre o seu sofrimento e sobre as lágrimas dos soldados
encarregados de os evacuar. Poucos jornalistas recordaram que a “colonização”
representa, segundo as normas do Tribunal Penal Internacional, um crime de
guerra. Que muitos destes Colonos são fanáticos prontos a disparar sobre os
civis palestinianos. Que dezenas de milhares de palestinianos de Gaza foram
deslocados durante as ultimas décadas sem que tal comovesse minimamente o
Ocidente. Pior ainda, a evacuação de
Gaza foi apresentada como um “gesto” significativo de Ariel Sharon. Tal gesto
permitiu‑lhe reforçar o crédito de que dispunha nos Estados Unidos e
na Europa, abrindo‑lhe as portas a uma visita oficial, com grande
pompa, em França. No entanto, como recordam as Nações Unidas, Gaza continua a
ser um território ocupado, onde as tropas israelitas fazem numerosas incursões
– o governo israelita acaba até de decidir instalar uma “zona de segurança”
no território palestiniano, evacuando uma parte da população. A ameaça de
cortar a electricidade em toda a Faixa de Gaza constitui também uma punição
colectiva, contrária às Convenções de Genebra. A organização norte-americana
Human Rights Watch assinalava, num comunicado de 23 de Dezembro de 2005, que
uma tal medida representaria uma violação das leis da guerra, tal como o era
o facto de Telavive ter proibido, entre 24 de Setembro e 12 de Novembro de
2005, a entrada no seu território aos 5000 trabalhadores palestinianos,
proibição essa que veio juntar-se aos padecimentos de uma população em que 68
por cento dos habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza [1]. A COLONIZAÇÃO PROSSEGUE Mustapha Barghuti, candidato
que se opôs a Mahmud Abbas e obteve cerca de 20 por cento dos votos na
eleição para a presidência da Autoridade Palestiniana, em Janeiro de 2005,
publicou recentemente um artigo intitulado “A verdade de que vocês não ouvem
falar” [2]. Nele faz o balanço da situação no terreno, na Cisjordânia e em
Gaza, um balanço bem distante da versão israelita que «apresenta uma imagem
absolutamente contrária à realidades, e bem distante também da imagem que
transmite a maioria da comunicação social ocidental. Assim, a colonização está a
avançar rapidamente. «A população total dos colonos (...) é agora de 436.000,
dos quais 190.000 em Jerusalém e 246.000 na Cisjordânia. Apenas 8.475 colonos
ilegais – ou seja 2 por cento deste total – evacuaram Gaza e a região de
Jenine. Durante o mesmo período, a população dos colonatos da Cisjordânia
aumentou maciçamente, tendo agora mais 15.800 colonos». Barghuti refere também a vida
quotidiana imposta pelo muro de separação, que cerca completamente cidades
como Qalqiya, e que tem uma única porta cuja chave está nas mãos dos soldados
israelitas. «É necessário uma autorização para atravessar o muro, sendo quase
impossível obtê-la. Mesmo quando se consegue, é preciso lidar com os horários
especiais de abertura. Na região de Jayus, o muro pode ser atravessado entre
as 07h40 e as 08h00 da manhã, entre as 14h00 e as 14h15, e entre as 18h45 e
as 19h00: tudo somado, 50 minutos por dia. Por vezes o exército esquece-se de
abrir as portas e os alunos, os professores, os agricultores, os doentes e as
pessoas comuns têm que esperar indefinidamente». As consequências da construção do muro de separação na cidade de Jerusalém são confirmadas por um relatório recente dos chefes de missão da União Europeia em Jerusalém Oriental [3]. Entre outros aspectos, este texto realça alguns eixos da política israelita na cidade santa: – a conclusão quase total da barreira em redor de Jerusalém Oriental, longe da Linha Verde (linha de cessar‑fogo de 1967); – a construção e a expansão dos colonatos ilegais, por entidades privadas e pelo governo israelita, no interior e em volta de Jerusalém Oriental; – a demolição das casas palestinianas construídas sem autorização (que é quase impossível obter); – o plano de expansão do
colonato de Maaleh Adumim, que ameaça concluir o cerco da cidade pelos
colonatos judaicos e dividir a Cisjordânia em dois sectores geográficos. Os cônsules europeus em Jerusalém
sublinham que «as acções de Israel em Jerusalém constituem uma violação dos
compromissos assumidos com o Roteiro para a Paz e do direito internacional». Qual
o resultado de tais constatações? A União Europeia decidiu, corajosamente,
não publicar este relatório... A AUTORIDADE NÃO É UM ESTADO Amira Hass, a correspondente
permanente do diário Haaretz nos territórios ocupados, conhecida pelas suas
corajosas reportagens, comentava assim a vitória do Hamas nas eleições
municipais de Dezembro de 2005 na Cisjordânia: «A vitória do Hamas nas
eleições locais floriu em terreno fértil. As pessoas estão fartas das
mentiras que acompanharam as suas vidas durante os treze últimos anos [desde
a assinatura dos Acordos de Oslo], a saber, que Oslo significa a paz, que a
criação de uma Autoridade Palestiniana é uma vitória e um símbolo que abolirá
todos os seus fracassos, que a Autoridade é um Estado» [4]. A jornalista nem por isso
reabilita o Hamas, cuja propaganda se apoia, a seu ver, em três mentiras: o
movimento islamita afirma que a Faixa de Gaza foi «libertada», ao passo que
isso resulta de uma decisão unilateral israelita; que esta evacuação resulta
da «luta armada», ao passo que «os atentados suicidas apenas reforçaram o
apoio da opinião pública israelita a todas as formas de tomada de controlo da
