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10/02/2007 Registo
de dois embustes Correia da Fonseca 1. Depois do que me pareceu
ser uma pausa que podia ser sinal de supressão, lá vieram elas, as imagens de
fetos, na maior parte dos casos ampliadas à dimensão de todo o ecrã dos
televisores ou pelo menos de uma grande parte dele. E não apenas, talvez nem
sobretudo, nos tempos de antena dos movimentos em favor do “Não”: também
muitas vezes, se não quase sempre, a título de “ilustrarem” notícias sobre a
campanha em serviços informativos. É forçoso admitir, pelo menos à falta de
provas em contrário, que a inserção de tais imagens é feita de boa-fé, pela
ingénua ignorância que muita vez parece estar ao invisível leme que comanda
muito do que sucede na televisão portuguesa. Acontece, porém, que a
generalidade de tais imagens corresponde a uma falsificação da informação
prestada, pois é suposto que se trata então de um feto com o máximo de 10
semanas e um feto com aquele tempo não tem aquela configuração; dizem os que
sabem que é muito mais tosco, sem a definição de aspectos que são tendencialmente
impressionantes para o público indefeso. E isto para lá de uma outra “informação”
implícita, apenas induzida, mas falsíssima: a de que todas as grávidas que
recorram à IVG esperam pelas 10 semanas, que nenhuma ou quase nenhuma o faz
entre as cinco e as oito semanas, como técnicos asseguram, o que significa
obviamente que o desenvolvimento do feto é ainda mais primário. 2. Porém, premeditada ou não,
a aldrabice mais grave e também a que maior impacto deve produzir resulta da
dimensão relativa com que a imagem é fornecida ao nosso olhar descuidado:
como já se disse, a ocupar toda a altura do ecrã ou uma sua boa parte,
dir-se-á porventura que essa dimensão é maior ou menor consoante as medidas
do próprio ecrã, mas a questão reside no facto de sempre haver uma relação
fixa com a imagem dos próprios apresentadores: o feto aparece como se fosse
tão grande como o rosto do apresentador ou ainda maior que ele, e o impacto
produzido (talvez se pudesse escrever: o choque procurado) resulta daí. Ora,
a verdade é que um feto com 10 semanas mede cerca de cinco centímetros quando
muito acrescidos de apenas alguns milímetros mais, sucedendo que, além disto,
está enrolado sobre si próprio, pelo que de facto ocupa uma extensão menor.
Entende-se, contudo, que esta situação real não ocorra sequer aos
telespectadores que deparam com a imagem no ecrã e se confrontam com todas as
sugestões por ela suscitadas. Não direi que este é o crime (informativo)
perfeito, mas sustento que andará muito perto disso. 3. Para maior eficácia da
manipulação, seja ela voluntária e premeditada ou não, imagens como a aqui
descrita são acompanhadas por outros factores de engano ou, se se quiser, de
indução em erro. A que se afigura mais grave e também mais eficaz é de ordem
semântica e consubstanciada na confusão entre “vida” e “vida humana”, entre o
muito discutido momento em que se inicia a vida por efeito da fecundação e o
início da vida humana. «Se não é vida humana, então que é?», perguntava com
ar antecipadamente triunfante, um dia destes, Bagão Félix a José António
Pinto Ribeiro no decurso de um debate. Contudo, a resposta é simples: é vida
pré‑humana. É vida pré-humana como a de cada um dos milhões (milhões)
de espermatozóides que cada homem constantemente transporta consigo. E
lembremo-nos que cada espermatozóide tem também movimentos autónomos, que é
capaz de se deslocar graças aos movimentos vibratórios da sua cauda. É
pequenino, bem sei, mas este não é decerto assunto para medir aos palmos, e a
prova é que os do “Não” até querem alargar o estatuto de vida humana – vida
humana, céus! – a um óvulo fecundado um instante antes que medirá no máximo
meio milímetro de diâmetro. Perdoe-se-me, mas espero que compreendam o
justificado impulso para defender cada um dos milhões da espermatozóides que
me habitam: se aquele meio milímetro é vida humana, então também cada
espermatozoidezinho meu também o é. E, não obstante, bem se sabe que todos
eles, todos, estão normalmente condenados à mais inglória das mortes sem que
os do “Não” o lamentem. 4. Aqui fica, espero que com clareza bastante, registo de dois dos mais perigosos embustes veiculados pela TV nestes tempos pré-referendários. Ainda que muito vaga, a minha esperança é que sirva a alguém para que evite armadilhas e equívocos. |