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02/10/2004 Uri
Avnery * Faz uns cem anos, a polícia secreta do czar russo amanhou um documento a que chamou “Protocolos dos Anciãos de Sião”. Os “autores” não foram particularmente originais; tomaram uma sátira, escrita umas décadas antes sobre as ambições de Napoleão III pela dominação do mundo, e substituíram o imperador francês por rabinos judeus. Segundo o documento revisto, os judeus estavam a conspirar para controlar o mundo, e os tentáculos desta conspiração atingiam qualquer parte. Quando esta patranha foi composta, o cenário era bastante rude. Na poderosa Rússia, que naquele tempo incluía uma grande parte de Polónia, os judeus mal tinham influência alguma. No Reich alemão, os judeus eram, certamente, proeminentes em alguns campos – tais como a banca, o comércio e a imprensa – mas eles estavam afastados dos centros de poder real. O Kaiser tinha‑os expulsado dos prestigiosos corpos de funcionários públicos e das escalas mais altas da burocracia. Os judeus proeminentes nas ciências podiam considerar-se com sorte se obtinham uma cátedra. Nos Estados Unidos alguns judeus fizeram‑se ricos, mas não podiam penetrar nas mais altas escalas da economia e da sociedade. Quão vazia era realmente a lenda do poder dos judeus, tornou‑se evidente quando os nazis, depois de subirem nas asas do anti-semitismo, aniquilaram aos judeus da Europa. Os judeus americanos e britânicos não puderam (e, certamente, sequer o tentaram a sério) empurrar os seus governos a fazer algo para salvar os seus irmãos. Ambos os governos tiveram medo de prover os nazis de munição, cuja propaganda afirmava que Roosevelt e Churchill eram reféns da Judiaria Internacional. Depois de um decente intervalo de varias décadas, os Anciãos de Sião voltaram de novo à cena nos últimos anos. A Internet está agora cheia de mensagens anti‑semitas que adaptam o velho e falsificado documento à presente realidade. Mas os velhos slogans repugnantes não mudaram nem um pouco. Em face disso, o trabalho dos anti‑semitas é agora muito mais fácil. Desde que foram “descobertos” os Protocolos muitas coisas mudaram no mundo. É verdade, o Holocausto erradicou quase todo o judaísmo da Europa, mas, no seu velório, o estado de Israel, que se define a si próprio como um Estado Judeu, veio à luz. E, mais importante, a comunidade judia nos Estados Unidos conseguiu uma posição comparável unicamente à Idade de Ouro dos judeus na medieval Espanha Muçulmana. De certo modo, as mentiras dos Protocolos cumpriram‑se. “Os Estados Unidos da América controlam o mundo”, dizem agora os anti‑semitas, “e os judeus controlam os Estados Unidos”. Em apoio disto, apontam para a guerra do Iraque. É bem conhecido que um grupo de “neoconservadores”, quase todos eles judeus, ocuparam posições de poder centrais em Washington e pressionaram para a invasão do Iraque. Em Alguns anos antes disto, membros deste grupo actuaram como conselheiros do então primeiro‑ministro de Israel, Benyamin Netanyahu. De acordo com os anti‑semitas, estes judeus venderam a guerra aos Estados Unidos com argumentos falazes, para eliminar o inimigo mais perigoso de Israel no Médio Oriente, o Iraque. Agora estão a conspirar contra os restantes dois inimigos de Israel, a Síria e o Irão. À primeira vista, mas só à primeira vista, há algo veraz nestes alegações. Os neoconservadores acreditam de facto que os interesses dos Estados Unidos e os de Israel coincidem, e certamente pressionaram para esta guerra. Mas um milhar de neoconservadores como Wolfowitz e Perle não teriam sido bem sucedidos nisto, sem a influência de outro grupo em Washington, muito mais poderoso, e muito menos visível: as pessoas do petróleo. A família de Bush e o Vice Presidente Dick Cheney representam os interesses deste grupo. Por detrás deles surge o imenso poder das companhias petrolíferas, em que os judeus mal desempenham papel algum. A sua intenção não era somente apoderar-se das imensas reservas do próprio Iraque, mas também implantar uma base militar e política americana permanente entre os imensos recursos petrolíferos do Mar Cáspio, no norte, e o golfo persa/arábico no sul. Isto, argumentam eles, para assegurar o