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Janeiro 2006 Patrocínio
privado, canal público Marie
Bénilde * Outrora rivais, a Vivendi,
a TF1 e a M6 vão associar-se no sector da televisão por satélite. Com o
pretexto de contribuir para a criação de grandes grupos económicas, a Comissão
Europeia recomenda a liberalização da directiva “Televisões sem Fronteiras”,
o que autorizará os canais a transmitirem mais publicidade... Está de facto
iminente o nascimento de uma “CNN à francesa”, estreitamente associada ao
grupo TF1. Ao autorizar, em 30 de
Novembro de 2005, a montagem de um canal francês de informação internacional,
o governo francês não podia fazer uma mais evidente demonstração do absurdo
contido no artigo III-167 [1] do Projecto de Tratado que Estabelece uma
Constituição para a Europa. Pois não irá esse futuro canal, desejado pelo
presidente Jacques Chirac, anunciado para 2006 e cujo orçamento será
integralmente garantido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (apesar de
um capital detido em paridade pela TF1 e a France Télévisions), beneficiar de
uma ajuda governamental que pode considerar-se “incompatível” com o mercado
interno? Mas neste caso a razão de
Estado soube conservar as suas prerrogativas. E a 7 de Junho de 2005 a
Comissão Europeia presidida por José Manuel Durão Barroso nada viu que se
opusesse à aprovação do novo canal de televisão, apesar de a futura CFII
ficar a milhas do espírito de Bruxelas, dos seus âmbitos de competências
partilhadas, das suas veleidades de política externa comum e dos seus apelos a
uma cooperação reforçada. «Devemos ter a ambição de um grande canal de
informação contínua internacional em francês, semelhante ao que faz a BBC ou
a CNN para os anglófonos. E essencial para a irradiação do nosso país»,
explicou Jacques Chirac no Senado em 7 de Março de 2002 [2]. Trata-se, de facto, de
propagar a França através de uma informação que se inscreve num projecto
político. Mas que França? Autor do relatório sobre a criação deste canal,
Bernard Brochand, deputado da UMP (União para um Movimento Popular, de
Nicolas Sarkozy), autarca de Cannes e antigo publicitário da agência DDB
Worldwide, expôs os contornos dum produto pronto a ser consumido, que deverá
não só ser «a voz de França» mas também uma espécie de letreiro luminoso: «Não
se trata apenas de criar um instrumento mediático suplementar, trata-se
também de fazer surgir uma marca mundial, como o podem ser o Airbus, a L’Oréal
ou até a Danone», aliciou ele [3]. A ambição de Brochand
consiste em favorecer a implantação das grandes empresas francesas no
estrangeiro, valorizando a imagem de marca do país. É aliás preconizada no
seu relatório a criação de um «clube dos fundadores» que congregue os «principais
anunciantes franceses» e beneficie de «operações de patrocínio» [4]. Naturalmente,
foi o seu amigo publicitário Alain de Pouzilhac, ex-director-geral da agência
Havas – que abandonou com 7,8 milhões de euros de indemnização –, que Bernard
Brochand tratou de promover junto da presidência da República para chefiar o
directório do futuro canal. No papel, o projecto tem a
sua legitimidade na vontade de o Estado francês fornecer uma informação em
imagens a povos expostos a canais internacionais como a CNN, a Fox News ou a
BBC World, que dependem de países beligerantes na guerra do Iraque. A guerra
no Afeganistão, em 2001, revelou também a importância de canais informativos
árabes, como a Al Jazira ou a Al Arabya, que passaram a ter grande
repercussão no Médio Oriente, nomeadamente ao transmitirem os vídeos da Al-Qaeda.
