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Unidos da América |
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Setembro 2005 O
grupo Sinclair, império da televisão conservadora nos Estados Unidos Eric
Klinenberg * Por todo o lado, vários
são os industriais ultraconservadores que estão a actuar no sentido de
consolidarem o seu monopólio das ondas: o grupo Murdoch tem ambições na
Internet, o editor Axel Springer cobiça uma rede de televisões e a Fininvest
(que pertence a Berlusconi) poderá adquirir o diário Corriere della Sera.
Nos Estados Unidos, graças ao grupo Sinclair, a administração Bush dispõe de
um eficaz retransmissor de propaganda. David Smith, director‑geral do Sinclair Broadcast Group, fundado por seu pai, Julian Sinclair Smith, em geral evita falar com repórteres. Mas no encontro que tivemos com ele, e que durou várias horas, pronunciou-se, com muita franqueza e algum empolgamento, sobre as informações transmitidas pelas cadeias televisivas dos Estados Unidos (CBS, NBC, Fox, ABC e CNN), teceu considerações sobre o papel desempenhado pelos proprietários mediáticos e entrou em confidências a respeito dos projectos que tem para o grupo de 62 canais de televisão locais a que preside. Os seus comentários nem sempre evitaram o tom do sermão: «Nós temos, de certa maneira, uma responsabilidade social, a responsabilidade de fazer o que é justo. Defini-lo não é fácil, mas há coisas que são evidentes». O mais “evidente” e mais importante diz respeito à política. «Aquilo que nós pensamos não deve interferir na nossa profissão», sublinhou David Smith. «No tocante a notícias, se uma informação não for tratada de forma muito equilibrada, com a balança bem no meio, e eu vier a saber disso, temos o caldo entornado». Declarações perfeitamente banais – até ao momento em que o nosso interlocutor explicita o seu pensamento: de todas as empresas mediáticas dos Estados Unidos, só a Fox e a Sinclair se situam “no meio”, sendo de esquerda as restantes 99,9 por cento [1]... David Smith particulariza a sua definição do pluralismo logo que aborda a política externa: «Estamos em plena guerra, com razão ou sem ela. E contra isso eu nada posso. Os nossos eleitos decidiram que a guerra era de nosso interesse. Tendo eles tomado essa decisão, com razão ou sem ela, penso que é nossa obrigação apoiar as nossas tropas e que é preciso os americanos irem combater. Por consequência, é meu dever apoiar o presidente. Em minha consciência, não posso ficar de fora quando alguém mobiliza centenas de milhares de soldados para uma operação que se destina a defender-me». Para se tornar o principal proprietário de canais de televisão, o grupo Sinclair tirou partido da desregulamentação das ondas de transmissão televisiva orquestrada pela Federal Communication Commission (FCC). Com 62 canais repartidos por 39 “mercados” (ou zonas de transmissão), o grupo Sinclair, que cresceu muito desde a sua fundação em 1971, atinge agora 24 por cento dos telespectadores norte-americanos. Entre os quais os dos Estados eleitoralmente sensíveis do Ohio (que garantiu à justa a reeleição do presidente cessante), da Florida (que em 2000 tornou possível George W. Bush ser eleito com a vantagem de cerca de 500 votos e o apoio do Supremo Tribunal), mas também da Pensilvânia, do Nevada, do Michigan, do Wisconsin ou do Iowa. O grupo Sinclair, que não emite nas grandes cidades democratas como Nova Iorque, Los Angeles e Chicago, implantou-se, através da aquisição de um ou dois canais locais, em cidades de média dimensão. Situação que lhe permite influenciar os eleitores sem se fazer muito notado. O QUARTEL‑GENERAL DECIDE Em 2004, pela primeira vez, utilizando as frequências que lhe haviam sido concedidas, o grupo Sinclair interveio abertamente na política interna para difamar o candidato democrata, John Kerry, e para ocultar as más notícias sobre a