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16/05/2007
O Grupo dos Onze: Todo o Poder aos Servinets! [1] César Príncipe Aqui chegados, ao badalado tempo-fronteira (século XXI/II milénio),
em termos de Comunicação Social, implica reconhecer que a dita CS exprime o
estado da generalidade do país: entregue a uma série de clãs, apostados no sisTema
único e, sempre que vital, no pensaMento único. Nas celebrações do
25 de Abril, de resto, a clivagem já não se mune de artifícios: quem for de
Direita assinala a data como 30 anos após o 25 de Abril; quem for de
Esquerda festeja a data como 30 anos de 25 de Abril. As posições foram-se
definindo no decorrer das três décadas e não há retóRica que esconda o
sentido dos aconTecimentos: o 25 de Abril foi e é contra a Direita, obrigada
a ser democrática por obra e graça de uma rebelião militar, sufragada
e propulsionada nos quartéis, nas ruas, nos bairros, nas emPresas, nos
campos, nas esColas e demais organismos públicos e, finalmente, sufragada por
Eleições Constituintes. AgOra, a Comunicação Social é o espelho que ajuda a
construir as imagens que reflecte: uma situação de retrocesso das chAmadas conquistas
de Abril, desrespeitadas ou relativizadas em toda a linha desde 25 de
Novembro de 1975. Bastará abrir um pouco os olhos e outro tanto os ouvidos: a
Comunicação escapa ao Controlo Social, plenamente doMinada pelo mesmo grupo
poLítico (a Direita neoliberal bipoLARizadora), desDobrada em onze grupos
económicos. Isto é, milhões de telespectaDores, radiouvintes e leitores estão
sujeitos a uma Agenda que conFere ou retira importância a fActos e imPactos,
ideias e ideólogos, proPostas e proponEntes. Assim, se implantou a Nova Ordem
Inter (nacional) da InforMação e da DiVersão. O panorama da Liberdade de InFormação e de ExPressão em Portugal, 30
anos após o 25 de Abril, pode ser medido pelo cadAstro de tais grupos
e pela natureza das suas produções: embora se reduzam a 11, qual equipa de
futebol, estes donos da bola são senhores das SAD’s, dos plantéis, das
arbitragens e dos adeptos. Neste Portugal‑rectângulo continental do
EURO, quem mais ordena são os onze: compete-lhes administrar as nossas
preocupações e as nossas fantasias; seLeccionar as elites dos diversos
poderes, começando pelas da GoverNoção e terminando nas da GoverNação. Esta
estratégia de dependência assenta na TriPróTese: na chipização dos rebAnhos
huManos através do Televisor, do Telemóvel e do Computador. A utilização
pervertida destes teledispositivos na organização dos ritos comunitários e na
modelação das derivas ou das afirmações individualizantes assume um papel que
obVIAmente transcende o mercado comportaMental português: constitui uma peça
central da didáctica gloBalizadora. Para cumprir o desígnio do primado da concorrência entre os grandes
para controLar os pequenos, entre os ricos para controLar os pobres, entre os
esPertinhos e os esperTalhaços para controLar os estúpidos e conter os
lúcidos, as indústrias da ConsCiência Nacional/Internacional conTrataram e
conTratam recursos humanos da Idade Média Electrónica: os serviNets da
sobrevivência, entre a revolta, a angústia e mecanização colabOrante, logo,
entre o recibo verde, a resCisão amigável e a prateLEIra; os ServiNets da
Subserviência, entre o carro da emPresa, o cartão de créDito e a ROTAtividade
de palcos e parlatórios. Registam-se algumas pequenas brechas na Muralha
de Aço da Direita (aço electrónico, pós-modernista), mas que não suprem o
défice de democracia inFormativa/formativa. Nestes 30 anos de 25
Abril, restam alguns semanários e mensários de restrita audiência e algumas
intervenções nos órgãos de maior audiência como sinais (quase nostÁlgicos) de
uma revolução social e cultural, entretanto, desfigurada pela Direita
Inteligente, que pende para a Direita InsoLente. Com efeito, as figuras embLemáticas do 25 de Abril foram
substituídas por figurantes, figurinhas e figurões, um escol de generalistas
de todas as especialidades e de debutantes do paraSitismo de sucesso. A
Revolução dos Capitães de Abril é, agora, protAgonizada pelos Capitães do Derby
e as multidões com Voz já gritam mais nos estádios do que nas ruas ou
emPresas: transcorridos 30 anos, o Novo Regime expõe as cicatrizes do tempo,
dos recuos de uns e dos avanços de outros, nas várias instâncias de
repreSentação eleitoral e de gestão de compromissos e a Comunicação Social é
um dispositivo-chave nas reciclagens de tendências e na carneirização de
escrutínios e condutas. Na estratégia de controlo da opinião pública, o Grupo dos Onze
socorre-se de uma divisa: Todo o Poder aos ServiNets!. (Em linguagem
descodificada: todo o poder aos que nos servem (aos onze), serventuários
ornados com tecnologias de ponta, haVendo embOra que distinguir serviNets peados
e apeados e Servinets afidalGados e cavaleiros). A procLAMAtória
diVisa é uma resPosta à Revolução de Outubro: Todo o Poder aos Sovietes! O
Grupo dos Onze confia, pois, as suas vinganças de classe aos serviçais
electrónicos, enCarregando os CHIPaios de manter a Ordem InFormacional: eles
organizam o dia a dia das temáticas e das probLemáticas (autóctones e estranGeiras),
de modo que os donos da bola repousem sem sobressAltos do POVO/MFA.
