|
Informação Alternativa |
|
Médio
Oriente |
|
Janeiro 2006 Um poder palestiniano acossado Hussein Agha
e Robert Malley * Na última volta das
eleições municipais, em Dezembro de 2005, o Hamas ganhou à Fatah nas
principais cidades da Cisjordânia. Esta vitória da organização islamista
reflecte as incertezas da estratégia de Mahmoud Abbas, baseada num acordo de
paz definitivo recusado obstinadamente por Ariel Sharon. As dúvidas instalam‑se
até no seu próprio campo. De Mahmud Abbas (Abu Mazen), a história registará talvez que foi a melhor escolha no pior momento. Homem de negociação em tempo de unilateralismo, homem de envergadura nacional quando rui a seus pés o movimento nacional, homem de dimensão internacional quando o interesse mundial em relação à Palestina diminui a olhos vistos, homem de palavra numa época em que só os actos contam, inveterado crente numa paz final quando em seu redor o horizonte se reduz ao provisório. Não parece haver saída para Mahmud Abbas. Talvez o seu momento tenha passado, talvez esteja a chegar. Mas o período actual representa para ele um verdadeiro pesadelo [1]. O primeiro-ministro Ariel Sharon, em contrapartida, parecia reinar como rei e senhor. Com o seu novo partido, o Kadima, fez mais do que ocupar o centro do tabuleiro político – engoliu-o. Em sintonia com o seu povo, cuja vontade profunda exprime, mas também com a “comunidade internacional”, cujas reacções foi ditando. Tudo gravitava em seu redor. Apresentava-se contrastado o balanço dos dois movimentos nacionais, palestiniano e israelita: caos, fragmentação e paralisia de um lado; coerência, coesão e dinamismo do outro. Abbas sonhava, evidentemente, com um cenário totalmente diferente. Contava com o esgotamento palestiniano e o cansaço israelita, depois de quatro anos de selvagens confrontos, bem como com a vontade internacional de acabar com este interminável conflito. Da lassidão palestiniana resultaria uma aspiração à calma; desta calma, um relaxamento das restrições israelitas; e, de tudo isto, uma pressão popular sobre o Hamas e os outros grupos armados que os obrigaria a respeitar uma trégua. Obrigado a voltar-se para uma estratégia eleitoral, o Hamas forçaria ao mesmo tempo a Fatah a disciplinar-se e a Autoridade Palestiniana a reformar-se de modo a enfrentar a ameaça que o movimento islamita não deixaria de colocar à sua hegemonia política. Com o fim da violência e o início das reformas institucionais – condições postas pela administração americana para se empenhar no processo –, Washington não teria outra opção que não a de relançar a diplomacia e incitar Israel a fazer mais concessões. Fruto deste círculo virtuoso, a melhoria das condições de vida dos palestinianos nos Territórios Ocupados estabilizaria o cessar-fogo, encorajaria os Estados Unidos a um maior activismo e forçaria Israel a mostrar mais generosidade, o que deveria conduzir, a prazo, ao regresso às negociações tendo em vista um acordo final de paz. Por breves instantes, estas projecções pareciam poder ver a luz do dia. Eleito em Janeiro de 2005 líder da Autoridade Palestiniana, Abbas gozava de um impressionante capital político. Na cena internacional, incluindo em Israel, muitos eram os que estavam dispostos a oferecer-lhe, pelo menos, o benefício da dúvida. Entre os palestinianos, nenhum adversário sério lhe fazia sombra. Muitos desejavam o seu fracasso, mas poucos se arriscavam a contribuir para que tal acontecesse. Os seus rivais na direcção da Fatah viam-se forçados à contemporizarão, obrigados a cerrar fileiras com o homem cuja desgraça secretamente desejavam. O próprio Hamas encontrava razões para um reajustamento. Numa altura em que o movimento era convulsionado pelo assassinato de muitos dos seus dirigentes e em que se encontrava esgotado pela Segunda Intifada, Abbas ofereceu-lhe uma pausa e, com a promessa de eleições legislativas rápidas, uma inserção possível na arena política. Mais ainda, o Hamas viu em Abbas um homem digno de confiança, distinguindo‑se das figuras da Autoridade Palestiniana que o rodeavam. O facto de o cenário desejado não se ter realizado merece uma e explicação. Americanos, israelitas e até muitos palestinianos não hesitam em imputar a principal responsabilidade a Abbas, a seu ver culpado de indecisão e de laxismo. Entendem que o presidente palestiniano deveria ter imposto imediatamente a sua vontade, restabelecido a ordem e sancionado os que a isso se opunham. Pensam também que deveria ter disciplinado