evolução da guerra no Iraque. O centro nevrálgico da máquina Sinclair é a direcção da informação, “News Central”, uma estrutura muito hierarquizada graças à qual David Smith, juntamente com o vice‑presidente e estrela do canal, Mark Hyman, e alguns quadros de nível superior, decide sobre o conteúdo dos 62 canais locais. Com isso criaram uma operação de relações públicas ao serviço do Partido Republicano que gostariam que fosse vista como uma empresa mediática [2]. Para completar o trabalho de “informação”, a crónica diária de Mark Hyman, com o título genérico “The Point” (“O essencial do dia”), é transmitida todas as noites por todos os canais do grupo, quer estes queiram ou não. Hyman, antigo oficial dos serviços secretos da Armada, usa sempre uma pulseira com o nome de um soldado que morreu na Guerra do Golfo; conforme explica, isso lembra-lhe o que é o preço da liberdade. Desempenha várias funções no grupo: vice-presidente, cronista e responsável pelas actividades de lobbying. Quando ainda lhe sobra tempo, Hyman é também vice-presidente do Centro para uma Política Baseada na Ciência, que opera em Annapolis (Maryland), não longe da sede do grupo Sinclair. Este instituto, que desde 1998 recebeu mais de 650.000 dólares da empresa ExxonMobil, está na origem de descobertas pitorescas, tais como a de «os níveis de mercúrio ingeridos pelos peixes não terem consequência nenhuma na saúde dos humanos» ou a afirmação de que a poluição do ar «não constitui um factor importante para explicar a asma». Mark Hyman é tão volúvel como agitado. De peito inchado, vai debitando para uma câmara que o filma as suas tiradas conservadoras. Fá-lo sem finura, mas muito à vontade. Na sua crónica diária pode declarar, por exemplo, que os franceses são uns «macacos derrotistas que comem queijo» («cheese-eating surrender monkeys»). Mas também não gosta muito dos seus compatriotas quando estes são de esquerda, dizendo a seu respeito que são «as pessoas menos generosas do país» ou que «passam o tempo a atacar a América», e tão‑pouco aprecia os canais televisivos que «orientam a informação e a deturpam» contra a Casa Branca. Hans Blix, o antigo inspector das Nações Unidas no Iraque que criticou a guerra, é por ele considerado «incompetente», visto não ter encontrado as famosas armas de destruição maciça. Umas semanas antes da eleição presidencial de Novembro de 2004, afirmava Hyman num editorial que «os chefes terroristas muito gostariam que o presidente Bush fosse vencido e substituído pelo senador Kerry», apresentando uma estimativa igualmente tonta, por ser tão diminuta, das baixas iraquianas durante o conflito. Mas a vedeta mediática do grupo Sinclair sabe apresentar propostas, tais como a supressão da progressividade do imposto e sua substituição por uma taxa de consumo, a privatização dos sistemas federais de segurança médica para as pessoas idosas (Medicare) e para os indigentes (Medicaid) ou a protecção incondicional de todos os “direitos” dos proprietários de armas de fogo. Sem esquecer a guerra no Iraque, como o impõe a democracia. Pouco interessa a amplidão das reacções críticas que tais comentários suscitem; os responsáveis dos canais televisivos do grupo Sinclair que gostariam de não transmitir “The Point” aprenderam a deixar de solicitar essa autorização, de tal modo a negativa seria brutal. Segundo a filosofia de gestão de David Smith, «sempre que uma decisão é de facto importante, qualquer empresa mediática age como uma ditadura. Alguém tem de decidir». Quando a CNN lhe perguntou por que motivo os canais filiados no seu grupo não podem escolher os conteúdos que se adaptem melhor ao público respectivo, este partidário do neoliberalismo expôs a sua concepção da autonomia local: «A cadeia de lojas de bricolage Sears diz às sucursais: “Vocês vão vender as ferramentas da marca Craftsman”; os McDonald’s dizem aos seus