|
Informação Alternativa |
|
Médio
Oriente |
|
25/08/2005 À espera da liberdade Kristoffer Larsson Enquanto o Irão está a ser pressionado para que interrompa o seu programa nuclear, a posse de armas nucleares por Israel quase não recebe atenção. Embora pondo em perigo a sua própria liberdade, Mordechai Vanunu considerou que tinha a obrigação de revelar que Israel possuía armas nucleares há duas décadas. Por fazê-lo, agentes da Mossad israelita raptaram‑no em Itália, conduziram-no a Israel e foi sentenciado a 18 anos de prisão por espionagem e traição. Tommy Lapid, antigo ministro da justiça israelita, líder do partido laico centrista Shinui, queria que o enforcassem. No dia 21 de Abril do ano passado, Vanunu foi libertado – depois de mais de 6.500 dias de prisão. Mas continua sem gozar de liberdade. Desde a sua libertação foi preso duas vezes por soldados israelitas e, o que é mais importante, – está proibido de abandonar o que considera ser a «prisão Israel». O correspondente do IMEMC, Kristoffer Larsson, entrevistou Vanunu sobre o seu acto e as suas esperanças futuras. Kristoffer Larsson: Antes de mais nada, obrigado por ter tomado o seu tempo para participar nesta entrevista. Mordechai Vanunu: (acena com a cabeça) KL: Comecemos pelo princípio. Você nasceu em Marrocos em 1954. Porque é que a sua família emigrou para Israel? MV: A minha família emigrou para Israel em 1963 como a maioria dos judeus marroquinos. KL: O judaísmo teve um papel importante na sua vida? MV: Oh, sim, nasci numa família judia religiosa, e enviaram‑me também à escola infantil judia. Mas já em tenra idade comecei a recusar e a criticar o judaísmo. KL: Poderia contar-nos algo sobre a sua infância? MV: Vivi numa cidade muito pobre nessa época, Beer Sheva, numa pobre comunidade de judeus que imigraram de Marrocos. Era uma vida muito pobre, pouca actividade. Costumava jogar futebol com as crianças KL: Teve irmãos ou irmãs? MV: Tenho uma família grande, somos onze irmãos e irmãs, sou o segundo. Costumava ajudar a minha mãe e o meu pai a criar todas essas crianças. Fui um estudante muito bom nesses anos. Aos 18 anos, na escola secundária, vivi num internado. KL: O que estudou depois, na universidade? MV: Servi no exército durante três anos. O meu trabalho era treinar soldados novatos. Não foi uma actividade militar, só treinar soldados. Foi perto de Gush Etzyon em Belém. Depois fui estudar para a universidade. Terminei o meu bacharelato e estudei física durante um ano. Depois disso deixei‑o e fui trabalhar para o centro nuclear de Dimona durante nove anos. Enquanto trabalhava ali, também estudei filosofia e geografia na universidade. KL: Como se tornou empregado em Dimona? MV: Simplesmente me candidatei, porque publicaram um anúncio num jornal procurando jovens para ir trabalhar no centro nuclear de Dimona. Assim, segui a informação no jornal e fui ao escritório em Beer Sheva. Aconselharam-me a ir, deram-me papéis que preencher, e foi assim. KL: O que sabia sobre Dimona nessa época? MV: Sabia que talvez estivessem envolvidos em armas nucleares, mas nada mais. Costumavam escrever nos jornais que talvez tivessem armas atómicas, mas isso é tudo. KL: Sabia algum dos seus colegas que eles tinham armas nucleares? MV: Os que trabalhavam nesse local? KL: Sim. MV: No local onde trabalhava, nesse edifício sabiam‑no de certeza. Porque produziam o material para armas nucleares, plutónio. Logo, qualquer pessoa que tenha um pouco de entendimento do assunto sabe que o plutónio é para armas nucleares. E também, esse local é muito secreto, o que significa que estão envolvidos em alguma produção de armas. Logo, os que trabalham nesse local sabem exactamente que estão a produzir armas atómicas, mesmo se não as viram. Mas sabem que estão a produzir armas. KL: Qual era o seu trabalho em Dimona? MV: O meu trabalho nos primeiros anos foi produzir plutónio, separar o plutónio de materiais radioactivos e de urânio, e passar o urânio para a estação seguinte. Logo, o trabalho todos os dias era produzir plutónio, e sabíamos exactamente quanto produzíamos. KL: Quando começou a questionar os actos do governo israelita? MV: Penso que nos primeiros anos tinha uma atitude de crítica, de fazer perguntas. Queria saber o que é que faziam. E sabia que se produzia plutónio, logo sabia quantas armas atómicas podiam ter. E ao mesmo tempo, eles mentem ao povo israelita e