Então, os serviNets (melhor, as chefias Computer) empreendem
uma ciclópica tarefa: empolam o superficial e despistante e desvalorizam o
fundaMental e o inquietante. E pensam. E reúnem-se para pensar. A agenda. A
agenda. A agenda. Como inventar uma exceLente agenda? E concluem, misteriosaMente
concluem todos da mesma maneira, salvo nuances de estilo ou de
episóDicas contraDicções de seguidismos e infedilIdades inter-gruPais. Então, face à realidade, face ao peso da Política, da Economia, da
Sociedade, da Cultura, áreas que urge manter nos mais baixos limiAres da
conflitualidade e das expectativas popuLares, os agenDadores deterMinam que
só há uma saída para o progresso das emPresas e a pacificação dos empreGados:
inVerter a gravidade do diagnóstico, a hierarquia da objectividade. Então, em
lugar de conferir o devido tempo e o equitativo esPaço à Política, à
Economia, à Sociedade e à Cultura, os agendaDores ou serviNets adornam
as páginas e as grelhas com os grandes assUntos da Pátria, da Europa e do
Mundo: Futebol aos pontapés noite e dia, Televisão sem Interrupção Voluntária
da Gravidez, Economia Liberal, Sexo Liberal e Religião Ortodoxa. Quanto aos
temas resiDentes mais sérios ou institucionais ou de Educação
Ideológica Básica – irromperão as brigadas dramatúrgicas: os actores
avançados e avençados e o zoo funambulesco do BCI/Bloco Central de
Interesses. Os donos da bola dos portugueses, pelo menos de numerosos, de
demasiados portugueses, têm nome, embora alguns não tenham rosto. Cabe-lhes o
encargo de zeLar pela tranquilidade do sisTema e de seus dividendos: pelo
primado do regime económico e a alieNação circense. Com efeito, o universo
mediático não se limita a cumprir uma função de controlo social – ele é
instaurado e gerido no Universo da Economia Global para acrescentar
mais-valias diversificadas. Eis um enquadraMento desta nebulosa industrial-mercantil: «Hoje, a relação entre inFormação, cultura, tecnologias da
inFormação e da informática, serviços e redes de comunicações, em termos de
combinação de interesses económico-industriais, científico‑tecnológicos
e político‑estatais, é já difícil de distrinçar. Esta conectividade
possibilitou a constituição de um sector económico‑industrial de
primeiro plano, o sistema multimix dos média (associação de tecnologia,
serviço de notícias, base de dados, imagens e fotos, etc.) tanto em certos
países como à escala internacional. Já no começo da presente década, o
mercado mundial da InFormação constituía um negócio de 1,6 biliões de
dólares, sendo que as vendas anuais correspondiam a 12% do volume mundial de
produção industrial. Nos EUA, a indústria da InFormação participa em mais de
metade do PIB e é cada vez mais crescente o peso deste sector no emprego.» [2] Eis a Árvore Genealógica (em permanente alteRação de copa, tronco e raízes)
do PMN/Poder Mediático Nacional e suas ramificações extraterritoriais, todas
de raiz conservadora e de implantação beduína: PRINCIPAIS GRUPOS DE MÉDIA EM PORTUGAL
Confrontados com este organigrAma, é patente o quadro de uma
inFormação mercadoLógica e normalizada, saltando aos olhos a ausência de uma
inFormação alternativa ou sequer plural, que alargue o campo contrastante da
verdade, da objectividade-subjectividade, da contratualização social – esta
soterrada pela Agenda da Omissão ou da Incomunicação Social. O actual campo é
controlado pelo Grupo dos Onze e mais uns actores seLectivos, em geral,
ideologicaMente contaMinados pela vaga de fundo. Hoje como ontem. Na
verdade, no declínio do regime fascista, também a inFormação era racionada e
manipulada por meia dúzia de actores princiPais, a saber: Banco
Intercontinental Português – O Século, O Século Ilustrado, A Vida
Mundial, Modas e Bordados; Borges & Irmão – Diário Popular, Jornal
do Comércio, Comércio do Porto, Flama e Rádio e Televisão (revistas),
Alfabeta (Emissores Associados de Lisboa); Banco Nacional Ultramarino –
Diário de Lisboa; CUF/Tabaqueira – A Capital; Portugal &
Colónias – Diário de Notícias e Jornal de Notícias; Manuel Pinto de