restaurantes: “Todos vocês vão servir pãezinhos com grãos de sésamo”. Porque o nosso trabalho é este. Não faz sentido pensar que os nossos canais de televisão são apenas concessionários autónomos e que o gerente local deve poder escolher o programa que mais lhe convém». Segundo os empregados, actuais e antigos, que inquirimos, as opções editoriais de Mark Hyman têm um impacte que vai muito para além do simples comentário transmitido todas as noites. Após o 11 de Setembro de 2001, por exemplo, o grupo Sinclair obrigou todos os canais do grupo a declararem, através de um jornalista ou de um apresentador, que apoiavam a “guerra contra o terrorismo” encetada pelo presidente George W. Bush. Se algum recusasse, invocando a deontologia jornalística, Hyman gravava ele próprio essa declaração de lealdade e mandava transmiti-la em nome do grupo. A promoção de um ponto de vista de direita assenta por vezes na ocultação de certas informações. Foi o que aconteceu em Abril de 2004, quando o grupo proibiu aos seus canais filiados no grupo ABC que transmitissem uma edição especial do programa “Nightline” (ABC), intitulado Os que tombaram, durante a qual o conhecido jornalista Ted Koppel leu todos os nomes dos soldados mortos no Iraque. Jon Liberman, que foi responsável do escritório do grupo Sinclair em Nova Iorque, contou que o seu chefe de redacção, invocando pressões vindas do topo da hierarquia, nunca o autorizou a informar sobre o escândalo das torturas de Abu Ghraib. Um antigo produtor acrescentou: «Em duas ocasiões de que me lembro, disseram-me que não convinha dar más notícias relativamente ao Iraque. Era preciso que lá tudo estivesse a correr bem». «UMA FORMA DE FELONIA» O grupo mudou muito desde que Julian Sinclair Smith obteve em 1971 uma frequência UHF para criar uma pequena empresa de televisão familiar em Baltimore, a WBFF. Em 1986, os seus quatro filhos – David, Frederick, Robert e J. Duncan – juntaram-se ao pai e montaram com ele uma holding, a Sinclair Broadcast Group. Quatro anos depois, os irmãos sucederam ao pai e dedicaram-se a «concretizar a visão de todos eles». Actualmente, três dos irmãos dedicam-se a outros negócios, alguns dos quais criam sinergias com o seu império mediático. David Smith, grande investidor em concessionários automóveis, que se encontram entre os principais anunciantes da região de Baltimore, extrai o melhor lucro das compras de publicidade que essas empresas fazem aos seus canais televisivos. Frederick possui uma empresa imobiliária, a Todd Village LLC, a qual, segundo uma televisão de Baltimore, praticava a discriminação racial evitando mostrar certas propriedades a negros. Os irmãos Sinclair jogam também na Bolsa, coisa que alimentou suspeitas de crime de abuso de informação privilegiada quando cederam milhões de dólares de acções do grupo Sinclair numa altura em que estas estavam com um valor particularmente elevado. A orientação conservadora do grupo explica por que motivo a rede Sinclair proibiu os seus canais de transmitirem o referido programa “Nightline” intitulado Os que tombaram. O único motivo dessa censura terá consistido em que esse programa fazia abstracção do contexto da guerra – na realidade amplamente tratado pela ABC, de forma amiúde conforme aos desejos da administração Bush – e coincidia de forma abertamente polémica com o primeiro aniversário do discurso bélico do presidente, o qual, envergando um colete de piloto, anunciara a 2 de Maio de 2003, no porta-aviões USS Lincoln, que no Iraque a «missão [tinha sido] cumprida»... As famílias dos soldados e a maior parte dos eleitos, republicanos ou democratas, não ficaram convencidos com a explicação dada pelo grupo Sinclair para censurar o programa “Nightline”. O senador John McCain, antigo prisioneiro no Vietname e defensor da intervenção no Iraque, chegou mesmo a escrever uma carta‑aberta a John Smith: «A decisão