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24/12/2005 A cidade do menino
Conto-vos de Belém. Estive lá no mês passado. Cheguei ao lugar pela
única estrada por onde se entra, vindo de Jerusalém. Quinhentos metros antes,
um check point israelita verifica salvo-condutos, definindo quem pode
e não pode passar. Eu passei. Integrava uma delegação do Parlamento Europeu e
usufruía, por isso, de prerrogativas negadas aos autóctones. Estranho? Por
aquelas bandas é assim. Era assim, também, no tempo do menino. Passado o check point, uma circular rodoviária assinala o fim
da recta. Fazem-se circulares quando dela saem três ou quatro caminhos. Mas
agora, do outro lado da dita, só se vê muro. Muro a perder de vista. Tapando
a vista. Só uma pequena aberta regista que, do lado de lá, há uma estrada que
continua. A estrada que entra na cidade murada. É por ela que sigo, fixando o
aviso impresso a tinta vermelha no betão do muro: «welcome to the ghetto».
Mais tarde, vendo fotos aéreas da cidade, percebo melhor a saudação. Belém
encontra‑se integralmente rodeada de muro. Vinte e um séculos depois do menino, os muros substituem as
muralhas. Como os check points e seus soldados sucedem às antigas
portas de entrada na Medina e seus guardas romanos. Mas a nova barreira
cumpre uma função distinta da de outrora. Agora, ela não regula as horas em
que se pode entrar e sair da cidade. Agora, ela garante que praticamente
ninguém pode sair da cidade onde nasceu, e que apenas turistas e diplomatas
têm acesso à cidade do milagre revelado. Eis Belém, ontem refém do mais
perene dos Impérios, e hoje aprisionada pelo colonizador. Aqui chegado, não resisto a um parêntesis. Ribeiro e Castro disse
esta semana que o terrorismo era filho da esquerda. Ribeiro e Castro preside
a um partido que se reclama da “cristandade”, mas, ou pratica pouco, ou não
conhece a História da tradição. Tal como o Estado de Israel reivindica o seu
muro contra o terrorismo, também o Império romano exercia a sua violência em
nome da “legítima defesa” contra o terror de judeus e cristãos que se opunham
à ocupação. O exercício do terror, selectivo ou de massas, é filho
da História. Ele torna-se inevitável, sempre que a força do mais poderoso não
deixa alternativas. Comunidades judaicas resistentes praticaram o terror
contra os romanos. Chegaram, até, a exercê-lo sobre si mesmas, como martírio
preferível à rendição, em mais de uma ocasião. Do mesmo modo, cristãos
defensores das tábuas da lei recorreram ao assassinato público de autoridades
religiosas do judaísmo que colaboravam com a Pax romana. Por muito que custe
à santa ignorância de Ribeiro e Castro, o terrorismo tem raízes fundas na
tradição judaico-cristã. Só se compreende o dislate, porque o Partido Popular
está a minguar. É isso que leva Ribeiro e Castro ao extremismo proclamatório.
Mas a evidência não é desculpa. A razão porque tantas vezes o exercício do
terror se confundiu com o direito de resistência, é que ele é, acima de tudo,
bastardo das ordens imperiais e coloniais que sempre se arrogaram o monopólio
da violência. Ainda Ribeiro e Castro não tinha disparatado, e era exactamente
sobre isto que eu pensava no momento em que entrava em Belém, a aprisionada.
Tinha tido igual sensação no Norte da Cisjordânia, em Qalqilya, outra cidade
palestiniana rodeada de muro. Mas a carga simbólica não é a mesma. Afinal,
Belém sempre é a cidade do menino. Uso a minúscula porque estou convencido de que ele, já crescido, teria preferido assim. Suspeito que Jesus gostaria de ser reconhecido como menino e homem, e não como deus ou filho de deus. Foi por isso com ternura que, na gruta por debaixo do altar, ouvi o meu guia explicar o nascimento tal como nos evangelhos. Vejo-o apontando para o lugar onde, jura, estavam as palhinhas. E logo em seguida para outro canto, onde o burro e a vaca inventadas sete ou oito séculos depois, aqueciam o ar frio, os reis magos e restante presépio. O meu guia conta uma história que enche de fantasia o mais empedernido dos corações. A sua narrativa fantástica nada deve aos factos. Mas há uma verdade que ali, de Belém, se transporta para qualquer tempo e qualquer lugar – é a verdade de um voto e de uma aspiração: que a paz e o amor – hoje diríamos solidariedade – sobrevivam às guerras, às opressões e às injustiças. Ontem como hoje, é difícil imaginar mensagem mais urgente. |