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Portugal |
19/04/2007
Saga socrática Anabela Fino A saga da Universidade
Independente (UnI), que esta semana deixou o País suspenso dos próximos
capítulos com a promessa de “revelações” bombásticas, bate aos pontos
qualquer telenovela mexicana – incluindo as de fazer chorar as pedras da
calçada –, mete num chinelo as múltiplas e milionárias querelas em torno do
Código Da Vinci, deixa a léguas de distância os mais intrincados enredos de
Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, e só não bate os recordes de bilheteira do
Harry Potter porque a indústria cinematográfica do vasto mundo ainda não se
deu conta do potencial português. O caso tem os
ingredientes todos para o sucesso: funcionários menores que obviamente
começaram por ser os principais suspeitos; gestores maiores que estando
evidentemente acima de qualquer suspeita estão a contas com a justiça;
documentos que aparecem, desaparecem e reaparecem em duplicado; datas
trocadas e/ou truncadas em registos oficiais; segredos guardados a sete chaves
em cofres blindados; administradores empossados de manhã e demitidos à tarde;
ligações internacionais mais ou menos obscuras; insinuações de traficâncias
várias e lavagem de dinheiro; acusações de tráfico de influências, favores e
recompensas por bons serviços prestados ou a prestar; “ratos” a abandonar o
navio levando os “queijos” da dispensa; e um rol ainda não totalmente apurado
de personalidades que teriam sido atraídas pela UnI como borboletas pela luz. Se semelhante imbróglio
não empolgar os portugueses, não fizer estremecer as provectas paredes de
Belém, e não sacudir as cadeiras de S. Bento e afins, então será caso para
concorrer ao Guiness e ganhar a palma de falta de sentido de oportunidade,
porque com uma trama destas qualquer governo que se prezasse havia de meter
para debaixo do tapete as críticas à sua governação, explorar até ao tutano o
filão dos engenheiros, doutores e advogados (só para citar alguns exemplos)
que às tantas são apenas josés, marias, pedros ou franciscos como os pais os
nomearam, o que não sendo vergonha nenhuma tem o pequeno óbice de dar menos
prestígio a um republicano regime que ao acabar com a monarquia ficou a
braços com a falta de títulos que distinguissem a elite da populaça. Não é, infelizmente, o
que vai suceder. Primeiro, porque os doutores e engenheiros prezam tanto os
respectivos rótulos que não olham a meios para os defender e ostentar, prova
provada das penas que penaram para os arranjar; depois, porque o povo, sempre
ingrato, se não mesmo invejoso, insiste em não se deixar distrair com o
enredo e desdobra-se em plenários, reuniões, encontros e debates, multiplica
queixas e críticas, e até, imagine‑se, insiste em sair à rua com
manifestações e greves. Um despautério. Uma falta de imaginação. Diria mesmo
uma falta de consideração para quem tanto se empenha em distribuir um
requintado perfume de escândalo para amenizar os suores do trabalho ou da
falta dele, que é o que mais transtorna quem de universidades só sabe por
ouvir falar, ou que as tendo frequentado se interroga hoje para que lhe serve
o canudo. Há que dar o devido
desconto a tamanha ingratidão. Sem cofres fortes para guardar a revolta,
resta a luta para exigir justiça. De preferência em alto e bom som, que faz
bem à alma e já fez cair muitos doutores e engenheiros. |