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22/03/2007 André Levy * As escaladas militares são precedidas na época moderna por uma
ofensiva ideológica e propagandística. Os meios de comunicação social, nas
mãos de umas poucas transnacionais, difundem fielmente e sem questionar
muitas das falsificações enviesadas lançadas pelos governos beligerantes com
o objectivo de diabolizar culturas e os seus lideres. Estes preparam assim o
terreno para a aceitação pelas suas populações de acções militares e das
fatalidades que estas implicam. Torna-se pois a responsabilidade de qualquer
e todo o cidadão fazer o trabalho que muitas vezes não é feito pelos
jornalistas (ou permitidos pelas corporações que os empregam) – verificar as
afirmações repetidas vezes sem conta, ler os discursos e relatórios
originais, e procurar análises alternativas. Vivemos actualmente uma fase em
tudo semelhante à escalada propagandística que precedeu a invasão do Iraque,
desta feita com as miras apontadas para o Irão. Uma ofensiva contra o Irão
traz sérios riscos para o Médio Oriente e para o Mundo, pelo que avaliar o
que é afirmado relativamente ao Irão assume uma importância acrescida.
Segue-se o que considero serem várias mistificações sobre o Irão e alguns
factos que as contradizem. MITO – O Irão está a desenvolver armas nucleares FACTO – Não existem quaisquer provas de que o Irão tenha um programa
de armas nucleares. As inspecções nos últimos três anos não encontraram qualquer
programa de armamento nuclear. Já tiveram lugar mais de 2.200 pessoas/horas
de inspecções das instalações nucleares do Irão pela Agência Internacional de
Energia Atómica (IAEA), e Mohammed El Baradei já afirmou que não há qualquer
evidência de que o Irão tenha um programa de armas nucleares. Em 2005, o
Ayatollah Khamenei, Líder Supremo do Irão, emitiu um decreto religioso (fatwa)
proibindo a produção e o uso de armas nucleares. MITO – O Irão está a enriquecer urânio FACTO – O enriquecimento de urânio para ser usado como fonte de
energia doméstica é um direito inalienável sob o NPT. Crê-se que o Irão
enriquece o urânio até 3,5%, o suficiente para combustível nuclear, mas seria
necessário um enriquecimento com 90% de pureza, e 50-100 quilos desse material,
para produzir uma única bomba. Até o relatório oficial da CIA de 2005 conclui
que o Irão precisará de pelo menos 10 anos para ter capacidade para produzir
uma arma nuclear. A IAEA afirma que existem mil centrifugadoras em operação
no programa nuclear; especialistas dizem que seriam necessárias três mil
centrifugadoras operando durante um ano para produzir combustível com
qualidade para armamento nuclear. MITO – Inspectores têm encontrado vestígios de urânio altamente
enriquecido FACTO – Em 2004 inspectores encontraram vestígios de urânio altamente
enriquecido na fábrica em Natanz. Em 2005, a IAEA confirmou que este urânio
era paquistanês e chegou a Natanz em virtude de centrifugadoras importadas. MITO – Com tanto gás natural, a única razão para o Irão ter centrais
nucleares é desenvolver armas nucleares FACTO – A estratégia económica iraniana pressupõe que a produção
doméstica de petróleo e gás natural possa ser canalizada para a exportação.
Aliás, esta estratégia económica foi apoiada pelos EUA nos anos 70, no
contexto da crise de petróleo, altura em que o Irão era liderado pelo Xá e
Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz estavam na Casa Branca. Nessa
altura, o presidente Ford autorizou a venda de material para o enriquecimento
e processamento de urânio ao Irão em troca deste comprar oito reactores
nucleares aos EUA. MITO – O Irão está actualmente a bloquear as inspecções da IAEA FACTO – O Irão tem cumprido todos os requisitos e permitido as
inspecções da IAEA. Assinou o Protocolo Adicional ao Tratado de
Não-Proliferação (NPT) e durante boa parte dos últimos três anos permitiu aos
inspectores «ir a todo o lado e ver tudo». Depois de ter sido referido ao
Conselho de Segurança da ONU o ano passado, o Irão retirou-se voluntariamente
do Protocolo Adicional. Contudo está ainda em cumprimento completo com as
suas obrigações internacionais e a permitir inspecções. Inspectores do IAEA
foram às instalações nucleares em Isfahan e Natanz a 10-12 Janeiro 2007.