de impedir os seus telespectadores de terem uma oportunidade de avaliar os terríveis custos da guerra constitui uma forma de felonia». A preocupação de equilíbrio de que David Smith se orgulha também não diz respeito às contribuições políticas dadas aos dois principais partidos. No nosso encontro, perguntou com insistência: «Sabe que dou tanto dinheiro aos democratas como aos republicanos?» Foi uma revelação espantosa, mas inexacta... Segundo dois responsáveis de associações não partidárias que inquirimos (o Center for Public Integrity e o Center for Responsive Politics), os republicanos foram grandemente favorecidos pelas contribuições do patrão do grupo Sinclair. Essa diferença é ainda mais notória se examinarmos as contribuições políticas feitas pelos empregados e quadros do grupo. Desde 1998, mais de 90 por cento das suas doações favorecem o Partido Republicano, quando em geral as grandes empresas de comunicação fazem questão de equilibrar tais coisas. Por exemplo, os responsáveis do Clear Channel, o grupo de estações de rádio muito à direita e muitas vezes comparado com a Sinclair ou a Fox, entregou mais de uma terça parte das suas doações ao Partido Democrata. David Smith não gosta que lhe perguntem por que motivo nunca solicita a colaboração de cronistas progressistas, com base num necessário pluralismo, limitando-se a responder que o programa “The Point” «dura apenas dois minutos, num telejornal de uma hora [contando a publicidade, que é prolífica]. É menos tempo do que o boletim meteorológico». Minutos antes, na nossa presença, o cronista Mark Hyman gabara‑se de que a maior parte dos telespectadores se lembra mais dele do que do apresentador do telejornal... Na verdade, os patrões do grupo Sinelair pouco se importam com as recriminações que lhes façam. Pelo contrário, o que eles fizeram foi fortalecer o controlo organizativo e ideológico de todas as operações. Quando Hyman, demoradamente, nos levou a visitar as instalações, começou pelo departamento gráfico, onde uns designers da ciber-geração estavam a produzir um filme promocional do género da MTV (a televisão dos clips musicais), repleto de imagens de síntese e de ritmos de discoteca. «Tentamos atingir um alvo mais jovem», explicou Hyman, «e por isso procuramos obter uma imagem peculiar. Os nossos apresentadores são em geral mais jovens do que os outros e o nosso grafismo não fica a dever nada ao das grandes redes. Não é isto que se vê nas informações da maior parte das estações de televisão locais». Um técnico sublinhou então que «o conceito principal consiste em dar roupagens únicas e centralizadas» a todos os canais do grupo. Os programas de meteorologia levam ao extremo esta lógica da centralização. O pessoal do serviço meteorológico (oito a dez pessoas, de preferência truculentas, de tal modo esta parte das notícias locais é essencial) trabalha na sede do grupo Sinclair, em Hunt Valley, no Maryland, a cerca de cem quilómetros de Washington. É ali que arquivam os atlas, que estudam os mapas regionais e se treinam a pronunciar os nomes de lugares onde nunca puseram os pés. Cada apresentador da meteorologia prepara o seu programa para três a cinco cidades por dia – significando isso que também supervisiona a montagem, dirige a operação da câmara e escolhe os gráficos. As economias que o grupo assim faz são consideráveis, como explica Hyman: «Compor um programa diário de meteorologia é coisa de poucos minutos. É aliás por isso que os meteorologistas que trabalham nos outros media fazem paralelamente uma data de coisas, de forma voluntária ou não, tais como participar em festas locais, em feiras, em quermesses escolares. Por isso pensámos: porque não termos pessoas que só façam meteorologia durante todo o dia? Os telespectadores querem lá saber se o apresentador está num estúdio de Oklahoma City, de College Park ou aqui!» James Wieland, que