Informação Alternativa

Mundo

25/05/2007

 

Começa a insurreição contra a ditadura dos meios de comunicação

– Dois encontros internacionais, em Caracas e Cochabamba,

e o fim de uma concessão televisiva na Venezuela –

 

Pascual Serrano

Rebelión

 

Acabo de compartilhar dois interessantes eventos relacionados com a informação e os meios de comunicação. Desenrolaram-se consecutivamente em Caracas e na bela cidade boliviana de Cochabamba. O primeiro deles foi organizado nos dias 18, 19 e 20 pelo canal de televisão Telesur sob o título “O direito a informar e estar informado. Um debate sobre a propriedade dos meios de comunicação”. Durante três dias, meia centena de jornalistas, responsáveis de meios de comunicação ou académicos aproveitaram o debate social que se está a desenvolver na Venezuela perante a decisão do governo de não renovar a concessão da licença de emissão a uma televisão privada, para ir mais além e analisar qual deve ser o papel dos estados, como está a maioria dos meios de comunicação a manusear a informação e como se pode desenvolver a participação cidadã e a propriedade social destes meios. Em Cochabamba, também durante dois dias, a 23 e 24 de Maio, celebrava­‑se o V Encontro Mundial de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade sob o tema “Em defesa da verdade e contra a manipulação mediática”.

 

A sensação que se respirava no ambiente de ambos os encontros era similar: uma cidadania e um relevante colectivo intelectual e social indignado com um modelo comunicacional controlado por uma elite económica. A percepção era a de que, apropriando­‑se para seu proveito dos nobres conceitos da liberdade de imprensa e de liberdade de expressão, os tinham cerceado para os converter tão só na sua exclusiva potestade de controlar quem pode e quem não pode aceder aos meios de comunicação para poder difundir a sua mensagem, e o que se pode difundir ou não. Para milhões de pessoas, esses direitos nada significam porque nunca vão poder utilizar esses meios de comunicação para fazer chegar a sua informação e o seu pensamento aos seus semelhantes, nem ninguém lhes vai garantir que o conteúdo que esses meios lhes transmita será veraz e garantirá o seu direito cidadão a estar informado. Como se disse numa dessas jornadas, estamos perante «um surdo falando a milhões de mudos».

 

Mas o assunto era ainda mais grave. Quando algum Estado pretendia aplicar medidas que garantissem o uso público de elementos relacionados com os media – como o espaço radioeléctrico ou a difusão de mensagens de conteúdo social – ou tentava aplicar medidas sancionadoras para aqueles que mentissem, enganassem, não informassem ou utilizam os media como mero método de plataforma política para atingir o poder, ainda que seja mediante a desestabilização, a violência e o derrocamento de um governo, esse Estado era acusado de atentar contra a liberdade de expressão.

 

Recordo em Cochabamba um jornalista ucraniano contando-nos a vergonhosa situação da imprensa do seu país, onde metade dos rendimentos do jornalista procediam do suborno de empresas. Isso que resultava indignante para todos, não era muito diferente do modelo legal vigente, onde precisamente aproximadamente cinquenta por cento dos rendimentos dos meios de comunicação procede da publicidade das empresas. O método é o mesmo, condicionar os conteúdos mediante o pagamento de dinheiro que acaba por ser imprescindível para o funcionamento do meio de comunicação e para a sobrevivência do jornalista.

 

Nestes dois encontros, um clamor gritava que já era hora de que a democratização, a participação cidadã e o império da lei chegassem aos meios de comunicação. Na situação actual, um ministro apoiado pelo voto de milhões de cidadãos não tem garantido o acesso aos meios de comunicação, uma multitudinária manifestação popular pode ser silenciada se não for do gosto dos proprietários do meio de comunicação e qualquer tentativa de lhes pedir explicações e compromissos com o direito cidadão a receber informação veraz é respondida com a acusação de intervencionismo estatal e agressão à liberdade de expressão.

 

Como não podia deixar de ser, enquanto dezenas de meios de comunicação alternativos e comunitários recolhiam os comentários, as opiniões e as propostas dos participantes de Caracas e Cochabamba, os meios de massas reservavam os lugares mais nobres das suas páginas de opinião para criticar as análises que saíam à luz nestas duas jornadas: «promovem-se encontros e seminários, em alguma medida promovidos pela Venezuela e por Cuba, nos quais se questiona o trabalho dos meios de comunicação e a necessidade de os ajustar [de forma] que os governos lhes restrinjam o campo da crítica», afirmava no fim do seu editorial o jornal Los Tiempos da Bolívia.

 

É evidente que os campos desta confrontação que se aproxima se vão delimitando. Por um lado, grandes meios de comunicação, propriedade de poderosas empresas associadas em torno de instituições como a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) no caso desse continente, associações que se apresentam como defensoras da liberdade de imprensa mas financiadas pelo governo dos Estados Unidos com o objectivo de investir contra governos não submissos, como é o caso da Repórteres sem Fronteiras, governos acomodados num modelo informativo que não deixa lugar para ideias que questionem o neoliberalismo ou o mercado, acusem as políticas dos Estados Unidos e da União Europeia de intervenções militares e saques nos países pobres ou defendam e queiram contar os avanços dos processos populares emergentes na América Latina. Frente a este eixo conservador existem organizações massivas de jornalistas conscientes da necessidade de que a sua profissão não dependa de decisões empresariais, como a Federação Latino­‑americana de Imprensa (FELAP), projectos informativos dos quais se espera posições alternativas ao modelo de informação vigente nas grandes agências, como a Al Jazeera ou a Telesur, numerosos profissionais da comunicação que não deixam de se organizar e se coordenar para assinalar as manipulações, mentiras e interesses que os grandes meios de comunicação servem, e governos que estão a sofrer e a compreender a necessidade de que a mesma democracia e participação cidadã que os alçou ao poder e lhes exige reformas no seu país, deve chegar aos meios de comunicação se não os quiserem ter como principal bateria de desestabilização política. São todos estes últimos os que disseram basta, e já começam a levantar-se contra a ditadura mediática vigente, essa que suprime a voz dos críticos ao sistema económico imperante, não permite que as leis democráticas corroam os privilégios dos empresas multinacionais de comunicação e se arroga o direito a tirar e pôr governos.

 

Neste domingo, 27 de Maio, finaliza a concessão à televisão privada venezuelana RCTV, o seu sinal passará agora a ser público. O eixo neoliberal está a promover uma forte campanha contra o governo de Hugo Chávez acusando­‑o de atentar contra a liberdade de expressão apenas por defender o uso público do espaço radioeléctrico e a competência do Estado para distribuir as concessões, tal e como fazem todos os países. É só o princípio de uma dura batalha entre uma ditadura mediática que vai perdendo o seu poder e uma insurreição cidadã que, com a ajuda de governos dignos e populares, exige democracia e participação na informação.