os grupos armados – sobretudo os que emanam da Brigada dos Mártires de Al‑Aqsa, filiados na Fatah – logo nos primeiros meses. Pela sua conduta, Abbas teria perdido um tempo precioso, para além de ter desperdiçado uma oportunidade única, pois no futuro as suas ordens, que antes teriam sido respeitadas, não mais o serão. Há alguma verdade nesta análise, mas escapa-lhe o essencial, que se prende com a natureza da sociedade e do campo político palestinianos. Esta sociedade tradicional dispersa e sob ocupação, respondendo essencialmente a modos de funcionamento flexíveis e maleáveis, e a formas de autoridade difusas e desinstitucionalizadas, resistente às cadeias de comando hierárquico, não estava pura e simplesmente adaptada à clareza e lógica do seu novo dirigente, porque pouco inclinada a compreender o fundamento das suas ordens ou a submeter-se‑lhes. No fundo, não se tratou de uma falta de firmeza ou de resolução, mas de inadequação entre, por um lado, um símbolo racional e ordenado e, por outro, estruturas políticas e sociais indisciplinadas. Por outro lado, os cálculos de Abbas assentavam em mal-entendidos e incompreensões que não poderiam ter sido remediados por qualquer dose de autoritarismo. Ele tinha um objectivo político – um acordo final de paz –, Sharon tinha um outro – um acordo provisório de longo prazo – e o presidente americano George W. Bush, aparentemente, não tinha nenhum. O presidente palestiniano apostava além disso na opinião pública palestiniana para conter o Hamas e os outros grupos militantes, no Hamas para conter a Fatah e a Autoridade Palestiniana, nos compromissos americanos para forçar o presidente Bush, e em tudo somado para forçar Israel. Em resumo, conduzia uma política apoiada exactamente nos que se lhe opunham e dependia sobretudo da vontade independente dos outros. A outra divergência que entrava qualquer progresso diplomático diz respeito ao Hamas. Para Mahmud Abbas, nunca será de equacionar um confronto militar enquanto perdurar a ocupação israelita. Atacar o Hamas corresponde a correr o risco de uma cisão profunda no movimento nacional e na sociedade, ou até de uma guerra civil, e ainda por cima em troca de promessas contidas num Roteiro para a Paz [2] de que todos os palestinianos duvidam e de garantidas proferidas por um presidente americano em que nenhum palestiniano acredita. Abbas tem antes como objectivo cooptar o movimento islamita, considerando que a sua integrarão no jogo político o incitaria a respeitar as leis votadas pela instituição parlamentar de que faria parte. Progressivamente, forçado pela opinião pública e armadilhado pelas suas próprias escolhas, o Hamas não teria outra opção que não a de substituir uma lógica política à sua lógica militar. Enquanto isso, o mundo deverá contentar-se com esta formação híbrida, mistura de partido político, de instituição caritativa, de instrumento de pregação e, claro, de organização armada. DERROTADOS E VENCEDORES NOS DOIS CAMPOS Bush e Sharon sempre entenderam, pelo contrário, que o confronto entre a Autoridade Palestiniana e o Hamas seria inevitável, e quanto mais cedo melhor. Acreditar na evolução dócil do movimento islamita seria dar mostras de ingenuidade; o exemplo do vizinho Hezbollah, que continua a manter a sua autonomia militar, inclusive depois da retirada israelita do Sul do Líbano e de participar no governo libanês, ressoa aliás como uma advertência. De tudo isto resulta que, quando Abbas afirma que tratará do problema Hamas, ele quer dizer uma coisa, o presidente Bush entende uma outra, e o processo diplomático fica paralisado. As consequências políticas destes mal-entendidos são graves. Os que firmemente apoiam Abbas sentem‑se muitas vezes desorientados e são cada vez menos. Entre os que rodeiam o presidente palestiniano, alguns têm peso político, outros são-lhe fiéis, mas raros são os que combinam as suas características. Incapaz de jogar o jogo político à maneira de Yasser Arafat, Abbas não conseguiu nem quis cortejar os quadros ou militantes da Fatah com os quais teria podido contar. Instala-se a desilusão, tal como a dúvida. Aos poucos, os rivais do presidente levantam a cabeça, sentem-se mais seguros, falam com um tom mais livre. Os chefes dos diversos serviços de segurança já não hesitam em criticá-lo em privado, certos de que as suas palavras serão tornadas públicas, e procuram abertamente distanciar-se da anarquia reinante. Por agora, estes opositores observam‑se mutuamente, acreditando