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Janeiro 2006
Um ar de contra‑revolução Alain
Garrigou * Está a disseminar-se nos meios mediatico-intelectuais franceses uma “revolução conservadora”. O seu principal objectivo consiste na denúncia de um povo rebelde. Os seus apóstolos voltam a deparar com as angústias sociais do século das revoluções e reconstituem a aliança entre a “boa sociedade” e os sábios de pacotilha. O espectáculo duma contra‑revolução sem revolução faz lembrar, ao mesmo tempo, o regresso dos emigrados políticos de 1792, os temores das “pessoas honradas” e o “pânico dos bem-pensantes”. Os eleitores não falam,
gritam; não se exprimem, escarram. E, como é óbvio, não sabem pensar. De
maneira que na noite do referendo de 29 de Maio de 2005 a prostração
apoderou-se dos editorialistas: «tsunami», «catástrofe», «impasse», «fiasco»,
«crise grave». Naturalmente, a vitória do “não” exigiu uma explicação à
altura, e a explicação foi esta: a incapacidade dos eleitores. Os seus votos?
«Aquilo que o eleitorado de esquerda levou para as urnas foram gritos de dor
e de medo, de angústia e de raiva» (Serge July, Libération, 30 de Maio de 2005), tudo isso constituindo «um
escoadouro insalubre onde se perverteu a regra do jogo referendário para
lançar à cara do governo a sanha toda» (Claude Imbert, Le Point, 31 de Março de 2005). No seu abalo, os comentadores
adoptaram espontaneamente as visões da psicologia das multidões do séc. XIX –
as de Gabriel de Tarde, Scipio Sighele e Gustave Le Bon, segundo as quais o
que caracteriza o povo é «a impulsividade, a irritabilidade, a incapacidade
de raciocínio, a falta de opinião e de espírito crítico, o exagero dos
sentimentos» [1]. Os nossos actuais analistas retomam esse vocabulário da
patologia invectivando a «raiva dos protestos» (Claude Imbert), o
«masoquismo» (Serge July), a «epidemia de populismo» (idem), a «paranóia aguda» (Franz-Olivier Giesbert).
Deste modo, um registo mais sóbrio substitui a sífilis e o alcoolismo que
obcecaram o século XIX. Segundo a classificação
de Le Bon, poucos meses depois do referendo europeu as «multidões criminosas»
dos subúrbios de França substituíram as «multidões eleitorais». Nas situações
que põem à prova as capacidades de explicação, o que muitas vezes as
pretensões revelam é uma racionalização dos preconceitos: «Depois da trombose
social, da derrocada cívica de 2002, da guerrilha eleitoral do passado mês de
Maio», escrevia Nicolas Baverez no semanário Le Point de 10 de Novembro de 2005, «os motins urbanos do
Outono de 2005 são uma nova ilustração da crise nacional em França e da
decomposição do corpo social». E, por trás da descrição do caos, surgia mais
uma vez o espectro da doença mental de uns amotinados cuja «violência
delirante», clamava Claude Imbert, «mais pertence ao foro psíquico do que ao
político». A violência e a origem
social dos amotinados desfizeram um pouco mais as inibições. Foi necessária a
sombra do general De Gaulle para que um editorialista lançasse a seguinte
advertência pré-eleitoral: «É preciso desconfiar dos franceses, esses
“bezerros” que sem avisar se transformam por vezes em touros» (Denis Jeambar,
L’Express, 21 de Março de 2005). Com a
revolta dos subúrbios, ressurgiram os bárbaros e as bestas ferozes, como nas
insurreições de antigamente. Em Junho de 1848, diz-nos um historiador, «todo
o “cidadão honesto” tinha então na boca, ou na pena com que escrevia, essas
designações animais, fosse qual fosse o seu grau de cultura; a propósito dos
amotinados, Mérimée, Musset ou Berlioz dizem então e escrevem, tão
naturalmente como qualquer escrevinhador, que os sublevados são bestas
selvagens, cães raivosos, tigres, hienas, lobos, escumalha, etc.» [2]. Embora
as declarações se refiram nos nossos dias a «canalha» e «ralé», nem por isso
deixa de subsistir alguma regressão. Ao aproximarem-se
perigosamente da invectiva, os comentadores fazem relembrar que a contra‑revolução
não se exprime essencialmente através duma racionalização mais ou menos
sofisticada. As Considerações sobre a França de Joseph de Maistre ou A Psicologia das Multidões de Gustave Le Bon fazem esquecer as apreciações
comuns suas contemporâneas, muito mais numerosas e com maiores consequências.
