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Portugal |
27/03/2007
Terminou o rendoso concurso da RTP Padre Mário de Oliveira Foi apenas um concurso
para dar dinheiro a ganhar à RTP e mais audiências. E quem o ganhou foi quem teve
mais pachorra para acompanhar, semanas a fio, toda aquela pantomina com ares
de academismo e de coisa erudita. Sobretudo, ganharam-no aquelas pessoas que
tiveram mais dinheiro para gastar em chamadas telefónicas e assim votar
compulsivamente no seu candidato preferido. Pelos jeitos, foi um ver se te
avias de telefonemas para os múltiplos números que o canal 1 colocou à
disposição dos papalvos que, no seu cruzadismo político e partidário, nem
sequer se deram conta de que estavam a ser levados. Ainda gostava de saber
quanto dinheiro é que o concurso deu a ganhar à RTP. O resultado final
dependeu não das convicções das populações portuguesas, mas das quantias de
dinheiro gasto em chamadas e da pachorra que muitas pessoas tiveram para alinhar/participar
no concurso. A mim não me apanharam os promotores nesta sua engenhosa e
enganosa versão de conto do vigário disfarçado de concurso. Uma vez por
outra, parei durante uns minutos no programa, sempre muito poucos, só para
perceber melhor como é que, desta vez, os do canal público estavam a levar as
populações às águas do moinho dos seus interesses financeiros e de aumento
das audiências. Envolver-me directamente naquela pantomina, ou noutra do
estilo, em qualquer dos outros canais, nem pensar. Prefiro um bom filme ou um
bom concerto, mesmo só gravado em CD, ou um bom espectáculo de teatro. E por
isso, pouco tempo depois de parar uma vez por outra nesse concurso, logo
seguia para a RTP2. E, se nem aí havia programa que me recreasse e alimentasse,
cultural e espiritualmente, apagava o aparelho e deliciava-me/delicio-me, até
adormecer, com a leitura de um bom livro. Consciente de que tenho o dever de
me saber defender dos media e dos seus
funcionários maiores que estão interessados em servir-nos doses de ópio, como
durante séculos o fizeram e ainda hoje o fazem as Religiões, todas as
religiões. Não contem comigo nesse jogo feito de jogos e de concursos.
Comerei do que me oferecem as tvs, mas apenas se o menu for de boa qualidade.
Quando não é, desligo e recorro aos meus próprios meios. Se não fosse assim,
onde é que já eu estaria, por esta altura da vida? A concorrente TVI,
preocupada com a possível perda de audiência em relação à RTP e ao seu
badalado concurso, foi logo a correr lançar um outro exactamente de sinal
contrário, por isso, um concurso com assumido ar de estupidez, mas, ainda
assim, com a presença garantida no programa de um júri constituído por gente
erudita, como a confirmar à saciedade que o dinheiro e a fama conseguem quase
sempre comprar tudo e todos, até os intelectuais. E pode a administração do
antigo canal da Igreja católica estar descansada, porque terá conseguido o
seu objectivo, uma vez que, com esse seu concurso, tem sempre à sua
disposição uma avalanche de raparigas portuguesas semivestidas e disponíveis
para fazerem de parvinhas e de estúpidas, na mira, obviamente, de ganharem
algum dinheiro fácil e alguma fama (aquilo tem muito de prostituição
camuflada, mas se há por aí quem ganhe tanto dinheiro a explorar sem dó nem piedade
as pessoas e os povos e, depois, toda a gente ainda parece achar bem este seu
jeito de ser-viver e até as aplaudem na praça pública, porque é que umas
rapariguinhas desconhecidas não hão-de prestar-se a exibir pedaços dos seus
seios e das suas coxas, ao mesmo tempo que fingem que são estúpidas, se em
troca ganham dinheiro e alguma fama, quem sabe talvez direito a capa de
revista cor-de-rosa?!) Mas há quem tenha
ficado muito arreliado com o desfecho do concurso da RTP, ocorrido na noite
de domingo para segunda-feira passada. Pensam essas pessoas, e são muitas,
que o antigo ditador do Estado Novo ganhou a categoria de “grande português”.
E sentem vergonha de serem portugueses, quando um ditador é guindado a essa
categoria. Interrogam-se, até, que povo português é este que faz semelhante
escolha e se revê orgulhosamente num ditador? Quem assim reage dá
provas de que não chegou a perceber o que estava em jogo. O isco lançado pela
RTP era saber quem é o maior português de sempre. Mas isso era apenas o isco.
Porque o que estava em causa era a RTP ganhar muito dinheiro e audiências à
custa dos papalvos que entrassem no seu jogo, disfarçado de eleição política
ou de referendo. Não fossem ingénuos. Fizessem como eu. Recusassem entrar no
jogo. Dormissem descansados. Deixassem os promotores a falar sozinhos. Não se
dessem ares de seriedade e de incomodidade perante o que estava a suceder.
Quando muito, estivessem de longe a ver tudo aquilo e a divertir-se. Ou, se
quisessem ser um bocadinho militantes, alertassem os papalvos que se
prestaram a fazer o jogo da RTP para que deixassem de continuar a cair na
esparrela. O que a RTP pretendeu e, pelos vistos, teve enorme sucesso, foi
que as populações se envolvessem e entrassem no despique artificialmente
levantado por ela. Ela ganhou, e muito, com isso. As populações que alinharam
no jogo perderam tempo, dinheiro e dignidade, sobretudo, as que mais se
empenharam na pantomina. E agora que tudo acabou, a administração da RTP deve
estar a esfregar as mãos de satisfação. A sua habilidade resultou
financeiramente e em audiências. Entretanto, deveria
agora a RTP meter a mão na consciência e interrogar-se se o que fez é serviço
público. Mas, quando uma administração tem por objectivo fazer dinheiro e
ganhar audiências a qualquer preço, ainda se pode falar em serviço público?
Crime público, sim. Mais um crime público é o que ela acaba de cometer.
Promoveu o velho ditador do Estado Novo e do Fascismo pidesco a “grande
português” e ainda contribuiu para ressuscitar velhos fantasmas do passado,
quando a Liberdade, se bem praticada, sempre suscitará pessoas livres e
cultas nas sociedades, não pessoas fanatizadas e corruptas. É por isso que o
serviço público tem de cuidar até do tipo de concursos que promove e em que
se envolve. Mas um canal público, como a RTP, que tem, habitualmente, nas
suas manhãs, a presença cativa em programa do Pe. Borga, sem a salutar
presença de qualquer contraditório, e também não perde pitada na transmissão
directa de Fátima do 13 de Maio e do 13 de Outubro de cada ano, ainda está em
condições de garantir serviço público ao país? Os do Obscurantismo
generalizado das populações, que o velho ditador do Estado Novo tanto
cultivou, em aliança com a hierarquia católica de então, dirão que sim. Mas
os da Liberdade e da Dignidade que visam suscitar populações livres, dignas,
historicamente responsáveis e decentes só terão razões para chorar. Choremos,
pois. E arregacemos as mangas para passar a lutar mais e com mais
inteligência em todas as frentes. Pela Dignidade. Pela Liberdade. Pela
Decência. |