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26/04/2005 Rita Freire O apedrejamento até à morte,
na semana passada, de uma jovem acusada de adultério mostra que a condição das
mulheres no Afeganistão não ficou diferente do que era nos tempos do Talibã.
Amina, de 29 anos, foi arrancada da casa dos seus pais e, sob o amparo da
sharia – lei religiosa seguida em muitos sectores da sociedade afegã – foi
lapidada. O ex-marido e o juiz encarregado de aplicar a lei tribal tiveram o
privilégio de atirar as primeiras pedras de uma sequência que a levou à morte
lentamente. A urgência em garantir direitos
mínimos para as afegãs foi um dos argumentos alardeados pelas forças
norte-americanas ao bombardear, invadir e ocupar o país depois de Setembro de
2001, a pretexto de libertá-lo do fundamentalismo terrorista. Passados quatro
anos de ocupação, as afegãs continuam vítimas das terríveis regras de conduta
que as mantinham sob permanente cativeiro e que em tese deveriam cair por
terra – não apenas através do simbólico baixar das burkas para as fotos
divulgadas pela imprensa internacional durante as eleições promovidas e
tuteladas pelos EUA. TOLERÂNCIA AO EXTREMISMO O cumprimento de uma nova
constituição, a reconstrução do país e a defesa contra rebeldes do Talibã são
hoje as justificativas para que as forças de ocupação continuem a postos no
Afeganistão, com cerca de 20 mil soldados norte‑americanos, reforços
permanentes do Paquistão e, agora, de mercenários, contratados a título de
combater a produção e tráfico de papoula. Mas as novas leis do estado,
usadas para exibir externamente a democratização do país, e as acções da
Justiça contra a violência, se é que existem, não alcançam as mulheres, uma
vez que o governo fecha os olhos aos julgamentos locais regidos por leis
religiosas fundamentalistas, como foi o caso da condenação e assassinato
cruel de Amina. A constituição aprovada em Janeiro
não cita a aplicação da sharia de forma explícita, explica o Colectivo Cadiz
Rebelde, ao denunciar a lapidação. «Entretanto, os senhores da guerra
conseguiram introduzir um artigo que assinala que as leis não serão contrárias
à tradição muçulmana, o que numa sociedade muito tradicional torna possível a
aplicação da lei islâmica». A sharia, como explica o colectivo, considera
crime o adultério e pode castigá-lo, no caso das mulheres, com pena de morte
por apedrejamento ou, em sentenças menos severas, com séries de chicotadas. NÃO HOUVE TEMPO PARA NADA A nova vítima do
fundamentalismo afegão tinha o mesmo nome da nigeriana que escapou da
lapidação após campanha promovida pela Amnistia Internacional. Mas as
práticas toleradas pelo novo Afeganistão, por serem extra-oficiais, não podem
ser evitadas por qualquer pressão internacional, porque simplesmente não são
dadas a conhecer. Não fosse pelo escândalo que
representa a execução de uma pena que permite aos carrascos enterrar uma
pessoa viva, deixando parte do seu corpo exposto ao apedrejamento público, a
morte de Amina oficialmente não teria acontecido. Tirada de casa para o
julgamento sumário, Amina foi levada à lapidação pública que aconteceu apenas
48 horas depois. Segundo o assessor legal da Amnistia Internacional, Yuval
Ginbar, não houve tempo de apelar ao Tribunal Supremo e, como uma pena dessas
precisaria ser antes autorizada pelo presidente Hamid Karzai, é possível que nem
sequer tenha sido comunicada. «Acreditamos que o governo não sabia nada sobre
o assunto», disse ele. UMA LENTA AGONIA Amina morreu brutalmente
antes de completar 30 anos, acusada e apedrejada por um homem que nem sequer
tinha convivência com ela. Aos 23 anos, ela foi abandonada pelo marido que,
cinco anos mais tarde, voltou julgando-se no direito de cobrar fidelidade.
Acusou-a de manter relações sexuais com um vizinho, crime que acabou sendo
considerado sem perdão pelo tribunal extremista. O Colectivo Cadiz Rebelde
relata que a condenação foi instigada por um líder religioso de uma zona a
mais de 300 quilómetros ao norte de Kabul. O vizinho julgado como amante
teria sido condenado a 100 chibatadas e foi libertado após a execução da
pena. Na quinta-feira da semana passada, a sentença foi anunciada pelo líder
religioso local, o mulá Mohamed Yusuf. O apedrejamento foi feito numa praça
de Argo, zona rural situada a oeste de Feizabad, capital da província de
Badajshán. Segundo uma testemunha, a
agonia de Amina foi lenta, um sofrimento que começou quando o ex-marido e as
autoridades chegaram à casa dos seus pais, arrastando‑a para o
martírio. PENA IRREPARÁVEL «O caso de Amina demonstra
que o governo afegão não protege a população e não garante a justiça nem a
promove, especialmente para as mulheres», denuncia a Amnistia Internacional numa
nota sobre o caso. «As práticas religiosas e tradicionais não podem ser
usadas como desculpa para violar os direitos humanos fundamentais das mulheres». Para a organização, o governo afegão tem a responsabilidade de proteger as mulheres da violência, tanto a praticada pelo Estado como aquela perpetrada por grupos e indivíduos. Pressionado, o delegado local, Shah Yahan Nuri, prometeu fazer o possível para castigar os responsáveis «porque este tipo de decisão deve ser tomada pela magistratura e não por dirigentes locais». O novo governo também respondeu às pressões internacionais, prometendo investigar o caso e julgar os culpados pela aplicação de uma pena não só injusta e monstruosa mas, como aponta a Amnistia Internacional, irreparável. |