É preciso reavaliar as “derrapagens” de alguns intelectuais mediáticos, que
foram mais atacados por serem ineptos do que por laborarem em erro. Aquilo
que exprimem as tolices proferidas sobre a poligamia dos moradores dos
subúrbios é sempre um ódio social, que noutras circunstâncias não extravasa
do espaço privado. Embora reconheçamos que
o actual pensamento contra-revolucionário evita, pelo menos de forma
explícita, o conceito de raça, que se encontrava no âmago do pensamento
contra-revolucionário do passado, as referências ao povo ignorante continuam
a ser o princípio de afirmação das superioridades sociais. Num século XIX
tido como progressista, quantas e quantas vezes não foram o povo, os camponeses
ou os operários declarados ignorantes políticos? Em 1863, proclamava
Proudhon: «A turba é de facto ininteligente e cega». Nesse mesmo ano,
acrescentava Jules Ferry: «Uma última característica desta raça excelente é a
sua absoluta credulidade». Em 1884, completava Alfred Fouillée: «O camponês
ignorante é menos absurdo do que o operário semi‑esclarecido». Em
1888, zombava o socialista Joffrin: «Se soubessem com que patranhas os
embrutecem! Até parece incrível». Em 1906 – um pouco como diria cem anos mais
tarde um ministro da Economia –, explicava o governador civil da região de
Vosges: «Confesso que não esperava encontrar entre os operários vosgianos uma
tão completa ignorância das mais simples noções económicas» [3]. É enorme,
como vemos, a lista das acusações, deplorações ou pesares. E em 2005,
caracterizado por «abismos de ignorância política», o povo continuava ainda e
sempre a precisar de ser esclarecido. Ora, justamente, o referendo fazia uma
pergunta muito difícil para eleitores que só por erro foram vistos como
«alunos de Direito» (Luc de Nanteuil, Le Figaro, 30 de Abril de 2005). Tais comentários far-nos-iam simplesmente
sorrir, mas acontece que pretendem ter por base a ciência política, por eles
tão falsificada como em seu tempo o foi a psicologia das multidões. CAUÇÃO INTELECTUAL AOS
PRECONCEITOS DE CLASSE O sucesso da
pseudociência das multidões foi tanto maior quanto os seus autores deram
assim farpela científica aos fantasmas políticos das “pessoas honradas”,
então apavoradas com o socialismo. Os preconceitos de classe não
desapareceram das análises actuais. Na noite do escrutínio de 29 de Maio de
2005, os politólogos opuseram uma França de cima, quadros opulentos e
diplomados, a favor do “sim”, e uma França de baixo, operários e empregados,
pobres e pouco instruídos, a favor do “não”. Em suma, de um lado, pessoas
inteligentes e informadas; do outro, indivíduos estúpidos e ignorantes.