Veja-se o relatório mais recente da IAEA (Fevereiro 2007). MITO – A ONU aprovou legitimamente uma resolução que o Irão não
cumpriu FACTO – Não existe fundamento para a Resolução 1.737 sob a lei
internacional, e foi questionado se não foram exercidas pressões políticas
sobre os membros do Conselho de Segurança para votar a resolução. Sem
evidências de que o Irão tenha usado as suas instalações nucleares civis para
fins militares e tendo em conta que coopera na totalidade com a IAEA, não
existe razão, ao abrigo do NPT, para referir o Irão ao Conselho de Segurança
ou para este aprovar a Resolução 1.737. Esta resolução deu ao Irão 60 dias
para terminar o enriquecimento do urânio. Este prazo já foi ultrapassado e os
EUA irão sem dúvida tentar aprovar outra resolução envolvendo medidas mais
fortes, nomeadamente intervenção militar. Em Junho de 2006, 56 nações aprovaram a Declaração de Baku onde se
afirma que «a única maneira de resolver o tema nuclear do Irão é reassumir
negociações sem quaisquer pré-condições e melhorar a cooperação com o
envolvimento de todas as partes relevantes». De igual modo, o movimento dos
Não‑Alinhados, representando a maioria da comunidade internacional,
reconheceu o direito do Irão a tecnologia nuclear civil. MITO – O Irão rejeita negociar a suspensão do seu programa militar FACTO – Em Maio de 2003, após a derrota de Saddam, o Irão fez chegar
aos EUA, através do embaixador suíço, uma proposta de processo negocial, na
qual o Irão propunha discutir o desarmamento do Hezbollah, o fim do apoio ao
Hamas e à Jihad Islâmica, a transparência do programa nuclear, a sua
contribuição para estabilizar o Iraque, e a assinatura da Declaração de
Beirute (reconhecendo Israel). A proposta foi ignorada por Karl Rove;
Condoleezza Rice, a então Conselheira de Segurança Nacional, diz nunca ter sabido
da proposta. Em Março de 2007, Ali Asghar Soltanieh, embaixador iraniano à
IAEA, declarou-se disposto a sentar-se à mesa de negociações para discutir
todos os temas, sem colocar limitações aos parceiros. Mas o Irão tem
rejeitado a pré‑condição, exigida pelos EUA e UE, de suspensão do
enriquecimento de urânio por parte do Irão. MITO – O Irão está a hospedar membros da al-Qaeda FACTO – Não existe qualquer evidência de que o Irão, maioritariamente
xiita, esteja a colaborar com a al‑Qaeda, enraizada entre os sunitas,
particularmente da corrente Wahhabi, historicamente oposta à denominação
xiita. O Irão condenou os ataques do Onze de Setembro e apoiou os ataques
contra os talibã. Seymour Hersh [1] revelou que a demissão de John Negroponte
como Director Nacional de Inteligência se deveu à sua oposição ao apoio
secreto dado pela Administração Bush a grupos radicais sunitas, alguns com
ligações à al-Qaeda, para combater grupos xiitas apoiados pelo Irão. MITO – O Irão está a fornecer armas e inteligência aos insurgentes
iraquianos FACTO – O Irão apoia algumas organizações iraquianas xiitas, em
particular o Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, o segundo
maior grupo no parlamento, grupo este que também recebe apoio dos EUA; o seu
líder, Abdelaziz Hakim, esteve na Casa Branca em Dezembro. Mas não existe
evidência de apoio militar do governo iraniano aos insurgentes iraquianos. McClatchy
Newspapers revelou, em Março de 2007, que 90% dos ataques a tropas
estadunidenses no Iraque ocorreram em zonas sunitas, isto é, que a maioria
dos ataques aos EUA no Iraque não ocorrem em zonas de influência do Irão. O
General Peter Pace, presidente da Junta de Chefes de Estado (Joint Chiefs of
Staff), admitiu numa conferência de imprensa do Pentágono em Janeiro de 2007
que não há evidência de que o governo iraniano esteja a enviar equipamento
militar ou pessoal para o Iraque. Em Fevereiro, o Wall Street Journal noticiou
que os militares dos EUA descobriram uma fábrica em Jedidah, no sul do
Iraque, capaz de construir as bombas usadas em ataques rodoviários (explosively
formed penetrators, ou EFPs), que os EUA alegaram só poderiam ser
produzidas no Irão. O New York Times notou que vários artigos
recuperados na fábrica obviamente não foram produzidos no Irão, incluindo uma
caixa com a inscrição «made in Haditha», uma cidade iraquiana. MITO – O Irão está a planear destruir Israel FACTO – O Irão não tem o poder militar para constituir uma ameaça
objectiva a Israel, nem nunca lançou qualquer ataque militar contra Israel. O
comentário de Ahmadinejad, pronunciado originalmente na Conferência “Um mundo
sem sionismo”, em Outubro de 2005, de que Israel «deve desaparecer do mapa»,
tem sido repetidamente interpretado como a intenção de destruir Israel. No
entanto, vários analistas fizeram notar que a tradução do original, em persa,
é controversa, e que seria mais correctamente traduzido como «o regime
ocupando Jerusalém deve desaparecer da página do tempo», expressando desejo
de que o regime sionista de Israel fosse substituído, e não que o povo
israelita fosse exterminado. Ahmadinejad tem apelado para a mudança do regime
no poder, da mesma forma que a União Soviética sofreu uma mudança de regime.
