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Portugal |
10/05/2007
Prós & Contras: O poder é um fingidor César Príncipe * A Organização
Partidária do Estado baseia-se no modelo de domínio anglo-saxónico: dois
partidos alternam‑se no poder, fingindo-se populares na Oposição e
tornando-se impopulares no Governo. Socorrem-se do clássico guarda‑roupa
do Rotativismo: usam ganga na Oposição e fraque no Governo. As roupagens e
linguagens de Esquerda visam esbater/equivocar/mimetizar o espaço de
descontentamento e dar algum pretexto colaboracionista a dinamizadores
culturais do Neoliberalismo Globalizante. Os partidos rotacionais nutrem‑se
do confusionismo sócio-eleitoral e da intimidade com os grupos
económico-financeiros. A fim de não perderem o controlo da opinião pública,
montam um simulacro de contraditório, elevando o tom de voz no que toca à
Agenda do Pormenor, na medida em que estão de acordo com a Agenda do
Essencial. Assim, embora nenhum dos partidos do Bloco Central seja da
Oposição, ocupam tal bancada para administrar o Espaço de Cidadania,
dificultando ao máximo as migrações eleitorais e desautorizando as forças de
Esquerda como representativos da Oposição. Esta contracenação tem
logrado os objectivos, dispondo de pródigos financiamentos de imagem e de
orquestração mediática. Tornou-se matéria assente que o segundo partido da
Situação é o maior partido da Oposição. A Comunicação Social desempenha,
neste registo cenográfico, um papel escolarizante e escrutinador, agindo como
repetidor/consagrador de tal concepção através de milhares de noticiários e
comentários. O programa da RTP Prós & Contras é bem um Espelho da Ideologia situacionista/rotativista.
A farsa alternadeira não é inocente. Tem sido, sem dúvida, proveitosa: os
partidos do Centrão continuam a fixar um núcleo determinante de eleitorado,
que lhes tem servido de apólice para manter a alternância e bloquear a
alternativa. É certo que uma larga faixa de abstencionistas enegrece os
gráficos da República. Este afastamento não preocupa os rotativistas. A
Filosofia do Alterne funda-se num pressuposto cínico e pragmático: é
excelente que votem em nós mas não deixa de ser útil que o eleitorado
desiludido com a nossa política opte pela abstenção em vez de guinar à
Esquerda. Deste modo, os
desiludidos que se excluem dos processos eleitorais continuam reféns da
Situação. É um clássico da Psicologia da Dependência e do Pânico da Mudança:
o refém-amigo do sequestrador. Este público‑alvo é decisivo e não é
deixado sem enquadramento. Não vá ele deixar-se mobilizar por causas e coisas
que perturbem o Rotativismo Estabular. Observa-se um notório Investimento na
Ignorância como linha defensiva do poder estabelecido. Assim se compreende
que se desenvolva uma Psicologia Paralisante: entre outras técnicas de
condicionamento, os desiludidos são levados a crer que os partidos são
todos iguais. Fomenta-se a aversão à ruptura
de paradigma. Portanto, os desenganados do Bloco Central não têm escapatória:
ou voltam a apostar em quem os decepcionou ou ficam em casa quietinhos, entre
telenovelas sexo-lacrimosas, relatos de futebol valente e imortal e concursos de electrodomésticos e viagens
tropicais. É a cidadania de sofá. É a cultura da impotência nacional e da
descrença no género humano. Porque, neste quadro de êxito dos mais mafiosos e
dos mais manhosos e neste labirinto de falsas saídas, a Oposição aconselhável
é sempre à Direita quando o PS está no Governo e sempre no PS quando a
Direita está no Governo. E como o PS normalmente governa mais à Direita do
que a Direita, o regime democrático sofre de rotineirismo clientelar e défice
de credibilidade. Estado mórbido que não
inquieta os Senhores dos Euromilhões ou o seu funcionalismo-delegado. Os
senhores apoiaram (sem sombra de vergonha ou arrependimento) a ditadura
fascista mais longa da Europa e os seus novos aparelhistas institucionais
sempre preferirão um regime autoritário ao serviço dos ricos a um regime de
democracia participada em prol das classes mais desfavorecidas. É o que se tem comprovado desde 1976, desde que a
Roda da História alterou o seu percurso e os seus compagnons de route. Para tão clamorosa realidade, não há perfume rosa
nem detergente laranja suficientemente activos para eternamente glamourizarem
e branquearem o Estado da Nação. O derrotativismo está a ganhar contornos em
todo o mundo. Em Portugal as
multidões também se exercitam. _____ * Escritor, jornalista. |