Pascal Perrineau, useiro editorialista da Faculdade de Ciências Políticas da
Universidade de Paris, explicou as coisas da seguinte maneira: «As pessoas
enganaram‑se no voto» [4]. Trocado por miúdos, queria isto dizer que
os eleitores do “não” tinham votado com base em motivações nacionais e não
relativamente ao Tratado Europeu, como se as questões em jogo não estivessem
ligadas... De resto, esses peritos oficiais salpicam as suas declarações com
prescrições impositivas que são estranhas à ciência política. Mas as
insígnias e os princípios vão-se apagando, à medida que essas personagens vão
despindo as vestes de cientistas para envergar as de conselheiros ou peritos
ao serviço de partidos políticos ou institutos de sondagens, bem como a
vestimenta de propagandistas. Os politólogos não são
os únicos que participam nas novas e sábias roupagens dos medos sociais. Com
espantosa ingenuidade, alguns historiadores empreenderam uma campanha de
restauração em que à empresa ideológica se junta um assustador recuo
intelectual. Tal como uma dessas revistas de história feitas para entreter os
leitores com narrativas de batalhas e a vida dos “grandes homens”, a revista L’Histoire, na capa do seu número de Novembro de 2005,
levantava solenemente a seguinte questão: «Deverá Luís XVI ser reabilitado?»
Para um historiador é uma questão estúpida – mas trata-se de uma questão da
actualidade mediática. Professor emérito na referida Faculdade de Ciências
Políticas, Michel Winock afrontou‑a com ambivalência: «Devemos deixar
de repetir que estamos em 1788, mas convém admitirmos que a inércia e as
falhas da nossa época nos inclinam a uma indulgência que nem sempre tivemos». O regresso a Luís XVI
serve para condenar as «resistências a toda e qualquer reforma», a «recusa da
adaptação à corrente do mundo» e a «rejeição da única abertura tangível que
se nos ofereceu, este referendo sobre o Tratado Constitucional da Europa».
Seria pois Luís XVI um profeta do “sim”? Nunca é tarde para dizer aos humanos
que não têm outro caminho. O legitimismo dinástico junta-se assim ao
legitimismo contemporâneo, graças ao qual o conservadorismo se adorna com os
méritos da razão e se justifica pela ordem necessária das coisas. A tribuna da rádio
permitirá melhor que as colunas da imprensa escrita que as coisas recalcadas
possam emergir? No passado dia 26 de Novembro, na France Culture, o programa
“Réplica”, de Alain Finkielkraut, deu a palavra a um espantoso dueto: de um
lado, um historiador empenhado na empolgada defesa de um rei reformista (para
quando a reabilitação de Carlos X?); do outro, uma historiadora lançada na
defesa igualmente apaixonada da rainha. O primeiro, Jean-Christian Petitfils,
considerou «totalitária» a Assembleia Nacional Constituinte de 1789, enquanto
a segunda, Mona Ozouf, pintou Marie-Antoinette como uma Lady Di. «Vítima do
ressentimento democrático», porque «esta mulher tinha tudo – era a mais bela,
a mais sedutora, a mais dotada com superioridades de todo o género, atraindo
assim contra ela a eleição do ódio... Marie‑Antoinette inventou algo
de inteiramente novo na história das rainhas, o gosto pelo prazer imediato,
pelo individualismo livre, pela construção de uma vida pessoal...». O
anacronismo esvaiu-se quando por fim a historiadora admitiu, lúcida no seu
desvario: «Nós estamos a caminho, você e eu, de reabilitar o rei»... Não são novas as
convergências e alianças entre os “sábios” mais oportunistas e os jornalistas
mais poderosos. Um pouco como se se confortassem com a invocação dos produtos
pseudocientíficos da psicologia das multidões (Gustave Le Bon era no seu
tempo mais conhecido do que Émile Durkheim), os comentadores alimentam‑se
com os mais obsoletos produtos da ciência, tais como o behaviorismo (estudo
dos comportamentos) apoiado nas sondagens. Esta convergência é sancionada
pela afinidade do senso comum que dá respostas políticas (e não científicas)