domínio norte-americano num mundo onde o petróleo é um recurso minguante de vital importância para todas as economias industrializadas. Os neoconservadores forneceram unicamente o enfeite ideológico e a justificação moral. Poderia quase dizer-se que este é o tradicional trabalho atribuído aos judeus. É fácil para os anti‑semitas listar todos os nomes de judeus na administração norte‑americana. Tal como na Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial, durante a chamada República de Weimar, os judeus norte-americanos são proeminentes na administração, economia, meios de comunicação, direito, medicina e ciência. O lobby sionista jacta‑se abertamente (talvez demasiado abertamente) de que podem fazer cair qualquer senador ou congressista, homem ou mulher que critique Israel. Disso deram amplas provas. Alguém disse uma vez que se a AIPAC, o lobby judeu pró‑israelita, propusesse uma resolução ao congresso abolindo os Dez mandamentos, 80 senadores e 400 congressistas a assinariam no primeiro dia. A situação é especialmente notória no que concerne ao conflito israelo‑palestiniano. Durante o mandato do presidente Bill Clinton, quase toda a equipe que tratava deste problema era constituída por judeus. As suas reuniões com políticos israelitas poderiam facilmente ter-se feito em língua Yiddish. Com a chegada de George W. Bush, teve lugar uma mudança fundamental: os judeus liberais da equipe foram substituídos por judeus conservadores. Agora, também, quase todas as pessoas da administração norte-americana que lidam com os problemas do Oriente Médio são judeus. As publicações anti‑semitas fincam pé nestes factos – que são verdadeiros em si mesmos – para provar que os judeus controlam o mundo. Mas a realidade é mais complexa, de longe. É verdade que o lobby sionista é grande e forte, mas há outros igualmente tão grandes e fortes, senão mais, em alguns campos. Poderia mencionar-se a Associação Americana do Rifle, os lobbies dos médicos ou dos colégios de advogados e outros, e no campo político os ainda mais poderosos Evangelistas Cristãos. Muito para desgosto dos anti‑semitas, este lobby é também completamente devoto a Israel. De facto, os Evangelistas Cristãos, especialmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, inventaram o moderno sionismo muito antes de Theodor Herzl e os seus colegas adoptarem esta ideia. A comunidade judia norte-americana está orgulhosa desta influência. Isto é compreensível, se recordarmos que faz apenas duas gerações os judeus não eram admitidos nos clubs importantes (recordando com sarcasmo o comediante judeu Groucho Marx: «Não quero pertencer a um clube que me aceite como membro!»). A sua surpreendente ascensão foi o resultado de trabalho duro, talento organizado e boa disposição para doar dinheiro. Mas qualquer especialista em história judia poderia suspeitar, como o provérbio Yiddish diz, «Die kalle ist zu shein» («A noiva é demasiado bonita.») Depois da Idade de Ouro, todos os judeus foram expulsos de Espanha. Depois do brilhante sucessos dos judeus na Alemanha, os nazis chegaram ao poder. Hoje, os anti‑semitas dos Estados Unidos são um grupo ruidoso, marginal e desprezado, mas é um erro ignorar o perigo. Que aconteceria, por exemplo, se os Estados Unidos se afundassem ainda mais no sangrento pântano do Iraque, numa atmosfera de calamidade nacional? Quando se procure um bode expiatório, os judeus neoconservadores sobressairão. Que se passaria se os norte‑americanos começassem a perguntar-se sobre as raízes do terrorismo de muçulmanos fanáticos? Não haverá ninguém que diga então que a América entrou no choque de civilizações com o mundo Islâmico somente por causa de Israel? E se os Estados Unidos caem numa profunda depressão económica, poderão os nomes judeus – como o do chefe da Reserva Federal – não ser mencionados? Não devem exagerar-se estes
perigos. No presente, mal são pintas no horizonte. Mas eu aconselharia os
líderes das instituições judias dos Estados Unidos a exercer algumas auto‑restrições.
E também aconselharia o governo de Israel a não pôr todos os seus ovos em um
cesto. |
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* Jornalista, escritor
e activista da paz israelita