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24/08/2006 Dia
22 de Agosto: o mundo não acabou Luís Leiria O dia 22 de Agosto chegou ao
fim, hoje já é 25 e o mundo não acabou. Mas quem é que achava que ia acabar?
Ou quem, pelo menos, punha a possibilidade de algo de muito grave – como uma
guerra nuclear – poder vir a acontecer? Um fanático das mirabolantes teorias
da conspiração, que povoam sites e mais sites da Internet? Não. Quem andou
muito preocupado com a possibilidade de o dia 22 de Agosto ser a fatídica
data que o Irão escolheria para desencadear um ataque nuclear foi... o
director do Público, José Manuel Fernandes, seguindo um dos seus gurus,
o nonagenário Bernard Lewis. Relembremos. No dia 10 de
Agosto, impressionado com a notícia de que fora debelado um ataque terrorista
que pretendia fazer explodir no ar dez aviões, o sr. Fernandes escreveu um
artigo onde, sob o título “Datas fatais” desenvolvia a teoria de que a data
do suposto atentado, dia 11 de Agosto, não fora escolhida por acaso: «O
primeiro atentado do novo megaterrorismo ocorreu a 11 de Setembro. Madrid
também foi abalada num dia 11, mas em Março. E há apenas um mês, a 11 de
Julho, foi a vez de Bombaim experimentar o terror do islamo‑fascismo». Eis uma teoria capaz de
despertar a exaltação de todos os fanáticos da numerologia, caçadores de
OVNIS, defensores do regresso do V Império e quejandos. Dia 11, dia de
terrorismo. O pequeno problema é que está absolutamente provado que, se havia
um atentado a ser planeado em Londres, ele não ocorreria no dia 11 de Agosto,
até porque os supostos terroristas não tinham comprado bilhetes de avião,
muitos nem passaporte tinham. A véspera do dia 11 foi escolhida pela polícia,
provavelmente por timing político da conveniência de Tony Blair e de
George W. Bush, e não porque o suposto atentado iria ocorrer no dia seguinte. Mas a verdadeira tese de José
Manuel Fernandes era que algo de muito grave poderia ocorrer no dia 22 de
Agosto, data escolhida pelo presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, para
responder às propostas de seis potências que lhe ofereciam vantagens em troca
de abdicar do programa de enriquecimento de urânio. Porquê? Preparem-se os
leitores para uma longa explicação. Segundo o artigo que vimos a citar, «o 22
de Agosto deste ano corresponde, no calendário muçulmano, ao 28.º dia do mês
de Rajab do ano de 1427, um dia muito especial para os crentes, especialmente
para os xiitas». «De acordo com a tradição
(...) foi na noite de 27 para 28 de Rabaj que o profeta Maomé subiu aos céus
montado num cavalo com rosto humano», explicou, na época, o sr. Fernandes.
Haveria ainda mais coincidências: «Foi num 28 de Rabaj que o imã Hussein,
precursor do xiismo, iniciou a sua viagem de Kerbala para Medina, tal como
foi num 28 de Rabaj que Saladino entrou em Jerusalém depois de ter derrotado
o último dos reis cristãos». Depois de ler isto, ficamos a
pensar como é que Ahmadinedjad deixou escapar este dia magnífico sem fazer
nada, como realmente aconteceu. O director do Público ainda gastou
tempo a explicar que o presidente do Irão é «um fiel devoto que acredita na
tradição do 12.º Imã, Mahdi, o “Imã escondido”, que desapareceu no ano de 874
para um dia regressar num período de grande confusão, guerra e caos global».
Não se percebe bem esta alusão, já que nenhum xiita se arrisca a dizer quando
voltará o Imã oculto, e muito menos num dia 22. Quanto a dias de caos, já
houve muitos (no Iraque há todos os dias). Mas ainda haveria uma última
coincidência clarificadora: «22 de Agosto calhará a uma terça-feira – como em
2001 calhou o 11 de Setembro». Esmagados por esta
demonstração, não sei como os leitores do Público sobreviveram a um
ataque cardíaco no dia 22. Ainda para mais quando descobriram que as teses do
sr. Fernandes encontravam apoio no ilustre historiador Bernard Lewis, que,
hoje com 90 anos, se tornou no guru para assuntos islâmicos dos neoconservadores
[1] e escreveu no dia 8 de Agosto um artigo no Wall Street Journal [2]
onde, tal como o director do Público, alertava para as coincidências
do dia 22 e aventa a possibilidade de esta data ter sido escolhida por
Ahmadinejad precisamente para disparar uma bomba atómica sobre Israel, o que
poderia provocar o fim do mundo. O fim do mundo, explica, não seria problema
para o fundador da República Islâmica do Irão, o ayatollah Khomeini, para
quem «Ou o islão triunfará, ou todos ganharemos a vida eterna pelo martírio.
Em qualquer dos casos, o sucesso será nosso». No dia 22, o Irão apresentou
uma contraproposta às seis potências. Não lançou qualquer bomba, nem sequer
mandou um ayatollah de turbante falar com os representantes das potências.
Enviou o sr. Ali Larijani, que se veste com um impecável fato e usa gravata,
para apresentar a proposta, que, segundo Javier Solana, merece uma análise
cuidadosa e detalhada. Nela, pelo que já se sabe, o Irão tenta ganhar a
concordância com a manutenção do programa de enriquecimento de urânio em
troca de um programa detalhado de fiscalização internacional que comprove que
eles não estão a construir bomba alguma. Isto é: o Irão nem quer o
Armagedão, nem o martírio: quer evitar as sanções e evitar ser declarado um
Estado‑pária. É que os teocratas que governam o Irão, apesar do regime horrendo que impõem, não são loucos. Não acreditam em numerologia. Se calhar, até acham que as coincidências são exactamente isso. E sabem que, em matéria de números, qualquer matemático de medianas capacidades é capaz de pôr tudo em relação com tudo. ______ [1] Ler Thierry Meyssan, A “guerra das civilizações”, Voltaire, 04/06/2004 (n. IA). [2] Bernard Lewis, Does Iran have something in store?, Wall Street Journal, 08/08/2006. |