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28/11/2006 Fredy
Muñoz: outros pesos, outras medidas Pedro Aguiar Várias vozes da imprensa
internacional estão caladas no caso da prisão do correspondente da rede Telesur
na Colômbia, Fredy Muñoz, que completou uma semana neste domingo, 26 de Novembro
de 2006. Entidades como a Associação Mundial de Jornais, o World Press
Freedom Committee e a Freedom House, que costumam intervir no caso de prisões
políticas contra jornalistas, desta vez se omitiram. Muñoz foi preso no último dia
19 pelo Departamento Administrativo de Segurança (DAS), polícia federal
colombiana, em cumprimento a uma ordem expedida pela 5ª procuradoria regional
(Barranquilla, norte do país). O jornalista, que é colombiano, é acusado de
participar de dois atentados à bomba contra a rede de energia eléctrica em
Barranquilla e Cartagena em 2003. De acordo com o ministério público da
Colômbia, Muñoz foi denunciado por guerrilheiros das FARC que cumprem pena
por crimes semelhantes. A Telesur rebate que estes presos são estimulados a
fazer delações falsas para beneficiarem do programa de delações premiadas. Na quinta-feira, o jornalista
foi levado para depor no tribunal de Barranquilla e, durante poucos momentos,
deu declarações à imprensa. «Eu não tenho tempo de ser chefe de milícias. Eu
só tenho tempo de ser jornalista. Não me sobraria um minuto para outra coisa
na vida, muito menos para ser chefe de milícias terroristas. Gosto muito do
meu país para iniciar uma acção dessas», disse Muñoz. A Telesur também
divulgou uma carta escrita pelo próprio Muñoz dentro da prisão (segue a
tradução da íntegra abaixo). A Federação Internacional de
Jornalistas emitiu um comunicado expressando «preocupação» com a prisão do
jornalista e ressaltando a urgência de «deixar claro se realmente a prisão de
Muñoz não responde à necessidade de calar as suas denúncias sobre supostas
irregularidades cometidas pelo DAS e outras instituições policiais e
militares da Colômbia». Já a ONG Repórteres Sem Fronteiras exigiu a libertação
do repórter e afirmou que «a prisão de Fredy Muñoz é pura e simplesmente um
abuso de poder e uma arbitrariedade». A Sociedade Interamericana de
Imprensa (SIP) declarou que «se manterá atenta» ao caso de Muñoz e afirmou
ter pedido às autoridades colombianas que assegurem todas as garantias legais
ao jornalista. Outras cartas de apoio partiram da colombiana Fundación para
la Libertad de Prensa (FLIP), da Associação Brasileira de TVs Comunitárias
(ABCOM), reunida em congresso este fim de semana, e da Coordenação de Mídia
Alternativa da Colômbia. ENTIDADES OMITEM‑SE Por outro lado, a Associação
Mundial de Jornais (WAN em inglês) divulgou o facto mas não se manifestou
oficialmente, ao contrário do que faz em casos semelhantes. O Instituto
Internacional de Segurança Jornalística (International News Safety
Institute), que divulga relatórios semanais sobre jornalistas presos no
mundo, nada mencionou no último, datado do dia 20. Sete dias depois da
prisão, nada se encontra sobre o caso de Fredy Muñoz no website da Freedom
House, entidade americana conhecida por patrulhar atentados a liberdades e
direitos civis (e privados) no mundo. A mesma situação repete‑se com
as páginas da International Press Institute, World Press Freedom Committee,
Reporters Committee for Freedom of the Press, Canadian Journalists for Free
Expression, todas entidades acostumadas à denúncia de arbitrariedades contra
a liberdade de imprensa. Os sites também não explicam
a omissão das mesmas entidades que foram rápidas a condenar os assassinatos
de Anna Politkovskaia na Rússia e de Gueorgui Gongadze na Ucrânia, e que são
tão rígidas no monitoramento à liberdade de imprensa na China, Venezuela,
Bielorrússia, Moldávia, Bolívia e outros países sob governos
anticapitalistas. Mesmo a RSF, que se apresenta tão combativa, desta vez foi
condicional:«se for confirmado que [a prisão de Fredy Muñoz] está relacionada
com a transmissão pela Telesur, um ano atrás, de entrevistas com
guerrilheiros, então o governo colombiano será culpado de atentar contra a
liberdade de imprensa», disse o comunicado da ONG. Segundo o relatório anual da
própria RSF, a liberdade de imprensa na Colômbia é classificada em «situação
difícil» e o país ocupa o 131º lugar no ranking, entre 168 países analisados
pela entidade. Outro levantamento, feito pela FIJ, aponta o país como campeão
em morte de jornalistas nas Américas em 2005. «Não consigo imaginar as actividades
informativas de um jornalista alternadas com a detonação de bombas», ironizou
o director da IFJ local Eduardo Márquez. De acordo com ele, na Colômbia têm
acontecido «todo o tipo de abusos cometidos contra colegas em nome da guerra
ao terrorismo». A ordem para a prisão do
correspondente da Telesur foi expedida pela justiça colombiana no dia 10 de Novembro,
enquanto Muñoz estava em Caracas, na Venezuela, participando de um workshop
de telejornalismo. Ele teria sido apontado, em depoimentos de três
guerrilheiros presos, como colaborador das FARC sob o pseudónimo de “Jorge
Eliécer”. Assim que pisou em território colombiano, o jornalista foi preso. A
polícia também afirmou ter encontrado armas durante uma revista na casa dele.