pormenoriza o funcionamento deste sistema, acrescenta: «A maior parte das pessoas espanta-se quando sabe que nem sequer nos encontramos lá no sítio». Os críticos da televisão consideram que este género de falsa proximidade se assemelha a uma mentira e talvez a algo de ainda mais viscoso ou mesmo ameaçador. Tais receios compreendem-se. Hyman e Wieland mostram-nos três boletins meteorológicos, todos eles feitos na véspera por Vytas Reid, o chefe de serviço. No tocante à cidade de Buffalo, no Estado de Nova Iorque, convida os telespectadores a «verem o que está a chegar por cima de nós». No caso da cidade de Flint, no Michigan, anuncia ventos fortes «precisamente a sul de onde nos encontramos». No caso de Raleigh, na Carolina do Norte, resume o tempo que «nós vamos ter». A METEOROLOGIA BEM LONGE DE VÓS... Mas há mais. Vytas Reid conversa com os apresentadores do telejornal local, que entretanto enviaram o resumo daquilo que vão dizer antes das notícias, para dar a impressão de que está fisicamente ao lado deles, ao mesmo tempo em Buffalo (no Nordeste), em Flint (no Midwest) e em Raleigh (no Sul). Ignoramos o que poderá passar-se no caso de haver um temporal imprevisível, sabendo-se que as observações dum meteorologista e o seu conhecimento da geografia local podem ajudar os habitantes a proteger-se. Mas os responsáveis do grupo replicam que num caso desses o telejornal local tratará a intempérie em directo. Os canais pertencentes ao grupo Sinclair não têm apenas falta de meteorologistas. As suas equipas de repórteres e de montadores são também muito reduzidas. Porque o trabalho é amiúde informatizado e composto com base em assuntos genéricos susceptíveis de serem transmitidos tal e qual de um canal do país para o outro, o que permite reduzir substancialmente os custos salariais. Segundo Hyman, as coisas são muito simples: «Não temos nada contra os operadores de câmara ou contra os montadores. Mas a tecnologia avançou de tal maneira que os realizadores consideram poder fazer um trabalho ainda melhor automatizando algumas das suas tarefas. Podemos agora montar um estúdio de informações com, digamos, menos um produtor, menos um jornalista, sem montador nenhum, com menos dois operadores de câmara, e isto é só o começo». Segundo ele, o grupo Sinclair nem por isso despediu, no total, mais do que umas «três dúzias» de pessoas – informação muito diferente daquilo que podemos ver no sítio Internet dedicado ao emprego dos jornalistas norte-americanos, JournalismJobs.com, onde são referidas 229 reduções de efectivos nos canais televisivos deste grupo... só num ano. Também neste caso a explicação já está engatilhada, e também não convence. Segundo Hyman, as notícias realizadas a muito bom preço permitiriam propor informações locais a estações de televisão que não têm meios para as fazer. Nalguns casos é verdade. Mas o grupo Sinclair adquiriu também canais filiados nas redes televisivas e com programas informativos florescentes, de modo a “reduzir” os efectivos convertendo os serviços noticiosos ao modelo “News Central” do grupo, apesar dos insistentes protestos dos telespectadores. Em Saint Louis, no Missouri, por exemplo, o grupo Sinclair encerrou toda a divisão informativa desse canal televisivo. A audiência dos telejornais do grupo é aliás medíocre na maior parte dos mercados. Até o canal de Baltimore, quartel-general do grupo, está a perder telespectadores a um ritmo alarmante. Hyman admite, no entanto, que a informação local não corresponde a um esclarecimento do público, mas a outros motivos: «Entre 30 a 35 por cento dos anunciantes, segundo as regiões, só querem comprar espaços publicitários nos telejornais. Numa abordagem financeira, dificilmente podemos ser concorrenciais tendo apenas por base 70 por cento dos rendimentos publicitários». Trocado por miúdos: sem noticiários, a maior parte dos canais locais