cada qual nas suas possibilidades. Nenhum está em posição de neutralizar os rivais, e todos recusam coroar um sucessor. É por isso que nada farão para acelerar a queda do presidente, assim como nada farão para o ajudar a ter êxito. Abundam contudo os rumores sobre os possíveis cenários no período que se seguirá às eleições legislativas previstas para 25 de Janeiro. Evoca‑se a constituição de um governo de coligação formado por tecnocratas e responsáveis de serviços de segurança, com o apoio de Washington, o qual serviria para neutralizar o presidente. Com efeito, é pouco provável que o escrutínio legislativo venha reverter a situação ou clarificá‑la, dando origem a uma liderança coerente. Mesmo supondo que os candidatos da Fatah se imponham, a vitória será apenas parcial. O partido está demasiado fragmentado para falar a uma só voz, e Abbas é demasiado contestado para que essa voz possa ser a sua. As primárias que acabam de ter lugar, manchadas por fraudes, intimidações e violência, ilustram perfeitamente este estado de coisas. Não e que os “jovens” não tenham vencidos os “velhos”, a base vencido os caciques do Comité Central ou os reformistas vencido os conservadores. Vencedores e perdedores pertencem a todas as gerações, formações institucionais e tendências políticas. A única lição que é possível tirar é que os combatentes e antigos prisioneiros dos cárceres israelitas tiveram os votos favoráveis do eleitorado, mas mesmo nesse caso foram os laços familiares, as relações clânicas e os grupos armados que dominaram. Tendo em conta as fracturas no interior da Fatah e a ausência de um projecto político coerente, as primárias e a lista de candidatos mantidos por Abbas e o Comité Central terão contribuído para agravar as tensões, mais do que para as suavizar. Nestas condições, não é surpreendente assistir à multiplicação de listas independentes ou rebeldes, misturando antigos membros da Fatah e outros que não lhe pertencem, cuja esperança reside essencialmente na crescente desafeição de que o movimento nacionalista é objecto e na persistente apreensão em relação ao Hamas. Não é também minimamente surpreendente assistir à confusão generalizada que nesta matéria reina na Fatah. A cotação do presidente palestiniano não é também muito alta do lado do Hamas. O adiamento das eleições que deveriam ter ocorrido em Julho de 2005, o desrespeito por outros compromissos, a anulação das autárquicas vencidas pelos islamitas em Gaza, e as declarações israelitas visando entravar a sua participação nas legislativas de Janeiro vieram ensombrar a situação. O Hamas mantém a intenção de se apresentar às eleições, tendo formado uma lista que inclui um impressionante número de elementos da sociedade civil, cuja ligação ao movimento é para muitos desconhecida. Mas foi lançada a dúvida, e Abbas e a Autoridade Palestiniana deixaram de gozar da confiança do Hamas, o que tornará a transição para a participação política sem dúvida mais hesitante e timorata. Além disso, o tempo permitiu ao Hamas recuperar a saúde, como foi possível constatar nas eleições municipais de Dezembro de 2005, em que se assistiu a uma vitória do movimento islamita sobre a Fatah nas principais cidades da Cisjordânia. A palavra de ordem apregoada por Abbas – “Uma só autoridade, uma só lei, uma só espingarda” – sofre agora a concorrência de uma outra: “Sob a ocupação, nenhuma lei acima da resistência”. Permanece neste quadro sombrio a esperança de que Abbas consiga convencer israelitas e americanos a darem‑lhe os meios necessários para realizar a sua política, e que consistem na melhoria das condições de vida dos palestinianos. A retirada de Gaza não conta minimamente, pois foi conseguida antes da eleição de Abbas e foi unilateralmente imposta. Será necessário muito mais, nomeadamente através de negociações bilaterais. Mas também aí a dúvida persiste. Um dos aspectos mais surpreendentes deste período terá com efeito sido a incapacidade quase total dos palestinianos de obtenção de uma ajuda concreta dos Estados Unidos. Dir‑se‑ia não haver qualquer dúvida quanto ao facto de Bush precisar de Abbas e de melhorar as relações americano‑palestinianas. O mesmo se diria a respeito da imagem de Washington nesta região crucial onde a guerra no Iraque prejudicou significativamente a credibilidade da Casa Branca. Ou sobre a estabilidade regional, ameaçada por todos os lados. No entanto, os palestinianos não souberam o que fazer com tão importante trunfo. Pelo