Azevedo – O Primeiro de Janeiro; Igreja Católica – Rádio
Renascença, A Voz, Novidades, dezenas de publicações locais; Estado – TV,
Emissora Nacional, A Época, Agências ANI e Lusitânia e sobretudo a Censura/Exame
Prévio, o grande aparelho de desinFormação da ditadura ou da Agenda Oculta. Assim, perante o quadro da passada tirania e da presente democracia,
perante a situação-limite de muitos portugueses e de biliões de outros seres
humanos (quer quanto às condições de dignIdade bioLógica, quer quanto às
condições de cidadania política e cultural) impõe-se uma resistência a toda a
prova. Para não se cair na patologia da passividade é imprescindível que, na
proclAmada Sociedade do ConheCimento (não será antes Sociedade do
DesconheCimento?), cada actor da civilização ou da civilinFormação saiba com
que espectro conta, com que adversários e aliados conta nas relações com as
fontes e projecções de interesses e desinteresses. Estamos num período de reorganização nacional e planetária do patroNet
e do patroNATO. As classes e os grupos sociais discriMinados pelo Grupo
dos Onze têm que reaprender as regras conspirativas e de suspeita
sisTemática, já ancestrais, de luta contra as lixeiras e lavandarias do
sisTema, contra os censores e os manipuladores nouvelle vague ou on-line,
contra a DitaDura da Mediocridade que se pretende legitimar, sob o bondoso
nome de Democracia da Função Liderante e da Organização de Libré Iniciativa,
da Opinião Dominante ou do Totalitarismo das Audiências, que não passa de uma
opinião doMinada nem criticamente auDitada. Uma das desmistificações que imPorta empreender é a da Liberdade de InFormação
e de ExPressão nas chAmadas Democracias Formais. A campanha de denúncia exige
toda a experiência e toda a teoria dos clássicos e dos contemporâneos. A Nova
Economia encerra e fomenta todos os impulsos genÉticos da Velha Ordem ou da Lei
da Selva: o domínio senhorial, colonial e imperial, não obstante algumas sofisticações
discursivas e alguns procediMentos de auscultação pública. Auscultação, de
resto, tendencialMente dirigida ou induzida pelos ausculTraidores, pelos
fabricantes de escrutínios, pelos modelaDores de sondagens, pelos maestros,
cenógrafos e COReógrafos da legitimidade do dito e do interDito, Arco da
Evidente e do Oculto que vai dos temas ditos sérios aos assuntos da Imprensa
de Salão de Cabeleireiro ou de Consultório Médico. Assim se produz um jornalismo de massas ao serViço das massas do
jornalismo. E não faltam megafonistas do sisTema para entreTer os
prisioneiros do Circo Mediático, nem vulgatas universitárias para branquear
as dinâmicas de inovação e os perfis de produtos e consumiDores. Cada ciclo
fornece a sua vaga de actores pantominodramáticos e cientistas de
oportunidades. Está visto que, no universo da InFormação, a nossa democracia se
baseia num pActo de confiança temporÁria entre patroNets e serviNets
(até os adminisTrataDores, directores e chefes são descartáveis),
formando uma corpoRação de mandantes e manDados com o acorDado ou
subentendido propósito de não deixar o povo ir ao oftalmologista. E jamais
escassearão abordáveis e voluntários para os trabalhos sujos do
sisTema ou para eleger os deterGentes para as máquinas de aPagar
aconTecimentos e pontos de vista. Compete-lhes zelar pela paz civil e
aprofunDar a conFusão mental, não se levantando as barreiras do ROTAtivismo
situacionista. Na realidade, embora haja quem considere um princíPio virtuoso
que um órgão de comunicação explicite o seu alinhaMento ideoLógico, poLítico,
eleitoral – caso de Pina Moura [4] – o irrebatível é que tal alinhaMento não passa de
um segundo grau de embuste, passando-se da fase adulterina ao casamento de
conveniência. Execeptuando os órgãos partidários, de reduzida audiência,
todos os média se acham no mesmo campo, bastando não se ser muito destituído
para surpreender quem é chien de garde de quem. Assim, a divisão ou o
aclaraMento não se faria entre Direita e Esquerda, Capitalismo ou Socialismo,
mas entre os partidos ou coligações da área da bipoLARização, da alternância