não tem viabilidade económica. Ora acontece que o grupo está a precisar de dinheiro. A sua política de aquisições endividou-o e o seu volume de negócios (menos de 750 milhões de dólares em 2003) continua muito atrás do dos seus concorrentes [3]. Um pouco aliás como a qualidade produzida; os investigadores que compararam o tratamento das campanhas eleitorais em diversos canais de televisão concluíram que os da Sinclair realizaram menos temas, que estes eram mais curtos e tinham uma apresentação ainda pior do que os outros [4]. O apanhado sonoro das declarações de um candidato dura em média 36 segundos nas outras estações locais; nas do grupo Sinclair limita‑se a 7 segundos. Em contrapartida, não contam o tempo quando se trata de atacar os democratas. É isso que explica que Smith e Hyman se tenham esfalfado há um ano para obter o documentário intitulado Stolen Honor (A honra perdida), feito contra John Keffy. Na altura da campanha presidencial, o objectivo deste filme consistiu em demonstrar que o candidato democrata, que se alistara como voluntário na Guerra do Vietname, onde foi condecorado (ao passo que Bush arranjou maneira de escapar à guerra), depois de ter regressado aos Estados Unidos debilitou a frente interna com as críticas que fez aos crimes americanos no Sudeste Asiático e encorajou a resistência vietnamita. DESPEDIMENTO IMEDIATO Dias depois de ter conseguido obter aquela preciosidade “histórica”, o grupo Sinclair anunciou a todos os seus canais que deviam alterar a programação para que o documentário fosse transmitido. Essa decisão impunha‑se, em particular, nos vinte Estados onde o desenlace do escrutínio parecia ser renhido (Florida, Ohio, Pensilvânia, Virgínia Ocidental, etc.). Os jornalistas da “News Central”, quando se abriram em confidências a este respeito (exigindo sigilo, por motivos que em breve se tornaram claros...), afirmaram que Hyman dirigiu todas as operações: «Explicaram-nos que ia ser o programa dele e que ele o apresentaria pessoalmente». Por conseguinte, no início de Outubro de 2004, os programas de televisão anunciaram: «Stolen Honor, uma edição especial de “The Point”». Logo que a equipa da campanha de John Kerry soube que a transmissão do documentário estava prevista para poucos dias antes do escrutínio, exigiu que a autoridade de regulação federal impedisse a utilização por Sinclair das suas licenças de emissão com o fito de influenciar o decorrer do acto eleitoral. Reclamou ainda que o equivalente do preço do programa, pela tarifa publicitária, fosse imputado às despesas de campanha do Partido Republicano e calculado como uma doação do grupo Sinclair ao candidato Bush. Grupos de vigilância dos media lançaram então um boicote dos anunciantes que patrocinaram o documentário em questão. O Lehman Brothers, um banco de negócios (sector que de preferência favorece os democratas), anunciou que «a decisão de substituir os programas habituais pelo documentário Stolen Honor terá efeitos negativos, tanto financeiros como políticos» para o grupo Sinclair. Com efeito, o valor estimado do grupo viu-se imediatamente diminuído; a agência de notação Moody reviu o seu prognóstico relativo às perspectivas do grupo Sinclair, que passaram de «estáveis» para «negativas»; as acções baixaram 17 por cento e grandes investidores institucionais exigiram que o documentário não fosse transmitido. Entre os jornalistas do grupo o estado de espírito era pouco melhor. Desmoralizados pelas constantes intervenções da direcção, estes perguntavam-se que crédito profissional poderiam ter na sequência de semelhante caso. Já antes, em privado, se queixavam da presença invasora de Hyman nas reuniões da redacção, na altura em que foi desencadeada a guerra no Iraque e durante a campanha presidencial: «Os produtores tinham medo. Íamos às reuniões para nos dizerem que assuntos devíamos abordar». O responsável