Por isso se revelou determinante para o presidente francês fazer ouvir uma
voz que deixasse de ser tributária dos canais audiovisuais desenvolvidos por
países árabes ou anglo-saxónicos. «É também uma imperiosa necessidade»,
explicou Brochand. «Quando Michel Barnier, então ministro dos Negócios
Estrangeiros, anunciou a libertação dos reféns franceses, foi paradoxal ele
ter de optar pela Al Jazira para dar essa informação ao mundo árabe» [5]. Uma
imperiosa necessidade que se faz cruelmente sentir, sabendo-se que certos
Estados, como a Venezuela ou a Rússia, também declararam, em 2005, que
pretendem criar canais informativos internacionais para melhor promoverem os
seus interesses. O projecto de Bernard
Brochand junta os inconvenientes do financiamento estatal e do sistema
accionista privado. A experiência da Rádio France Internationale (RFI),
inteiramente subvencionada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, revela
como é difícil haver uma independência redactorial efectiva quando é tão
óbvia a tutela orçamental e administrativa do governo francês. Em 17 de
Setembro de 2002, o presidente do Togo, entretanto falecido, Gnassingbé Eyadema,
tentou impedir a transmissão na RFI de uma entrevista com o seu principal
opositor, Messan Agbéyomé Kodjo, telefonando directamente para a Presidência
da República francesa. Foi necessário que a intersindical dos jornalistas
interviesse para que a entrevista em causa não fosse censurada por Jean-Paul
Cluzel, então director-geral da RFI e hoje presidente da Rádio France. Só os
togoleses acabaram por não poder ouvir a entrevista, porque o governo do Togo
conseguiu interferir, no seu território, nos emissores FM da RFI no dia em
que o programa foi para o ar. INFORMAÇÃO CONTINUA EM SALDO No passado dia 17 de Maio,
uma reportagem da RFI que se interrogava sobre a responsabilidade dos “serviços
secretos franceses” na morte do juiz Bernard Borrel, ocorrida dez anos antes
em Djibuti, foi transmitida e posteriormente retirada do sítio Internet desta
rádio, tendo então a sociedade dos jornalistas da RFI denunciado a censura: «Virá
ela do director-geral da RFI? Da direcção da informação? Do Ministério dos
Negócios Estrangeiros? Ou do presidente do Djibuti, que foi reeleito com 96
por cento dos votos?», questionavam aqueles jornalistas [6]. No tocante à
futura CFII, Bernard Brochand pede sem dúvida que «a sua linha editorial seja
independente dos poderes públicos franceses e encarada como tal», mas ao mesmo
tempo lembra que «o Estado declarou várias vezes, nomeadamente através do
presidente da República, que a existência de um canal informativo
internacional podia corresponder a alguns dos objectivos da política externa
nacional» [7]. Já se sabe a que ponto uma tal linha editorial pode ser
independente... O projecto francês padece
igualmente da estreita dependência do grupo TF1, ao qual está previsto serem
atribuídos 50 por cento do capital da CFII sem que ele se veja obrigado a
qualquer contribuição financeira. Neste aspecto, o Relatório Brochand ignorou
com sobranceria as conclusões da comissão parlamentar presidida pelo deputado
da UDF (União pela Democracia Francesa) da Loire, François Rochebloine, que
preconizava a constituição dum operador de televisão a partir dum agrupamento
de interesse público, federando vários organismos: France Télévisions, AFP
(Agência France Press), TV5, RFI, CFI, RFO e Arte France. Atribuindo aos
grupos privados apenas um papel de parceiros, na base do voluntariado,
François Rochebloine depressa foi desaprovado pela presidência da República,
que impôs uma associação entre os sectores público e privado única no seu género,
no respeitante à acção audiovisual externa. A 14 de Outubro de 2003, a missão
parlamentar de Rochebloine viu-se obrigada a pôr fim à sua existência, ao
verificar que o projecto estava a ser inteiramente dirigido pela presidência
da República e pelo governo. Patrick de Carolis, director-geral da France
Télévisions, bem reclamou um papel «motor» e um capital «100 por cento
público», o que teria assegurado ao novo canal uma transmissão através da
televisão digital terrestre (TDT), mas a verdade é que o seu grupo deverá
contentar-se com o papel de co-piloto ao lado da TF1, ainda que lhe seja
atribuído, à laia de prémio de consolação, a presidência do conselho de
supervisão da CFII. Por que motivo terá então o
governo francês imposto uma sociedade de direito privado que põe o primeiro
canal de televisão do país ao lado da France Télévisions? Michel Barnier,
então ministro dos Negócios Estrangeiros, justificou essa ligação com a «promessa
de êxito» que constituiria «a mutualização das competências de profissionais
deste nível». Mas não deveremos nós ver nisso, tal como o deputado socialista
Didier Mathus, «a dívida de Jacques Chirac para com a TF1» na sequência da
campanha maciça que este canal levou a cabo sobre o tema da insegurança e que
em grande medida contribuiu para pôr a direita no poder? Com efeito, o que
caracteriza a TF1, propriedade do grupo Bouygues, com apenas cinco
correspondentes no mundo (a France Télévision tem dez), é o seu fraquíssimo
desenvolvimento internacional e uma modesta porção dos seus telejornais
dedicada à actualidade estrangeira, sendo pois bastante limitado o seu
contributo para um canal informativo internacional. Em contrapartida, a CFII
será um precioso aliado do grupo Bouygues (líder na construção civil e obras
públicas), que não hesita em abrir o telejornal das 20 horas da TF1 a chefes
