|
Informação Alternativa |
|
Médio
Oriente |
|
Março 2005 Bahrain, um simulacro de
democracia Marc Pellas * No seu discurso sobre o estado da União, o presidente George W. Bush saudou os progressos democráticos registados no Bahrain. No entanto, o emir que há três anos se proclamou rei promulgou uma Constituição que lhe garante todos os poderes e ataca as (poucas) liberdades impostas pelo movimento popular. Foram retomadas as prisões arbitrárias, os antigos torcionários exibem‑se novamente e foi dissolvida uma das principais organizações de defesa dos direitos humanos. «O senhor acusou o primeiro-ministro de corrupção. É acusado de
incitar o ódio ao regime e de difundir falsas informações. Está detido.» Ao
ouvir estas acusações, proferidas pelos agentes da polícia que o convocaram
para comparecer durante a noite numa esquadra fortemente guardada, o
vice-presidente e director-geral do Centro de Direitos Humanos do Bahrein
(CDHB) sabe que se arrisca a passar na prisão vários anos da sua vida. Os factos reportam-se a 24 de Setembro de 2004, dois dias antes deste
episódio, quando Abdulhadi Al‑Khawaja apresentou uma comunicação, no
quadro de um simpósio sobre “Pobreza e direitos económicos”, em que sugeria a
existência de uma relação directa entre a «falência económica» do país, a «repartição
cada vez mais desigual das riquezas», a corrupção ao nível do governo e a
situação de cerca de 80.000 cidadãos a viverem abaixo do limiar da pobreza. No entanto, o novo milénio começara de uma forma extraordinária. Ao
submeter à aprovação popular o projecto de uma Carta de Acção Nacional, a 15
de Fevereiro de 2001, em que se afirmava o carácter democrático do sistema
político, a separação dos poderes e a supremacia da soberania popular, o novo
emir, o xeque Hamad Ben Issa Al-Khalifa, virara a página sobre vinte e cinco
anos de chumbo [1]. O Bahrein pertencia então ao pelotão das ditaduras em que
se torturavam adultos e crianças, em que se disparavam balas reais sobre
manifestantes desarmados, em que centenas de quadros e de intelectuais eram
obrigados ao exílio, em que as vagas repressivas conduziam à prisão 1% dos
cidadãos e onde as garantias constitucionais estavam suspensas desde a
dissolução do primeiro Parlamento eleito do país, em 1975. Os termos e o espírito da Carta de Acção Nacional foram debatidos e
acordados pelo novo soberano e pela oposição, que aceitava a natureza
monárquica do regime, a dinastia hereditária existente, bem como as
prerrogativas bastante alargadas que aquele possuía em matérias executivas,
mediante a restauração e a garantia de um verdadeiro espaço de democracia
legislativa. A reacção teve uma força inesperada, com 98,4 por cento dos 198.000
votantes a plebiscitarem a Carta. UMA CONSTITUIÇÃO CAÍDA DO CÉU A abertura política deveria desencadear uma dinâmica social e institucional
virtuosa, estimular a confiança e o investimento estrangeiros, redinamizar
uma economia de serviços em estagnação e recuperar o trabalho de 15% de
desempregados oriundos das classes pobres e médias. Mas o regresso à ordem
constitucional deveria sobretudo limitar o monopólio das riquezas, nomeadamente
fundiárias, por parte da casta dirigente [2] e colocar um freio na corrupção
generalizada que, mais de dois séculos depois do desembarque e da conquista
da família dos Khalifa, em 1783, fazia com que numerosos cidadãos, entre eles
uma forte proporção de 65 a 70 por cento de xiitas, considerassem que o país
permanecia “ocupado” e que lhes havia sido “espoliado”. Depois de ultrapassada a euforia provocada pela libertação dos
presos políticos e pelo regresso triunfal dos exilados, pela proclamação do
fim da tortura e pela revogação da lei de segurança de Estado [3], pôs-se em
marcha o diálogo entre o governo e a oposição com vista à definição das
modalidades e das formas de acção dos futuros partidos políticos no quadro