Cisjordânia»; que as eleições legislativas de Janeiro de 2006, nas quais o
Hamas decidiu participar, são fundamentalmente diferentes das de 1996, ao
passo que se desenrolam no mesmo quadro, o que foi fixado pelos Acordos de
Oslo. Os apelos à democratização da
Autoridade Palestiniana parecem igualmente vazios de sentido. Durante a
eleição presidencial de Janeiro de 2005, era claro que a União Europeia
apenas queria um vencedor, Mahmud Abbas. As inúmeras pressões exercidas pela
Fatah sobre a comissão eleitoral não foram, por isso, denunciadas pelos
observadores internacionais nem difundidas pela comunicação social [5]. Javier
Solana, alto representante da União Europeia para a Política Externa e de
Segurança Comum (PESC) ameaça agora retirar à Autoridade Palestiniana o apoio
de Bruxelas em caso de vitória do Hamas no escrutínio de Janeiro de 2006. Em
suma, a Europa dos Vinte e Cinco aceita as eleições, desde que sejam eleitos
os seus candidatos preferidos... Como poderemos
surpreender-nos, assim sendo, com o facto de a União Europeia estar a
reforçar as relações com Israel, que esteja mais pronta a pressionar a
Autoridade do que a aplicar as sanções previstas pelos Acordos de Associação
Euro‑Mediterrâneos em caso de violação dos direitos humanos, violações
que são diárias nos Territórios Ocupados, ou a receber os dirigentes
israelitas para os “encorajar” a prosseguirem na mesmo sentido, não obstante
esse caminho conduzir directamente à anexação de uma grande parte da
Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. A França, há que lamentá-lo, renunciou à
sua actividade autónoma e visível a favor dos direitos dos palestinianos:
recebeu o primeiro‑ministro Ariel Sharon e retomou a cooperação militar
e até securitária com Israel [6]; muitos dos seus ministros, entre os quais
Nicolas Sarkozy, multiplicam as visitas a Israel; e são francesas as duas
empresas que estão a construir uma linha de eléctricos ligando o centro de
Jerusalém a dois colonatos judaicos situados a leste da cidade, assim
contribuindo para a política israelita de ocupação. Esta estratégia, que se
inscreve numa aproximação mais ampla com os Estados Unidos no Médio Oriente,
no Iraque e no Afeganistão, vai de encontro a décadas de política francesa
sobre o conflito israelo‑palestiniano. O “processo de paz” aberto
pelos Acordos de Oslo está morto e enterrado. Pode pensar-se que ele teria
podido representar uma via para a resolução do conflito, que não se
aproveitaram as oportunidades. Seja como for, já não é possível voltar atrás.
Será possível ter esperança na aplicação do Roteiro para a Paz depois das
eleições de Março? Não, porque a equação permanece a mesma: os palestinianos
continuam a viver sob ocupação, a sua vida quotidiana é insuportável, as suas
aspirações de independência são ultrajadas. É ilusório pensar que se poderá
assistir, num período próximo, a uma mudança de orientação do governo
israelita sem pressões internacionais sustentadas no sentido de obrigar à
aplicação do direito internacional, apenas o direito internacional, todo o
direito internacional. A resistência dos palestinianos e a mobilização da
fracção pacifista da opinião pública israelita devem ser apoiadas por sanções
internacionais. Tal como pede Mustapha
Barghuti, ao afirmar: «Uma forma de corrigir a situação é fazer o que foi feito
na África do Sul: aplicar sanções. Um elemento‑chave é romper as
relações militares com Israel, o quarto exportador mundial de armas. Precisamos
de um movimento de não‑cooperação militar que se concentre em desinvestir
neste domínio e que ligue as relações económicas com Israel à aplicação do
direito internacional e à aplicação das resoluções internacionais».
Desenvolveu-se no mundo anglo-saxónico um poderoso movimento neste sentido. O
Acordo de Associação entre a União Europeia e Israel oferece a Bruxelas imensas
possibilidades, pois prevê explicitamente a possibilidade da sua suspensão em
caso de violação do artigo 2, que afirma: «As relações entre as partes, bem
como todas as disposições do presente acordo, fundam‑se no respeito
dos direitos humanos e nos princípios democráticos, que guiam a sua política
interna e internacional, e constitui um elemento essencial deste acordo». Foi
por este motivo que, a 10 de Abril de 2002, em plena Operação “Muralha” na
Cisjordânia, o Parlamento Europeu solicitou, por larga maioria, à Comissão e
ao Conselho «a suspensão do Acordo de Associação Euro‑Mediterrâneo
UE-Israel». Em vão... Não será tempo de regressar a esta medida que permitirá
à União Europeia tornar os seus actos coerentes com as suas palavras,
apoiando a aplicação do direito internacional e desempenhando um papel activo
no Médio Oriente? _______ [1] http://hrw.org/english/docs/2005/12/22/isrlpa12345.htm. [2] The truth you don’t hear,
Al-Ahram Weekly, Cairo, 1-7 de Dezembro de 2005. [3] http://www.france-palestine.org/article2868.html. [4] Haaretz.com, 21 de
Dezembro de 2005. [5] Ler a excelente análise de Roger Heacock, “Les
élections palestiniennes”, Confluences
Méditerranée, n.º 55, Outono de 2005, L’Harmattan. [6] Em Dezembro de 2005, o ministro israelita da Segurança Pública, Gideon Ezra, e o chefe da polícia israelita Moshe Karadi, fizeram uma estadia de quatro dias em Paris a convite de Sarkozy, a fim de – segundo o Haaretz – aconselhar os polícias franceses sobre os métodos de gestão de motins do tipo dos que se registaram nos subúrbios franceses... |