contrário, terão oferecido ao presidente americano a melhoria superficial e momentânea com que este contava, em troca de simples e espantadas lisonjas («Abbas é um homem de paz») que o presidente palestiniano bem teria dispensado. Entretanto, o lado israelita foi tomando a iniciativa. Sharon conseguiu ter iniciativa em quase todos os domínios, tendo conseguido tornar-se internamente incontornável, como um íman em torno do qual girava toda a classe política, qual ponto de convergência de sensibilidades a que tudo se comparava. A retirada de Gaza e a política que a acompanhou concretizaram sentimentos até então difusos: uma sede de infligir uma lição aos palestinianos por vias fortes, a par do desejo latente de separação dos mesmos; e uma desconfiança absoluta em relação aos dirigentes palestinianos, combinada com uma vontade de não mais ser refém desta suspeição. Optando por uma retirada unilateral de Gaza e prosseguindo operações militares agressivas, Sharon terá mobilizado em seu redor o essencial da opinião pública do seu país. Assim, diminuiu o desfasamento, muitas vezes constatado, entre uma opinião pública que dizia querer um acordo de paz e dirigentes que pareciam resistir‑lhe. Os dirigentes trabalhistas terão durante muito tempo declarado desejar desmantelar colonatos de povoamento, mas só Sharon o terá feito. Paradoxalmente, este dirigente incarna um processo de “arafatização” do mundo político israelita. Trata‑se de uma dupla vitória sobre o seu jurado inimigo, uma vez que, já depois da morte do líder palestiniano, o primeiro‑ministro israelita reproduziu o modo de funcionamento de Arafat, assente numa identificação de um homem e de uma nação, numa personificação do sentimento colectivo, numa transcendência em relação aos partidos políticos, e numa tradução nos actos de um consenso nacional tácito. Tal como outrora Arafat, Sharon tornou‑se o centro político do seu país, não através de um programa claro – ninguém sabe precisamente para onde se dirigia –, mas pela força de uma personalidade na qual todos podiam reconhecer-se. Fez inimigos, sem dúvida, mas conseguiu ocupar a cena política de forma disseminada, obrigando cada um a definir-se em relação a si e asfixiando no mesmo passo os adversários. Também a esse nível podia ser comparado a Arafat, que conseguia dissimular as contradições e rivalidades no interior da Fatah e conter o Hamas. Na Palestina, o centro foi‑se dispersando; em Israel foi-se consolidando. Sharon conseguiu também retomar a iniciativa no plano regional e internacional. Com ele, unilateralismo é sinónimo de movimento, e bilateralismo de statu quo. Quem poderá ainda pôr em dúvida que se a retirada de Gaza tivesse sido negociada, israelitas palestinianos estariam ainda a discuti‑la, reclamando uns o desarmamento do Hamas e outros gestos significativos na Cisjordânia? Nestas condições, o mundo aplaudiu a iniciativa unilateral, as críticas calaram-se e todos pareceram prontos a juntar‑se ao general. Com a retirada, a construção do muro de separação [3], a consolidação dos colonatos de povoamento nos grandes blocos da Cisjordânia e o controlo de Jerusalém Oriental, Israel encetou a etapa de definição das suas fronteiras, reforçando o controlo dos territórios considerados vitais e desembaraçando-se dos que avalia como supérfluos. A Autoridade Palestiniana, por seu lado, vê-se obrigada a gerir Gaza, um pequeno pedaço de terra superpovoada, sem recursos, cercada, desprovida de instituições e atormentada pelo caos. A reconfiguração do espaço internacional vai ainda mais longe, comportando surpreendentes viragens. No passado os palestinianos reclamaram insistentemente o estabelecimento de um Estado. Ora, actualmente, Israel e os Estados Unidos falam disso de uma forma que inquieta os palestinianos. É que uma questão de direito foi substituída por uma questão de mérito, segundo a qual o Estado palestiniano tarda em surgir, mas não devido à ocupação israelita: isso acontece tão-só, defendem, devido à incompetência palestiniana. Para terem o seu Estado, os palestinianos têm que se mostrar dignos dele. Poderão assim começar por um semi‑Estado, estabelecido em parcelas de territórios livres de qualquer presença israelita, tal como Gaza, ou por esse Estado de fronteiras provisórias evocado no Roteiro para a Paz, e do qual em breve se voltará seguramente a ouvir falar. O novo desafio consiste, assim, em agir como um Estado a fim de vir a sê-lo. A mesma viragem pode ser referida no