a questões políticas. Os conceitos são aqui inúteis para compreender, porque
os eleitores diriam o que pensam e o que fazem. Antecedidos de umas quantas
percentagens, isso produz a opinião pública. Umas reminiscências sobre a
«sociedade bloqueada» bastam para pôr em causa as «inércias» e as «falhas» de
um povo agarrado aos seus «benefícios adquiridos». Os quais nunca dizem
respeito aos editorialistas que não lêem ou aos universitários que
renunciaram a toda e qualquer ciência. Nessa troca de
serviços, uns fazem valer o reforço intelectual de universitários que citam
mais pelos seus títulos do que pelas suas ideias, os outros recebem a
publicidade para os seus (medíocres) ensaios, satisfazendo assim o respectivo
narcisismo mediático. Entre aqueles que se multiplicam em todas as frentes, um
dos mais generosos é o politólogo Dominique Reynié. As suas ideias sobre as
eleições, a crise dos subúrbios ou a futura eleição presidencial tanto
ornamentam o Le Figaro como o Libération, o Le Monde
ou a Revue politique et parlementaire,
sem falar de diversos jornais estrangeiros cujos redactores encontram ideias
lendo a imprensa francesa. As mundanidades politológicas têm a vantagem de
fazer com que se retenha unicamente o conteúdo que consiste na amálgama
habitual entre a esquerda da esquerda e a extrema-direita. Subtilmente,
Dominique Reynié resumiu a primeira a um “social-nacionalismo”, invenção que
logo lhe valeu os cumprimentos da imprensa. Nos Estados Unidos, os
comentadores que falam de tudo e de nada foram definidos como «classe
tagarela» (chattering class). Neste
aspecto, não há excepção francesa. As declarações estereotipadas repetem‑se
tanto mais quanto mais os seus adeptos vão perdendo influência sobre um
público cada vez mais crítico. A este respeito, o referendo de Maio de 2005
devia ter engendrado mais reflexão e menos fúria. Na história da imprensa,
não é corrente que as tomadas de posição unânimes seguidas das condenações
nutridas pela impotência afastem uma parte dos leitores e ouvintes. Quem
poderá pretender que o cálculo das audiências ou o interesse económico reinam
sozinhos sobre a palavra jornalística? Bela demonstração da sobrevivência da
“ideologia”, precisamente entre aqueles que clamam que ela desapareceu. O apagamento dos
pensadores críticos na vida intelectual francesa não é o resultado dum
fenómeno genético nem da concorrência de conservadores talentosos. Em
contrapartida, a crise da Universidade explica em parte uma inflexão
política, a que se junta um recuo da qualidade intelectual. Os
universitários, confrontados com os progressos do conservadorismo nas suas
fileiras, admitem com fatalismo que os seus colegas têm direito a exprimir as
suas convicções e até a perseguir noutros sítios e de forma diferente o êxito
social. Desprezam discretamente as intervenções mediáticas e os ensaios
medíocres desses seus colegas, mas fecham‑se eles próprios numa
concepção esotérica da ciência. O controlo exercido
pelos pares, que pressionava no sentido da ortodoxia, tinha os seus
inconvenientes. Deixa de ter vantagens quando já não incita ao respeito pelos
princípios elementares do trabalho intelectual. A simultânea exclusão nos media dos pensadores críticos e dos talentos exauriu
também uma renovação das gerações e das ideias. Neste processo, a própria
inteligência conservadora também ficou a perder. ______ * Professor da Universidade de Paris X (Nanterre), autor de Histoire sociale du suffrage universel
en France,
Paris, Seuil, 2002, e do ensaio Les Elites contre la République: Sciences Po et l’ENA, La Découverte,
Paris, 2001. [1] Gustave Le Bon, La Psychologie des foules, PUF, Paris, 1963 [18951, p. 17. [2] Dolf Oelher, Le
Spleen contre l’oubli. Juin 1848, Payot, Paris, 1992, p. 30. [3] Citações extraídas de Alain Garrigou, Histoire sociale du suffrage universel en France
(1848-2000),
Seuil, Paris, 2002. [4] Rádio France‑Info,
29 de Maio de 2005. |