de Estado estrangeiros como o rei de Marrocos, de quem espera obter contratos
públicos. Teria sido possível montar um
canal a partir da France Télévisions, retomando o projecto desenvolvido para
a televisão digital terrestre por Paul Nahon e Bernard Benyamin. Mas Michel
Boyon, chefe de gabinete do antigo primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin,
teve o mérito da franqueza ao explicar-lhes que «estava fora de questão criar
obstáculos à TF1». Com efeito, o grupo TF1 financia sem retorno, desde há
onze anos, o seu canal informativo LCI, que se revelou um precioso
instrumento de lóbis e influências. Está pois fora de questão dar à CFII a
possibilidade de lhe fazerem concorrência nas ondas hertzianas, no seu
território, tal como estava fora de questão deixar a France Télévisions
apresentar um projecto de canal informativo gratuito com base no sistema de
televisão digital terrestre. No seu projecto actual, a CFII
será pois, em suma, um canal com a particularidade de ser financiado pelos
contribuintes franceses, de em França só poder ser visto por cabo ou satélite
(após uma derradeira concessão do governo), mas que vai ficar sob a
vigilância de um grupo privado concorrente. É esta, certamente, a melhor
forma que a presidência da República encontrou para manter sob seu domínio,
relativamente à opinião pública francesa, o novel canal. Patrick Le Lay,
director-geral da TF1, e Marc Tessier, ex-presidente da France Télévisions,
tentaram impedir que os programas da CFII fossem transmitidos em França,
sustentando que haveria um problema de concentração na aliança de «dois
líderes» no quadro de uma difusão nacional. Reconheceu depois que a CFII
poderia «canibalizar» a audiência das informações da France 2 e da TF1: «Tudo
será muito mais difícil se ela fizer concorrência aos nossos próprios
telejornais», conveio Marc Tessier. Por seu turno, Robert Namias, director de
informação da TF1, confessou ele próprio que não acreditava «nada nisso (...),
é muito complicado e tem muitos custos» [8]. Quanto aos sindicatos dos canais
públicos, todos eles fizeram saber (CFDT, SNJ, CFTC, SNRT-CGT e SNJ-CGT) que
não estavam dispostos a colaborar com a TF1 e advertiram contra um «desmantelamento
programado do audiovisual público» [9]. Não se percebe, com efeito,
como poderá todo o pessoal da France Télévisions trabalhar eficazmente numa
atrelagem contra-natura e sob a égide dum presidente da TF1, Patrick Le Lay,
que em 2004 se distinguiu ao afirmar que a sua missão consistia em vender à
Coca-Cola «tempo disponível do cérebro humano». E isso quando a AFP e a RFI
se vêem convidadas a pôr generosamente à disposição dos interessados as suas
redes de correspondentes. Para mais, o projecto levanta a questão da sua articulação
com as missões informativas da TV5 e da Euronews. Estes dois canais, que têm
a enorme vantagem de dispor de uma rede de transmissão mundial construída ao
longo do tempo, atingem, respectivamente, 144 e 155 milhões de lares numa
centena de países. Não há dúvida nenhuma de que teria sido mais pertinente
utilizar este acervo para dotar a CFII com uma plataforma de lançamento
operacional... Mas os accionistas multinacionais ou europeus destes dois
canais, que se teriam mostrado propensos a favorecer uma independência
editorial, pelos vistos não coincidiam com a vontade de pôr sob tutela a
informação internacional à francesa. O primeiro-ministro,
Dominique de Villepin, acabou assim por não mexer no essencial das conclusões
do Relatório Brochand. O projecto da CFII, realizado por encomenda da
presidência da República, pouco preocupada em respeitar o código dos mercados
públicos com base em concursos, será assim o exacto reflexo da política
chiraquiana em matéria de audiovisual externo. O canal, que deverá começar a
transmitir em 2006, limitar‑se‑á a ter um orçamento muito
modesto de 65 milhões de euros (contra os 887 milhões de dólares, cerca de
750 milhões de euros, da CNN Internacional e os 510 milhões de euros da BBC
World). Disporá apenas de 130 jornalistas e, ao mesmo tempo que a Al Jazira e
a Rússia se preparam para emitir integralmente em língua inglesa, terá
apenas, quando começar a emitir, uma parte diária de quatro horas destinada
ao público anglófono. Quanto ao lugar reservado à língua árabe, este deverá
fazer pálida figura ao lado da BBC Arabic TV, o canal internacional que a
Grã-Bretanha está prestes a lançar em língua árabe e que transmitirá 24 horas
por dia. No tocante à língua espanhola, esta só está prevista para a CFII num
segundo tempo. E este o preço a pagar para permitir que um presidente em fim
de mandato realize o seu sonho de uma “CNN à francesa”, a qual só se
distinguirá das congéneres norte-americanas pelos parcos meios de que irá
dispor. Sob o impulso do canal norte‑americano Fox News, de Rupert
Murdoch, desde o 11 de Setembro de 2001 a informação internacional entrou na
era do patriotismo e da instrumentalização partidária. E a França não lhes
quer “ficar atrás”... ______ [1] Que declara «incompatíveis
com o mercado interno» as ajudas públicas «que ameaçam falsear a
concorrência». [2] AFP, 7 de Março de 2002. [3] CB News, 26 de
Janeiro de 2004. [4] Relatório Brochand
ao primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, 24 de Setembro de 2003. [5] Audição no Clube Parlamentar
sobre o futuro do audiovisual, 1 de Fevereiro de 2005. [6] Comunicado da SDJ citado
pelo diário Le Monde, 21 de Maio de 2005. [7] Dossiê de imprensa do
Relatório Brochand, p. 12. [8] Libération, 25 de Julho de 2005. [9] AFP, 12 de Janeiro de 2004. |