limitado, mas sancionado, pela Constituição de 1973. O anúncio, a 14 de Fevereiro de 2002, de que o emir se proclamara
rei, quando a oposição se preparava para festejar o primeiro aniversário da
adopção da Carta de Acção Nacional, produziu o efeito de um duche gelado – e,
sobretudo, a promulgação solitária de uma Constituição de cuja existência,
texto e imediata entrada em vigor os cidadãos só tomaram conhecimento na
imprensa da manhã... Esta nova Constituição já não representa um “contrato
social entre o monarca e o povo soberano”: ela foi pura e simplesmente
outorgada. Institui uma Assembleia Nacional com duas câmaras em que quarenta
membros, na qualidade de deputados, são de facto eleitos, mas em que quarenta
outros, membros do Conselho Consultivo criado em 1992, são designados pelo
rei, como sucede já no caso do primeiro-ministro, dos ministros, dos membros
do Tribunal Constitucional, do Supremo Tribunal de Justiça e do conjunto dos
juízes. Em caso de divergência, este sistema não atribui qualquer relevância
à Câmara dos Deputados e o rei pode exigir uma maioria de dois terços das
duas câmaras para que se proceda à adopção de uma lei, o que lhe permite
opor-se, à sua vontade, a qualquer iniciativa legislativa. Enfim, para que
tudo seja bem claro, o rei concede de facto a si próprio a prerrogativa
pessoal de fazer emendas à Constituição e de legislar por decreto. Nos meses que se seguiram ao «golpe de Estado constitucional» de 14
de Fevereiro de 2002, uma série de decretos reais precisavam os termos do que
deveria ser a “ordem democrática”, desde o recorte dos círculos eleitorais
até à interdição de qualquer inquérito, por parte dos deputados, a toda a
acção governamental anterior à entrada em funções do futuro Parlamento. Um
destes decretos, contrário à Convenção contra a Tortura ratificado pelo
Bahrein, colocava os polícias e os funcionários dos serviços de segurança
interna, que “animaram” as salas de tortura de 1975 a 1999, não só ao abrigo
de qualquer acção penal mas também de qualquer exigência de reparação de
danos por parte das vítimas e das suas famílias [4]. Ao mesmo tempo, a oposição denunciava a crescente atribuição do
direito de nacionalidade – e do direito de voto – a juizes, a polícias e a
funcionários jordanos, sírios, egípcios ou paquistaneses, bem como a
residentes dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) [5],
considerando que a «distribuição de dezenas de milhares de passaportes» a
futuros cidadãos, de origem sunita e profundamente gratos ao regime,
constituía um factor de perturbação da sociologia e da «demografia» do país [6]. Foi assim sem surpresa que os dois principais movimentos da
oposição, a Associação por um Acordo Nacional Islâmico (essencialmente xiita)
e a Associação para a Acção Nacional Democrática (laica), a que se associaram
a União Democrática Nacional e a Associação de Acção Islâmica, anunciaram que
não apresentariam candidatos às eleições legislativas de Outubro de 2002,
sancionando assim a «crise constitucional» e conduzindo à queda de
participação eleitoral [7]. Em Abril de 2003, a falência fraudulenta de dois fundos de pensões
colocados sob administração governamental deu lugar à criação de uma comissão
de inquérito e à redacção de um relatório em que se recomendava que os três
ministros directamente implicados fossem ouvidos pela Câmara. Face ao risco
de tocar a pessoa do xeque Khalifa Al-Khalifa, fio do actual rei e intocável
primeiro-ministro, em funções desde a independência de 1971, o governo
atribuiu aos dois fundos 16 milhões de dinares (35 milhões de euros) e diversos
terrenos da capital. Mas só depois de o presidente da Câmara e protegido do
primeiro-ministro, Khalifa Al-Dharani, ter convidado os seus colegas a «não fazer
abanar o barco», referência pouco velada à dissolução do primeiro Parlamento
nacional provocado pela rejeição da lei da segurança de Estado [8].