ao mundo sobre o que têm. Logo, talvez tenha começado a criticar este sistema quando me dei conta quantas armas atómicas estavam a produzir e que eu fazia parte dessas mentiras e enganos. KL: Quando começou a considerar a possibilidade de revelar isso ao mundo? MV: Depois comecei a participar em política na universidade, a apoiar os palestinianos. Também comecei a criticar Israel quando invadiram o Líbano em 1982. Talvez também tenha começado a ser mais crítico com Israel quando bombardearam o reactor iraquiano em 1981. Eu trabalhava nesse local e vi como bombardearam o Iraque ao mesmo tempo, ali estavam a enganar. Assim que decidi revelar a informação talvez quatro ou três anos antes de abandonar o local, mas não tinha nenhum plano em particular. Só pensava que iria e falaria. KL: Crê que algum dos seus colegas em Dimona teve os mesmos pensamentos, sobre essa revelação? MV: Não. A maioria deles são muito bons judeus sionistas e confiam no governo israelita. Talvez existam algumas pessoas que o criticam, mas não o expressam. Não estão dispostos a fazer nada. KL: E depois disso, você abandonou Israel… MV: Depois de renunciar ao meu trabalho, decidi que ia para os Estados Unidos, mas fui ao Extremo Oriente. Assim, fui à Tailândia e ao Nepal, viajei pelas montanhas do Himalaia, caminhando, escalando. E depois fui a Banguecoque, Singapura e Austrália. E fui baptizado em Sydney. KL: Por que decidiu ser baptizado? MV: Porque, como lhe disse, com a idade de 16 comecei a criticar o judaísmo e decidi que queria abandonar essa fé judia. Assim, desde a idade de 16 anos até aos 30, crescendo, criticando, fazendo perguntas, recusando, até que me encontrei livre. Decidi que não ia mais voltar para trás para Israel. Queria começar uma vida nova, logo decidi que também queria ser baptizado. KL: Como reagiram a sua família e os seus amigos perante o seu baptismo? MV: Nessa época ninguém sabia do meu baptismo. Não falei com ninguém. Sei que não lhes agrada. Só o disse a um irmão. Mas quando me sequestraram em Roma e me trouxeram para cá, descobriram o meu baptismo e não lhes agradou. Tentaram fazer-me voltar ao judaísmo. KL: Por que decidiu revelar esta história ao The London Sunday Times? MV: Porque, como lhe disse, Israel está a mentir, a enganar, e também, através do meu trabalho, sabia que Israel estava a produzir mais de 40 quilogramas de plutónio por ano. É o suficiente para dez bombas atómicas por ano. Decidi que isso era demasiado. Israel tinha muitas, muitas armas atómicas e poderiam ser utilizadas por Israel na próxima guerra nessa época, contra alguns estados árabes. Queria impedir o uso de armas atómicas. KL: O Sunday Times acreditou na sua história? MV: Levei-lhes fotos, tirei fotos secretas nesse local, dei-lhes toda a informação sobre como produzem plutónio. Um cientista nuclear fez‑me perguntas, e aceitou o que eu dizia, mas queriam confirmá‑lo mais e mais. KL: Quanto tempo demorou? MV: Cerca de um mês. Mas antes de ser publicado, Israel raptou‑me em Roma. Publicaram-me uns dias antes de ser raptado. KL: Como encontrou a “Cindy”, a espiã do Mossad? MV: Encontrei-a nas ruas de Londres. Era de noite, eu caminhava, perguntei-lhe “Como vai?” e então começámos a falar e a ver-nos. KL: E depois os dois foram numa viagem a Roma. MV: Voamos para Roma e então atacaram‑me de imediato. KL: Surpreendeu‑o que o mundo não tenha reagido quando o raptaram? MV: Sim, desiludiu-me muito que o mundo não fizesse nada, de Roma a Washington, de Londres a … Estocolmo. Ninguém se importou, ninguém falou para me defender. Continua a ser igual. Nenhum dos governos fala de mim e do meu caso, todos ficam calados. KL: Por que pensa que têm tanto medo de criticar Israel? MV: Penso que têm um problema com Israel, o que fazer e o que dizer. Porque agora Israel tem essas armas atómicas, e sente‑se muito forte, e não lhe importa o que qualquer governo diga. Ninguém pode dizer-lhe o que fazer. KL: O que nos leva a outra pergunta. Pensa que Israel está disposta a utilizar as suas armas nucleares? MV: Israel, creio, estava disposta a utilizá-las. Mas agora, desde a minha publicação e com o todo mundo sabendo disto, o mundo não permitirá que utilize as suas armas. KL: Um antigo director da Mossad revelou que Israel considerou assassiná-lo, mas não o fizeram «porque judeus não matam judeus». Em todo caso, sentenciaram-no a 18 anos de