que se refere à intervenção internacional, antigamente exigida pelos palestinianos e actualmente desejada por Israel. Não se trata de uma intervenção através de uma operação política destinada a resolver o conflito, mas de acções pontuais, técnicas, concebidas mais para tranquilizar Israel do que para levar este país a agir. Assim se explica o papel egípcio nos serviços de segurança em Gaza, e a presença de observadores europeus na fronteira entre o Egipto e a Faixa de Gaza. Trata‑se, nos dois casos, de uma estabilização securitária, cujas previsíveis consequências são a apresentação de exigências à Autoridade Palestiniana, uma reorientação de Gaza para o Egipto em detrimento da Cisjordânia e, talvez, uma erosão dessa independência de decisão que os palestinianos tanto prezam. Em suma, toda a paisagem sofre transformações, reflectindo o dinamismo israehta e a paralisia palestiniana. Progressivamente, um novo clima emerge da combinação dos seguintes factores: desencantamento com as negociações; cepticismo em relação a um acordo fi@@ de paz; novo consenso e unilateraiismo israelita; construção do muro de separação e reforço da presença israelita em Jerusalém Oriental e nosentre o Egipto e a Faixa de Gaza. Trata-se, nos dois casos, de uma estabilização securitária, cujas previsíveis consequências são a apresentação de exigências à Autoridade Palestiniana, uma reorientação de Gaza para o Egipto em detrimento da Cisjordânia e, talvez, uma erosão dessa independência de decisão que os palestinianos tanto prezam. Em suma, toda a paisagem sofre transformações, reflectindo o dinamismo israelita e a paralisia palestiniana. Progressivamente, um novo clima emerge da combinação dos seguintes factores: desencantamento com as negociações; cepticismo em relação a um acordo final de paz; novo consenso e unilateralismo israelita; construção do muro de separação e reforço da presença israelita em Jerusalém Oriental e nos blocos de colonatos da Cisjordânia; fragmentação, desordem e cacofonia do lado palestiniano; crescente papel dos grupos armados nos Territórios Ocupados; integração do Hamas no campo político; regionalização da geopolítica palestiniana centrada no Egipto, no caso de Gaza, e talvez na Jordânia, no caso da Cisjordânia. Se o partido Kadima, fundado por Ariel Sharon, vencer as eleições legislativas previstas para 28 de Março, este contexto permitir-lhe-á uma grande margem de manobra. O seu objectivo declarado – a realização de um acordo provisório de longo prazo – parece impossível de alcançar devido às suspeições palestinianas. Restam‑lhe, apesar disso, outros cenários independentes da vontade dos adversários. Invocando o Roteiro para a Paz e a exigência nele contida de um desmantelamento da estrutura terrorista, e no caso de um recrudescimento da violência palestiniana ou do caos generalizado em Gaza, poder-se-ão reunir as condições para uma completa paragem do processo de paz e um restabelecimento do controlo territorial da Cisjordânia por Israel, bem como para o enfraquecimento do movimento nacional palestiniano, a cuja dissolução se assistiria. Este posicionamento pode ser contrariado por diversos obstáculos. Os palestinianos poderão conseguir restaurar a ordem e a segurança com mais eficácia do que se prevê, os Estados Unidos podem exigir negociações, e os membros da coligação de Sharon e a sua opinião pública podem reclamar algo diferente do statu quo. Circunstâncias análogas anteriormente registadas convenceram Sharon da pertinência de uma concessão antecipada, levando-o à retirada de Gaza. Neste cenário hipotético, o mais plausível seria que, depois de ter “demonstrado” a incapacidade palestiniana de respeitar as obrigações do Roteiro para a Paz, o primeiro‑ministro israelita revelasse um novo plano de retirada unilateral abrangendo desta vez o centro da Cisjordânia. Alguns conselheiros de Sharon vêm assinalando as vantagens de um plano mais ambicioso, que consistiria na retirada de 80 a 90 por cento da Cisjordânia, tendo como contrapartida a anexação de facto dos blocos de colonatos e o estabelecimento de facto das fronteiras duradoiras do Estado de Israel... Só raramente as acções de Sharon resultaram de planos a longo prazo previamente formulados, sendo pelo contrário resultantes de uma vida de experiências, de reflexos aprendidos e mil vezes aplicados, e de convicções relativas à segurança de Israel das quais emanam decisões das quais inicialmente o general apenas tem uma vaga