Paralelamente, o controlo das autoridades sobre a vida democrática não
enfraqueceu: liberdade de imprensa estritamente vigiada, pressões sobre a
liberdade de reunião, etc. Neste contexto, cabia aos quatro principais movimentos de oposição
retomar a iniciativa. Depois de recebidas garantias de fontes próximas do
palácio, convocaram para a data simbólica de 14 de Fevereiro de 2004 uma
conferência para apresentar os trabalhos de constitucionalistas árabes e
europeus cujas conclusões contrariavam as teses oficiais. Pretendia-se dar
forma e eco internacional a proposições que permitissem a renovação do
diálogo com o regime e uma saída para a «crise constitucional». Os acontecimentos, porém, tomaram um curso diferente. Algumas horas
antes da sua abertura, a «conferência constitucional» foi bruscamente
decretada ilegal e, à chegada ao aeroporto de Manama, os seus convidados es –
juristas e universitários europeus, parlamentares e representantes de ONG – foram
recebidos pelos agentes da temível Agência Nacional de Segurança, e expulsos
de imediato. Depois de o centro de conferências ter sido interditado, as três
centenas de participantes nacionais reuniram-se improvisadamente em espaços
do Clube Oruba, influente sociedade de animação cívica e cultural com mais de
sessenta anos, para publicar, ao termo de dois dias de trabalho, uma
declaração de censura ao impasse em que se encontra a vida política do
Bahrein desde 14 de Fevereiro de 2002. Depois da detenção de Abdulhadi Al-Khawaja, da dissolução do CDHB,
do fecho temporário do Clube Oruba e da retoma das detenções durante
manifestações de protesto, parece ter-se acelerado a vida pública do
arquipélago. No próprio dia 21 de Novembro, Al-Khawaja, considerado
prisioneiro de consciência pela Amnistia Internacional, foi condenado a um
ano de prisão, e só depois libertado “por perdão real”. Em meados de
Dezembro, a Cimeira dos Países do CCG convocado para o Bahrein foi um
fracasso e decorreu na ausência do príncipe herdeiro saudita Abdallah,
aborrecido com o dumping aduaneiro praticado por Manama [9] e sem dúvida
pouco desejoso de receber lições de postura americanófila da parte da família
dos Khalifa. Mais importante ainda, no fim de Janeiro, após terem sido
confirmados nas suas funções dez ministros dos Khafifa – entre os quais o
primeiro-ministro –, num governo de vinte e um membros, a oposição unida foi
impedida de exercer o tradicional direito de petição junto do soberano. A
petição “recusada” pelo Tribunal Real reunia 70.000 signatários – um terço do
corpo eleitoral recenseado – em torno de um apelo ao reajustamento da lei
constitucional de acordo com os princípios fundadores de 1973. O sucesso
desta petição, a realização a 10 de Fevereiro de uma nova conferência
constitucional e o anúncio de que a oposição não participará nas próximas
eleições legislativas no actual estado da Constituição e da divisão eleitoral
desencadearam na imprensa governamental acusações indignadas de «oposição
sistemática» e de «anarquismo». Neste contexto degradado, a derradeira arena aberta ao diálogo entre
o poder e a oposição é a preparação de uma nova lei relativa ao direito de
associação, ao direito de constituição de partidos políticos – estatuto
negado às associações políticas actualmente toleradas – e ao direito de
reunião. Ainda que a sociedade civil espere que essas leis signifiquem um
reforço dos direitos individuais e colectivos, há quem tema, pelo contrário,
que a ocasião seja utilizada pela velha guarda do regime para esvaziar
definitivamente as profissões de fé democrática do rei Hamad. Mas ninguém
sabe ao certo em que medida este se submete e orquestra as manobras do seu
primeiro-ministro e tio... Depois da Guerra do Golfo de 2003 e da escalada da crise no Iraque,
a administração americana, inspirada pelos neoconservadores, proclamou a
necessidade estratégica de democratizar os sistemas políticos árabes para
permitir o surgimento de um “Grande Médio Oriente” pacificado e aliado dos
Estados Unidos e de Israel. Deveriam os principados, sultanatos e reinos
árabes do Golfo deixar de fazer assentar no nepotismo, no tribalismo, no
sectarismo e no clientelismo o encargo de atribuir a terra, o investimento, o
emprego público e privado bem como o exercício do poder local? Poderia o
Bahrein ser outra coisa senão um tubo de ensaio de uma transformação “democrática”
que na prática não chegaria a realizar qualquer devolução de poder às instituições
eleitas? O messianismo democrático de Washington poderia impor, de um só
golpe, “a acção”? Até há bem pouco tempo estas interrogações prestavam-se ao ridículo:
estava fora de questão desordenar os equilíbrios “tradicionais, subtis e
soberanos” e arriscar o surgimento dos nacionalistas, dos comunistas ou dos
integristas. Fora de questão estava também a possibilidade de embaraçar a
família que transformou o Bahrein em quartel-general das forças navais
especiais e aéreas [10] do Central Command americano, agora que lhe
foi atribuída pela doutrina militar, nada mais nada menos, do que a missão de
«moldar a região central [11] para o século XXI». No entanto, um relatório acaba de lançar o debate sobre estas
certezas. Assinalando que «as massas muçulmanas não podem ser comparadas
àquelas que atormentavam a União Soviética» e que estas massas não «nutrem um
ódio pelas liberdades [dos Estados Unidos] mas sobretudo pela sua política», uma
confissão do Pentágono constata agora que o problema central da política
americana não reside na comunicação adequada de uma determinada mensagem, mas
numa «total ausência de credibilidade» no que toca a um mundo muçulmano que
quotidianamente se apercebe pelos meios de comunicação social de que «a
ocupação americana do Afeganistão e do Iraque, em vez de instalar a
democracia nesse países, provoca o caos e o sofrimento.» [12] Será provavelmente difícil convencer os povos do Médio Oriente da
sinceridade e do realismo – das intenções democráticas da administração
republicana enquanto esta não tiver conseguido convidar os seus aliados a
democratizarem‑se de um modo um pouco mais convincente, nomeadamente
os da Península Arábica ou o Egipto. Talvez seja por estas razões que o porta-voz do Departamento de
Estado veio a público deixar claro que, a 29 de Novembro de 2004, em Washington,
as conversações entre Colin Powell e o rei Hamad trataram da «importância de
fazer avançar as reformas e de proteger as liberdades individuais», “importância”
que, a vir a impor‑se, apressaria a saída de cena da velha guarda
política do Bahrein, imobilizada, desactualizada e desacreditada por três
decénios de extorsões e de insucessos. _______ * Especialista em questões de segurança na região do Golfo e da
Península Arábica. [1] Ler David Hirst, Uma abertura democrática,
Le Monde diplomatique, Maio de 2001, e Eric Rouleau, Os paradoxos dos
países do Golfo, Le Monde diplomatique, Dezembro de 2001. [2] A população – 670 000 habitantes, da qual um terço são
estrangeiros – vive em 117 km2, enquanto o resto do país (594 km2)
se encontra, em um quarto, ocupado por instalações militares e petrolíferas
e, em três quartos, pela família Khalifa, com cerca de 4000 membros. [3] Essa lei autorizava a prisão dos cidadãos sem serem apresentados
a um juiz durante três anos, mas nem mesmo este limite era respeitado. [4] Era 2001, uma missão da ONU lastimava que o governo levantasse
obstáculos a todos os pedidos de reparação «por parte de antigos prisioneiros,
nomeadamente aqueles que apresentam incontestáveis sequelas físicas ou
psíquicas». [5] Para além do Bahrein, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos,
o Koweit, Omã e o Qatar. [6] Saout El Bahrain/Voice of Bahrain,
Setembro de 2002. [7] Decaiu de 97%, no referendo de Fevereiro de 2002, para valores
de 56% segundo o governo, e 49% segundo a oposição. [8] O antigo parlamentar e sociólogo Aldulhadi Khalaf, que conta
este episódio (Bahrain’s
Parliament: the Quest for a Role, Arab Reform Bulletia, vol. 2, n.º 5,
Maio de 2004), acrescenta que, por sua conta, os deputados conseguiram
inquirir os ministros implicados, mas só depois de se ter estabelecido um
acordo informal que limitou estritamente a discussão à ruína dos dois fundos
de pensões. [9] O Bahrein, que obteve desde Outubro de 2001 o estatuto de “aliado
principal”, acaba de concluir com Washington um acordo de comércio livre que
suprime os direitos aduaneiros entre os dois países para praticamente todos
os sectores comerciais. Ora, os seis membros do CCG aplicam entre si direitos
aduaneiros de 5 por cento e não podem conceder a ninguém condições «mais
favoráveis». [10] A base naval de Juffair abriga o Estado‑maior da 5ª
Armada, a Unidade de Suporte Administrativo “Sudoeste Asiático” e o Comando
das Forças Especiais da Armada, o que a transforma nos «dez hectares mais
activos do planeta» (www.globalsecurity.org/military/facility/manama.htm).
O Comando Avançado da Força Aérea (CENTAF) é assegurado a partir da base
aérea de Cheikh-lssa. [11] Esta região estende-se por mais de 8000 quilómetros, do Quénia
ao Cazaquistão, e reúne 27 países e 430 milhões de habitantes. [12] Citado por Thom
Shanker no The New York Times, 24 Novembro de 2004. |