sisTémica. Portanto, em Portugal, pequeno palco do cosmomédia, grosso modo,
as fidelizações editoriais já se dividem e dividir-se-ão entre PSD e PS,
sendo que, observadas as diferenças, a mais notória é que uma das formações
conta com mais uma letra, fingindo uma que é mais democrata e outra que é
mais social. A tida por saudável aclaRação da linha só demarcaria com maior
precisão o mapa de influência dos gestores de turno da GloBalização à
Portuguesa. Na particular concepção de Pina Moura, apenas se poderá desvendar
um sentido expLiCitador: conhecido por ser um homem-forte de Castela
em Portugal, ele está a procurar que, à maneira de 1494, agora se celebre um
Tratado de Tordesinhas Mediático. Quanto à Economia Lusa e à PoLítica de Expansão,
elas já caíram, em parte considerável, pela calada, na zona de soberania dos
novos Reis Católicos. Monarcas que, no entanto, prevenindo algum
ressurgiMento de anticastelhanismo, começam a acentuar os inVestiMentos num
aparelho ideoLógico (jornalístico e livreiro), a fim de iberizar as populaças
e as elites, para além de contribuir para manter a Ordem Estratégica
Atlântica. No fundo, no fundo, cumpre aos patronets e seus servinets substituir,
com vantagem, os censores de decénios de Fascismo e de séculos de Inquisição,
emprestando à gestão das evidências um simulacro de liberdade e diversidade
editoriais (mais gráficas do que ideoLógicas ou factoLógicas) e apostando nas
eMoções do dia ou nos aconTecimentos da semana: assim se realizam as metas
comerciais e poLíticas, sempre que possível com algum pluralismo marginal ou
de rodapé, pois é mister tolerar ou encenar alguma biodiversidade no País dos
Onze e no Planeta do Pensamento Único. O sisTema rapidaMente os
treinou para a obediência pavónica e rapidaMente os motivou para o caninismo
raivoso ou o carreirismo-light. Os servinets sabem que têm Onze
patroNets. Também sabem que a vida está difícil e dilemática para os
que teimam em manter a marcha na posição eRecta. Depois do PREC/Período
Revolucionário em Curso (em que alguns dos servinets militaram), eis‑nos
em pleno PEC/Período Evolucionário em Curso. Evoluem na continuidade. Por isso, na sua pós-gaduação marcelista, anuíram mudar o nome à
Censura: agora, já nem sequer se designa Exame Prévio: é mais adequada, em
democracia, a desigNação de Agenda. Também há quem enalTeça o roubo como
poder de iniciativa, quem normalize o estupro como orientação sexual e quem
situe nas áreas da economia informal o tráfico de órgãos huManos, mulheres,
crianças, trabalhadores, armas ou droga. São Onze Grupos a cantar quem mais ordena à sombra, já não da
azinheira, mas da árvore das patacas. E serão cada vez menos a
mAndar cada vez mais se, entretanto, não se generalizar a cólera dos
ofendidos. Para quem ainda se abandone ao prazer de se alhear deste processo
de Censurização/Concentração/Superprivatização, desconfiando de uma visão
advertida desta fatia de negócios –demonstrará alguma prudência se consultar
uma fonte insuspeita e até já preOcupada: o Conselho da Europa (Comité de Ministros). LEIam-se as deCLARAções e as suGestões [5]. O alarme já soa nas
mesas‑redOndas euroPeias. Quem diria: depois da sacralização do
Neoliberalismo e da diabolização do Serviço Público – eis que as sirenes do
CE se sentem impelidas a avisar as populações da presença nas suas águas de
corsários da CS. Cada vez mais Comunicação. Cada vez menos Social. _______ * Escritor, jornalista [1] Primeira versão in Seara Nova, n.º 83,
Janeiro/Fevereiro/Março 2004. [2] Elementos sobre os Principais Grupos (entretanto,
actualizados/complementados): Uma Profissão em Mudança, de Fernando Correia,
in JJ/Jornalismo e Jornalistas, N.º 16 – Outubro/Dezembro 2003. [3] Portugal no Mercado Global da Informação, José Luís
Garcia: janusonline.pt [4] Pina Moura, presidente da Iberdrola Portugal e da Media
Capital/Grupo Prisa. Entrevista RTP, 26/04/2007. [5] https:/wcd.coe.int/ViewDoc.jsp?id=1089615/1089699/1089759 (31/01/2007). |
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