consciência. Mas, apesar de tudo, a paisagem israelo‑palestiniana emergente permite ter uma ideia suficientemente clara do futuro. Em suma, a acreditar nas sondagens e na sequência dos acidentes cerebrais de que foi vítima a 18 de Dezembro de 2005 e a 4 de Janeiro de 2006, Sharon deixa um legado de respostas e soluções. Abbas herda – provavelmente por muito tempo – inumeráveis pontos de interrogação. Na época de Arafat, a presença do raís muitas vezes bastava, por si só, para encontrar respostas, uma vez que o que fazia exprimia mais ou menos um consenso nacional. Contudo, a incerteza e a ambiguidade que ainda recentemente favoreceram a unidade palestiniana são‑lhe agora prejudiciais. Aquilo de que os palestinianos doravante precisam é de clareza. A lista das questões é longa. Será a luta armada compatível com as negociações – o seu forçoso complemento – ou ser-lhe-á antes antitética? Entre os que rejeitam a violência, não existe consenso em relação aos meios alternativos de resistência activa. Os Acordos de Oslo, assinados em Setembro de 1993, foram uma desilusão; mas, na ausência de perspectivas de solução definitiva, os palestinianos têm que decidir se um acordo provisório é melhor do que nenhum acordo. As mesmas questões surgem em relação a um Estado com fronteiras provisórias, visto por uns como uma etapa necessária à relegitimação do movimento nacional e por outros como uma fase que precede a sua aniquilação. O debate sobre a construção de instituições quase estatais, bem como a morte de Arafat, reavivaram os diferendos sobre os papéis respectivos da Autoridade Palestiniana e da Organização de Libertação da Palestina (OLP) e, consequentemente, sobre a representação política da diáspora. Não existe também acordo sobre a pertinência de uma intervenção internacional, capaz de reequilibrar a relação de forças com Israel ou, noutro ponto de vista, de atentar contra a independência palestiniana e aumentar as pressões sobre a resistência armada. Encontrar respostas consensuais para estas questões tornou-se um problema de sobrevivência, pois sem elas não haverá unidade, reacção coerente à iniciativa israelita e muito menos estratégia planificada. É uma oportunidade para os palestinianos se debruçarem sobre os seus problemas e tentarem encontrar respostas para os mesmos, através de um amplo debate no interior da Fatah, entre a Fatah e o Hamas e outras formações políticas, e na sociedade civil com os sindicatos e as universidades. É evidente que nada disto ajudará Abbas, prisioneiro de uma situação que lhe é altamente desfavorável. Devido ao seu carácter, atitude e temperamento político, é um homem de negociação, de um processo diplomático e de um acordo final de paz. O unilateralismo desvaloriza o seu principal trunfo: a capacidade de convencer os seus parceiros e de deles obter concessões. No momento oportuno e noutras circunstâncias, Abbas estaria verosimilmente à altura de conseguir esse compromisso histórico com Israel com o qual sonhou antes dos outros, e pelo qual continuou a lutar junto deles. Em vez disso, tem que assistir impotente a gestos israelitas dos quais não pode retirar qualquer crédito e a actos hostis que não pode impedir. Quando os combates opõem Israel, por um lado, e o Hamas, a Jihad Islâmica ou as Brigadas dos Mártires de Al‑Aqsa, por outro, Abbas é relegado ao papel de espectador, condenando uns e desaprovando outros. Apesar de ser dotado de uma visão estratégica rara, os seus olhos fixam‑se agora no quotidiano, na última crise que agita Gaza ou nos últimos sobressaltos que abalam a Fatah. Indubitavelmente, não merecia que fosse este o seu destino. _____ * Respectivamente, especialista em questões israelo‑palestinianas, senior associate no St. Antony’s College (Oxford); e antigo conselheiro do presidente Bill Clinton, director do Programa Médio Oriente e África do Norte no Internacional Crisis Group (Bruxelas). [1] Ler Abou Mazen, le
dernier palestinien, Le Monde diplomatique, Fevereiro de 2005. [2] Iniciativa definida e apoiada pelo Quarteto (Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Organização das Nações Unidas), ratificado pela Resolução 1515 do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 19 de Novembro de 2003 e que prevê, designadamente, a criação de um Estado palestiniano... em 2005. Ler o texto integral (pdf). [3] Ler Willy Jackson, Détruire ce mur illégal en Cisjordanie, Le Monde diplomatique, Novembro de 2004 [edição brasileira: Um muro condenado]. |