prisão. Surpreendeu‑o a sentença? MV: Sim. Sentenciaram-me como espião e traidor, mas eu não era espião. Eu dei a informação a The Sunday Times, logo deveriam ter-me sentenciado como um homem que fala com os meios de comunicação. Mas o juiz sentenciou‑me como espião e deu‑me uma sentença muito dura, muito longa. Israel não me matou porque «judeus não matam judeus», mas porque eles não sabiam o que fazer neste caso. Estes espiões judeus da Mossad, matam eles próprios muitos judeus. Quando querem, matam-nos. A alguns deles matam‑nos em segredo, em alguns casos chamam‑lhes “ataques cardíacos”. Eles, a Mossad, estiveram inclusive por trás do assassinato de Rabin. Por isso, é treta que «judeus não matam judeus». KL: Pensa que teve um julgamento justo? MV: De modo nenhum. Foi à porta fechada, não se permitiu que ninguém entrasse. Só estávamos eu e o meu advogado. E não se permitiu que o juiz ouvisse alguma coisa da parte do governo, para explicar ao tribunal porque é que Israel tem 200 armas nucleares, porque é que começaram a produzir a bomba de hidrogénio. Disse tudo isto ao tribunal, mas não se permitiu ao tribunal fazer perguntas. Pedimos que testemunhasse Shimon Peres, queríamos perguntar-lhe por que dizia que Dimona era para a paz, por que tinha 200 armas nucleares. Não existe justiça se o juiz não pode fazer perguntas. KL: Como se sentiu quando anunciaram que você teria que passar 18 anos na prisão? MV: Senti-me muito mal. Muita ira. Estava perturbado. Não podia crer que fossem 18 anos. Sentimos como se nos tivessem condenando por matar alguém a quem não matámos. Como se pegassem num homem na rua e o condenassem como assassino, mas ele não tivesse assassinado ninguém. Ninguém acredita nele, logo o que pode ele fazer? O juiz decide que matou, mas não matou ninguém. KL: Você teve que passar dois terços da pena em prisão solitária. O que o manteve vivo? MV: A minha forte crença no meu acto; era muito, muito forte. Decidi que tinha que ser forte. E queria derrotar os que me raptaram e me sentenciaram errada e injustamente. Decidi que queria sobreviver e sair e falar. Assim, este desejo de voltar deu‑me a força para continuar todo esse tempo. KL: Pensou em algum momento, durante esse tempo, que talvez não tenha valido a pena? MV: Não, nunca tive nenhuma dúvida sobre o que fiz. O que me intrigava era por que tinha que sofrer. Tinha bem claro que era algo que tinha que fazer. Porque tinha a informação, senti-me obrigado a publicá-la. Isso tinha que ser feito. Alguém tinha que o fazer. Creio que também vi como o mundo mudou. O mundo ignorou a minha história, mas o mundo na realidade mudou desde que a revelei. A Guerra Fria terminou, a corrida nuclear deteve‑se. KL: Como reagiram a sua família e os seus amigos ante a sua revelação de que Israel tem armas nucleares? MV: A minha família não gosta. Não querem estar expostos ao público. Não sei a respeito de algum dos meus amigos, porque raptaram‑me e meteram‑me na prisão durante 18 anos, e não tive contacto com ninguém, logo não sei. Mas a maioria deles viu‑me como um traidor e um espião. KL: E o público israelita? MV: O público israelita está submetido a uma lavagem de cérebro psicológica pelos meios de comunicação israelitas. Dizem-lhes que sou um inimigo de Israel e um traidor, e também utilizam o meu cristianismo para provar que sou um inimigo. Porque muitos judeus não aceitam judeus que se convertem a outras fés. KL: Como foi encarado pelo mundo pelo que fez, fora de Israel? MV: Recebi muitas simpatias e apoio de indivíduos, de activistas pela paz, de organizações, mas não de governos. Conto com muito apoio e simpatia em todo mundo. KL: Há algo que queira acrescentar? MV: Continuo a esperar a minha liberdade. Gostaria que o mundo assegurasse a minha plena liberdade, para abandonar este país e gozar de liberdade. Sofri o suficiente – 18 anos, e agora mais anos na prisão Israel. Preciso de gozar a minha liberdade, liberdade, de contribuir para a paz no mundo. O mundo deveria ser corajoso e intervir para me apoiar e criticando Israel. Espero que algum Estado acorde, especialmente na Escandinávia – a Suécia, a Dinamarca, a Noruega, são muito bons a apoiar seres humanos. Deveriam exigir de Israel que me dê a minha liberdade. KL: Onde gostaria de ir, se pudesse escolher? MV: Iria para a Europa ou para os Estados Unidos. KL: Muito obrigado. MV: (acena com a cabeça) |