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Jerusalém, 24/01/2006 Palestina a votos Acabo de ler uma entrevista do porta-voz do Hamas ao Réseau
Voltaire [1]. É esclarecedora no que diz e no que oculta. No silêncio
sobre o que significaria um país regido pela “lei de Deus” – aliás, a
jornalista também não lho pergunta...; ou sobre o que significariam “tréguas
duráveis” com o ocupante. Mas clara sobre o modo como se consideram, não uma
organização terrorista, mas um movimento de resistência nacional; e como
distinguem a religião judaica do Estado de Israel. Esta entrevista deve ser lida porque representa, simultaneamente, uma
corrente de opinião fortíssima, e porque ela se encontra em “movimento”. O
Hamas de hoje não é o de ontem, nem será o de amanhã se, como tudo indica, se
afirmar como força decisiva no mapa político palestiniano. UM SISTEMA ELEITORAL COMPLEXO Ninguém pode, com um mínimo de rigor, assegurar o que amanhã
decidirão os palestinianos. As últimas sondagens, pouco fiáveis, dão 40 a 42
por cento dos votos à Fatah, o partido do falecido Yasser Arafat, 35 por
cento ao Hamas e o restante a várias forças de menor expressão. A principal
destas forças de “terceira via” – creditada com 7 pontos – é uma plataforma
laica, de esquerda e não violenta, que resultou da candidatura presidencial
de Moustapha Barghouti, que, há pouco mais de 1 ano, obteve 20 por cento dos
votos (a ela não se apresentou, contudo, nenhum candidato do Hamas). Mesmo que as sondagens acabassem por acertar, isso não significaria
automaticamente uma maioria parlamentar da Fatah e das restantes correntes
laicas. Com efeito, o sistema eleitoral aprovado pelo anterior parlamento é
misto – metade dos cargos são de eleição uninominal. Mesmo perdendo na lista
nacional, o Hamas pode vencer nas principais cidades as disputas uninominais.
Com efeito, o partido de Arafat encontra-se num estado de quase implosão.
Durante muito tempo dividida entre os activistas do interior e os que
acompanharam Arafat nos anos do exílio, a Fatah entrou em crise aberta nos
últimos meses do ano passado. Para dirimir o diferendo, organizou primárias
para seleccionar os seus candidatos. O saldo final dessa batalha foi
favorável à “jovem guarda”. Mas os mais velhos e comprometidos com os
sistemas de interesses que gravitam em torno da Autoridade Palestiniana,
decidiram vingar-se apresentando candidaturas independentes aos círculos uninominais.
Os efeitos desta fragmentação só amanhã se ficarão a conhecer. Assim como o
efeito que terá tido a entrevista televisiva de Marwan Barghoutti à Al-Arabya
neste fim-de-semana. Marwan Barghoutti, antigo chefe militar das brigadas de
Al-Aqsa, é o mais popular líder palestiniano da actualidade. Está preso em
Israel e lidera a lista nacional da Fatah. O facto de Israel ter autorizado a
entrevista dá bem a ideia do que está em jogo nesta eleição. Na entrevista,
Barghouti sustentou um «governo de unidade nacional», portanto, com inclusão
do Hamas. Ainda assim, Telavive decidiu correr o risco... A EUROPA SEM SABER O QUE FAZER As tomadas de posição internacionais são outro factor que intervém
nestas eleições. Desde o início, Israel fez tudo o que pode para evitar que o
Hamas se apresentasse às eleições. Debalde. Depois, procurou condicionar essa
participação a uma declaração de todos os candidatos “repudiando o
terrorismo”. Também debalde. Mesmo a administração norte-americana percebeu
que a inclusão do Hamas no sistema político faz parte de qualquer saída para
o conflito. Mas o mesmo não o entendeu boa parte da Europa institucional.
Javier Solana correu em socorro da posição israelita, enquanto a comissária
Ferrero Waldner fez declarações bastante mais pacificadoras do ambiente
político. Mas ainda hoje circula aqui em Jerusalém, em papel impresso com o
símbolo do Parlamento Europeu, uma declaração de vários deputados do centro e
da direita no mesmo sentido da posição de Telavive. Nesse documento
encontra-se a assinatura de pelo menos um eurodeputado português, Ribeiro e
Castro. Independentemente do que se possa pensar sobre estas eleições e o
conflito que define a política no Médio Oriente, é lastimável a circulação de
documentos ambiguamente oficiosos, quando o próprio PE tem aqui uma extensa
missão de observação eleitoral, a quem compete isenção e objectividade nos
procedimentos de amanhã. Acresce que este tipo de posições só podem irritar
os eleitores. É difícil imaginar melhor préstimo ao Hamas a menos de 24 horas
do escrutínio... _______ [1] Quel est le programme
politique du Hamas aujourd’hui?, Réseau Voltaire, 20/01/2006. |