da secção de Washington, Jon Leiberman, decidiu intervir: «Eu já tinha dito ao patrão que este caso iria afectar negativamente as capacidades jornalísticas da minha equipa no respeitante à obtenção de informação. Tomei a palavra numa reunião da redacção para dizer a que ponto era ridículo apresentar aquele documentário como se fosse informação. Sabia que estava a arriscar-me, mas também sabia que estava a exprimir aquilo que outros sentiam». De facto, muitos jornalistas só não tinham reagido por temerem ver‑se de imediato lançados num mercado de trabalho cada vez mais dominado por um pequeno número de conglomerados [5]. Decidindo exprimir publicamente a sua opinião, Jon Leiberman contactou um jornalista do Baltimore Sun, esperando que uma advertência no diário local seria suficiente para obrigar o grupo Sinclair a rever os seus projectos. Essa informação foi logo transcrita e comentada em múltiplas páginas da Internet. Horas depois, os seus superiores convocaram-no com carácter de urgência: «Percebi sem tardar o que ia passar-se», disse‑nos o jornalista. «Fui pois à sede, a Hunt Valley, onde me informaram que estava despedido por ter cometido uma infracção; ao falar da reunião que tínhamos tido, comunicara informações internas. A minha remuneração e as regalias que lhe estavam associadas cessaram de imediato, não ia ter direito a qualquer indemnização por despedimento, nem teria direito aos meus dias de férias em atraso. Escoltaram-me até ao carro, disseram‑me que tirasse tudo o que tinha nos bolsos, trataram-me como um delinquente. E acabou-se. Nunca mais lá pus os pés». Mas o despedimento dum repórter conhecido não resolveu o problema do grupo Sinclair. No dia seguinte, um accionista anunciou que ia processar o grupo, culpado de ter dado prioridade às suas opções políticas contra as suas responsabilidades financeiras. Desta vez, era preciso fazer marcha‑atrás, tendo o grupo Sinclair anunciado que o documentário incriminado não seria transmitido na íntegra mas sim montado e grandemente seleccionado, de forma a alimentar um debate muito mais geral sobre a influência dos media em período eleitoral... Foi assim transmitido, a 22 de Outubro de 2004, onze dias antes da eleição presidencial, o programa intitulado História de um antigo combatente: política, pressões e media. A audiência revelou-se medíocre, tendo a maior parte dos observadores considerado o programa a bem dizer neutro e sem interesse. Mas os grupos de crítica dos media viram nesse resultado uma vitória parcial. Desde a reeleição de Bush, os americanos fizeram saber que a segunda prioridade nacional era, a seu ver, a reforma dos media. Foi uma notícia bastante má para os conglomerados constantemente desejosos de ver a Federal Communications Commission aligeirar um pouco mais as restrições relativas à concentração dos media. Ora, como explica um antigo responsável da FCC, Mason Blair Levin, «em geral, a desregulamentação ocorre discretamente». Com a involuntária ajuda do grupo Sinclair, o movimento norte-americano de observação e crítica dos media aprendeu a fazer mais barulho. ________ * Professor da Universidade
de Nova Iorque. Autor de Heat
Wave: A Social Autopsy of Disaster in Chicago, University of Chicago
Press, 2002. [1] Eric Alterman, Il paraît que les médias américains sont de gauche... [ed. brasileira: Macartismo, versão Bush], Le Monde diplomatique, Março de 2003. [2] A revista Rolling Stone, que apoiou esta investigação, publicou outros elementos deste projecto no número de Fevereiro de 2005. [3] Para detalhes, ver: http://publicintegrity.org/telecom/analysis/CompanyProfile.aspx?HOID=22261. [4] Serge Halimi, Un journalisme
de racolage, Le Monde diplomatique, Agosto de 1998. [5] Ler Eric Klinenberg, Dix maîtres pour les médias américains [ed. brasileira: A concentração das mídias nos EUA],
Le Monde diplomatique, Abril de 2003. |