Informação Alternativa

Médio Oriente

27/01/2006

 

Sobre a vitória do Hamas

 

Alain Gresh

Le Monde diplomatique

 

A vitória sem apelo do Hamas nas eleições legislativas de 25 de Janeiro de 2006 suscitou muitos comentários e advertências indignadas dos Estados Unidos e da União Europeia, França incluída.

 

Diversas observações preliminares são contudo necessárias para colocar este acontecimento no seu contexto.

 

O escrutínio, realizado sob ocupação estrangeira, suscitou uma fortíssima mobilização da população palestiniana. Mais de três quartos dos eleitores deslocaram-se às secções de voto. É incontestavelmente uma vitória para a democracia e a prova de que os palestinianos estão empenhados nela. E uns 900 observadores internacionais confirmaram a regularidade do escrutínio.

 

Os eleitores exprimiram a sua rejeição da política seguida pela Autoridade Palestiniana e a Fatah em pelo menos dois níveis. Antes de mais, uma condenação da sua incapacidade de criar instituições sólidas, erradicar a corrupção, melhorar a vida diária. Todos na Palestina estão conscientes dos constrangimentos permanentes de uma ocupação que prossegue há perto de quarenta anos, mas, mesmo tendo em conta estas condições, o balanço da Autoridade resulta negativo. Também o é no domínio das negociações com Israel desde os acordos de Oslo de 1993. Todo o parecer de Mahmoud Abbas, eleito preside da Autoridade em Janeiro de 2005, era que uma posição “moderada” da sua parte relançaria o “processo de paz”; isso não aconteceu. Ariel Sharon, que tinha há muito tempo afirmado que Yasser Arafat era o obstáculo à paz, nada ofereceu ao seu novo interlocutor: a retirada unilateral de Gaza foi acompanhada – era esse todo o objectivo da manobra – da aceleração da colonização e da construção do muro do Apartheid – apesar da condenação do Tribunal Internacional de La Haia. As barragens e controlos continuam a tornar impossível a vida diária dos palestinianos, o número de prisioneiros políticos ascende a vários milhares, etc.

 

É pois bastante estranho ouvir os dirigentes americanos, europeus e franceses interrogar-se doutamente sobre a “continuação do processo de paz”. Este processo não existia antes das eleições – tinha de facto cessado com a eleição de Sharon.

 

Uma outra reflexão merece ser feita. Os eleitores votaram no Hamas não porque adeririam ao seu programa “histórico” de eliminação do Estado de Israel, não porque desejariam uma reactivação dos atentados­‑kamikazes (as recentes sondagens de opinião mostram pelo contrário uma vontade de paz e de negociação), mas porque querem acabar com a gestão catastrófica da Autoridade Palestiniana. Pode-se esperar de resto que o tremor de terra do dia 25 de Janeiro suscitará uma recomposição da vida política palestiniana permitindo uma estratégia mais eficaz contra a ocupação.

 

Algumas observações sobre o próprio Hamas são também indispensáveis. Esta organização é incontestavelmente popular, implantada na Cisjordânia e em Gaza. Faz parte da paisagem política. Como em muitos outros países árabes, é ilusório pensar poder avançar para a democracia excluindo os islamistas. O Hamas dispõe de três trunfos essenciais junto da população: a sua participação na resistência à ocupação; a sua rede de ajuda social; a devoção incontestável dos seus quadros. Mas o exercício do poder será um desafio temível. Recordem, além disso, que, no plano económico, o Hamas situa-se mais bem à direita do espectro, favorável ao liberalismo; e no plano dos costumes, é extremamente conservador, o que suscita a inquietude, nomeadamente numa parte das mulheres.

 

O Hamas é também uma organização que sabe ser pragmática: assim, tinha recusado participar nas precedentes eleições de 1996, sob o pretexto de que se desenrolavam no âmbito dos acordos de Oslo; modificou entretanto a sua posição, ao passo que as condições não mudaram. Também soube estabelecer alianças com notáveis locais muito respeitados, aceitar cristãos nas suas listas, gerir com competência os municípios que conquistou, etc.

 

É difícil saber o que se vai passar nos meses futuros. No entanto, se a França tiver um papel a jogar, é bom recordar que qualquer solução do conflito passa pela aplicação das resoluções da ONU: retirada total de Israel dos territórios ocupados em 1967, incluindo Jerusalém­‑Leste; criação de um Estado palestiniano independente; direito de Israel à paz e à segurança. Afirmar querer obter do Hamas que reconheça o Estado do Israel, em conformidade com o direito internacional, sem repetir ao mesmo tempo que o impasse actual reside na recusa permanente deste Estado em implementar as resoluções da ONU, apenas confirmaria que Paris renunciou a qualquer papel independente no Médio Oriente.

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