O DAS alega que a ordem da procuradoria é resultado de três anos de
investigação contra Muñoz por «crimes de rebelião e terrorismo», mas não
apresentou à imprensa as “provas sólidas” que diz ter. HISTÓRICO DE MUÑOZ Fredy Muñoz nasceu em Bogotá,
tem 36 anos e iniciou a carreira nos jornais El Universal e El
Periódico. Trabalhou também para a ONU, elaborando relatórios sobre
desigualdades sociais e direitos humanos, e para o canal regional TeleCaribe.
Começou a trabalhar para a Telesur logo que a rede foi lançada, em Julho de
2005. Para o presidente da
emissora, Andrés Izarra, a prisão tem motivação exclusivamente política e foi
orquestrada pelo governo de Álvaro Uribe, principal adversário regional do presidente
vizinho Hugo Chávez. «Há um interesse político em atacar a imagem e a
credibilidade da Telesur», disse. «Todos os que exercem o jornalismo na
Colômbia sabem que estão sujeitos a uma actividade que acarreta um risco
considerável. No caso da Telesur, temos um risco adicional, já que foi da
Colômbia que vieram os ataques mais graves à nossa rede. Desde antes de irmos
para o ar, diziam que promoveríamos o terrorismo, que levaríamos a voz das
FARC ou que éramos uma rede de campanha de Chávez», acrescentou Izarra, que
antes de assumir a direcção da Telesur foi repórter e editor nas americanas
NBC e CNN. No depoimento à justiça
colombiana, Fredy Muñoz disse desconhecer totalmente os factos dos quais é
acusado. O advogado do jornalista, Tito Augusto Gaitán, pediu ao comité local
da FIJ que entidades de defesa da liberdade de imprensa façam pressão para
que o caso não seja mantido na justiça regional de Barranquilla. «Não há
garantias de uma investigação transparente», disse Gaitán. CARTA DE FREDY MUÑOZ Caros colegas e amigos do
mundo: Mais uma vez, o jornalismo
livre e crítico é agredido por aqueles que insistem em utilizar a coacção, o
amedrontamento, a mentira e a força para subjugá-lo. Em 19 de Novembro,
quando voltava à Colômbia depois de ter participado de um workshop de
narrativa audiovisual da Telesur com Michael Cowgan (um jornalista da BBC da
América do Norte) e Torry Zumbado (cinegrafista independente na guerra do
Iraque), fui preso pelas autoridades de imigração colombianas, acusado de
rebelião e terrorismo. Esta é uma acusação que,
assim como eu, centenas de jornalistas do mundo inteiro já sofreram, depois
que o unilateralismo estadunidense decidiu acusar de terroristas aqueles que
se opõem a ele com a razão e com argumentos, e a exaltar aqueles que baixam a
cabeça, omitem os seus crimes e o seguem. Colegas e amigos, de dentro
deste espaço fechado, envio a minha mensagem de agradecimento a todos vocês
que continuam a defender a vida e a liberdade nesta profissão necessária, e a
todos os mais que a desempenham com luta ardorosa. Que ironia que, enquanto as
autoridades judiciais me fichavam por acusações muito longínquas da realidade
dos meus 12 anos de exercício jornalístico, a televisão colombiana transmitia
uma homenagem ao sacrificado Jaime Garzón, um jornalista cujo trabalho
provocou a ira e a intolerância de um poder maligno e teimoso, entrincheirado
na institucionalidade da nossa pátria. O facto é que um bom
jornalista sabe apenas como dizer e divulgar a verdade; e, nos nossos
sofridos países latino‑americanos, a verdade é o sol que revela e
remove os homens das sombras. Colegas e amigos, obrigado
outra vez por aumentarem as minha voz com as vossas. Por insistirem, ainda
que estas montagens aconteçam tão frequentemente e que apesar disso a força
não decaia. Obrigado por me ensinarem a
não fraquejar, porque «fazer jornalismo é tornar público o que não se quer
que seja sabido; tudo o resto é propaganda» (Tayllerand). Com um forte abraço, Fredy Muñoz Altamiranda Correspondente da Telesur na
Colômbia 20 de Novembro de 2006 |