Afirma‑se que a retórica do Presidente Ahmadinejad contra Israel é
inflamatória. Contudo, deve ser feita uma distinção entre retórica agressiva
e verdadeiras ameaças. MITO – O Irão é uma ameaça à estabilidade da região FACTO – O Irão está rodeado a oeste, norte e este por países com
armas nucleares – os EUA (no Iraque e Afeganistão), Israel, Rússia, China,
Índia e Paquistão, e agora a Coreia do Norte. O Irão não invadiu ou ameaçou
qualquer país nos passados 250 anos. A única guerra travada pelo Irão foi-lhe
imposta pelo exército de Saddam, que invadiu o Irão com o apoio dos EUA e
seus aliados. Um ataque ao Irão iria causar instabilidade na região e no
mundo, tal como a invasão e ocupação do Iraque. Como reconhecido pelo
relatório Baker/Hamilton do Grupo de Estudo do Iraque, o Irão constitui uma
força diplomática a recrutar para atingir a estabilidade no Iraque. A
demonstrá-lo, em Fevereiro, o Iraque convidou o Irão e a Síria a participar
em encontros regionais para trabalhar pela paz e estabilidade na região. MITO – O Irão não é uma democracia FACTO – O Irão não terá uma democracia à imagem dos países
ocidentais, mas tem um processo de sufrágio universal para eleger o
presidente, que em 2005 contou com a participação de cerca de 60% dos
eleitores na primeira e segunda volta. Igualmente relevante, tem uma
sociedade civil muito diversificada e interveniente. Qualquer assalto militar
no país irá fortalecer enormemente as forças políticas antidemocráticas. As
organizações emergentes da sociedade civil no Irão seriam as primeiras
vítimas de um ataque militar de outro país. O povo Iraniano como um todo
opõe-se a uma acção militar contra o Irão. MITO – Pressionar o Irão não está relacionado com objectivos
geoestratégicos para controlar o seu petróleo e gás natural FACTO – O Irão detém a terceira maior reserva de petróleo no mundo,
depois da Arábia Saudita e Iraque, e conjuntamente possui mais petróleo e gás
natural que qualquer outro país no planeta, tendo recentemente transitado de
petrodólares para uma bolsa baseada em euros, à semelhança do sucedido no
Iraque pouco antes da sua recente ocupação. A troca de petrodólares por euros
traz implicações monetárias de grande significado para os EUA, que possui um
défice em conta corrente na ordem dos 800 mil milhões de dólares. MITO – Os EUA não vão alvejar militarmente o Irão FACTO – Já foram iniciadas operações militares estadunidenses em
território iraniano, incluindo sobrevoos e operações terrestres de
reconhecimento de potenciais alvos e perseguição de operativos iranianos. Em
Janeiro, um segundo porta-aviões da marinha dos EUA foi enviado para o Golfo
Pérsico, juntamente com os navios de apoio (limpa minas, etc.); sistemas
mísseis de defesa Patriot foram também destacados para o Golfo. O Pentágono
estabeleceu um grupo de planeamento especial para desenhar um plano de bombardeamento
do Irão [1]. Uma invasão terrestre do Irão é pouco provável. É possível,
porém, que os EUA usem o seu massivo poderio aéreo para destruir a
infra-estrutura civil e militar do Irão. Uma invasão terrestre limitada
poderia então tomar a província do Khuzestão que faz fronteira com o Iraque e
possui 90% das reservas de petróleo e gás. Israel tem já um plano de ataque
sobre as centrais nucleares [2], podendo os EUA ser levado a intervir se
Israel atacar primeiro. _______ * Biólogo e publicista. É autor do blog Jangada de Pedra, associado
do IA. [1] New Yorker, 5 de Março de 2007. [2] Uzi Mahnaimi e Sarah Baxter, Sunday Times, 7 de Janeiro
2007. |