Informação Alternativa

Mundo

24/05/2006

 

Irão: os governos anglo­‑saxónicos fabricam notícias falsas

 

Thierry Meyssan *

Voltairenet

 

Gozando de uma impunidade confirmada desde o 11 de Setembro e da guerra do Iraque, os neoconservadores já não hesitam em utilizar as mais altas funções dos Estados para espalhar rumores e calúnias. Manipulando meios de comunicação social que privilegiam a reactividade e a emoção à verificação e à análise, acusaram o Irão de impor o porte de uma insígnia indumentária discriminatória aos judeus. É falso, mas causa prejuízo. Os governos estadunidense, australiano e canadiano prestaram-se ao jogo.

 

Depois das caricaturas de Maomé, eis chegado o tempo das caricaturas da República islâmica do Irão. Desde o seu famoso discurso sobre o Eixo do Mal, George W. Bush não esconde a sua intenção de atacar Teerão e doravante cada dia traz novas informações apavorantes para justificar esta decisão. Último avatar até à data: o caso dos “zonnar”, ou seja, das insígnias religiosas discriminatórias.

 

«CALUNIAI, CALUNIAI, PERMANECERÁ SEMPRE ALGO» (BEAUMARCHAIS)

 

Na sexta-feira 19 de Maio, o National Post de Toronto (Canadá) publicou um artigo do jornalista iraniano no exílio Amir Taheri: “Um código de cor para os infiéis no Irão” [1]. O autor descreve os debates actuais no Marjlis (Parlamento) por ocasião da reforma da lei de 1982 que define a decência indumentária para os muçulmanos. Ficamos a saber que, sob a influência do presidente Ahmadinedjad, um uniforme será imposto por etapas a toda a população para que cada um seja visualmente igual aquando do «regresso do imã escondido». 4,5 milhões de funcionários deverão adoptá­‑lo daqui até 2009 e 800 milhões de dólares deverão ser desbloqueados para vestir «os pobres e os necessitados». Uma lei ulterior deverá definir a aparência do rosto masculino (cabelos, barbas, bigodes). Resumidamente, o Irão estaria prestes a tornar­‑se um país totalitário. De passagem, Amir Taheri precisa que insígnias distintivas (“zonnar” em farsi) serão impostas aos não­‑muçulmanos: os judeus deverão cozer um emblema amarelo sobre as suas vestes, os cristãos um vermelho e os zoroastrianos um azul.

 

Num pequeno artigo não assinado, o diário precisa que as informações de Taheri lhe foram confirmadas por expatriados que vivem no Canadá. A lei teria já sido votada e estaria à espera da aprovação do Guia supremo, Ali Khamenei. O National Post teve igualmente tempo de recolher a reacção do rabino Marvin Hier, decano do Centro Simon Wiesenthal. Este último comenta: «É uma reminiscência do Holocausto. O Irão aproxima­‑se cada vez mais da ideologia dos nazis» [2].

 

No sítio do diário na Internet, a redacção propôs imediatamente aos leitores que respondessem a uma sondagem na forma de aprovação ou negação dos propósitos do rabino Hier: “Perigoso paralelo: está o Irão a tornar­‑se a nova Alemanha nazi?” [3].

 

No mesmo dia o porta-voz do departamento de Estado dos Estados Unidos, Sean McCormack, interrogado aquando da conferência de imprensa diária, declarou: «Li os artigos de imprensa [a este respeito]. Penso que se retomam uns aos outros. Há – tal como eu o compreendo – uma lei, actualmente discutida no Parlamento, cuja natureza exacta não é clara, e por isso abster-me-ei de aprofundar ou dar um comentário definitivo ou detalhado sobre um assunto a propósito do qual não tenho todos os elementos. Isto dito, se tal coisa devesse ocorrer, quer fosse no Irão ou noutro lugar, seria ignóbil» [4].

 

Simultaneamente, aquando de uma conferência de imprensa comum em Ottawa, os primeiros­‑ministros canadiano e australiano eram convidados por um jornalista, numa pergunta formulada em termos similares à colocada ao departamento de Estado, a comentar a notícia. O australiano John Howard declarou: «Nunca ouvi falar disso, mas tenho muito prazer em responder­‑vos. Se isso é verdadeiro, é totalmente repugnante. Isso faz evidentemente eco ao mais horrível período de genocídio da história mundial [5] e à marcação dos judeus, com uma insígnia sobre o seu vestuário pelos nazis, e todas as coisas desta espécie são totalmente repugnantes para os países civilizados – se é o caso, é mais uma coisa que me indica a natureza deste regime. É um insulto calculado – se é verdadeiro – não somente para os cristãos, mas mais particularmente para os judeus, e isso tem por conseguinte uma relação directa com o Estado de Israel que é objecto de discursos de ódio e de difamação [6]. Se é verdadeiro, e eu não vi os artigos, devem ser recentes ou ter sido escrito em línguas que não compreendo, mas se é o caso, conhece o meu ponto de vista e pode imaginar quais serão as respostas de outros governos a este tipo de coisas. Será pavoroso» [7].

 

E o primeiro­‑ministro canadiano Stephen Harper acrescentou: «Sabe, não sei que acrescentar mais ao que acaba de ser dito. Como o primeiro­‑ministro Howard, formularei a minha resposta começando por dizer “se isso é verdadeiro”. Infelizmente, já vimos bastante do regime iraniano para sugerir que seja capaz deste tipo de coisas. Penso que é espantoso pensar que um regime sobre a terra queira fazer seja o que for que possa recordar às pessoas a Alemanha nazi. Embora saiba que vimos tantas coisas do regime iraniano desde há tanto tempo, o facto de que tal medida possa ser encarada, penso que é absolutamente odioso. E espero que – sabe como os nossos aliados são passivos perante as difíceis questões em torno da aparente vontade do Irão de dotar­‑se da capacidade nuclear - isso faça meditar prudentemente [os nossos aliados] sobre a natureza de um regime que pode encarar tais acções ou tais pensamentos» [8].

 

No sábado 20 de Maio, o artigo de Amir Taheri foi reproduzido tal e qual pelo New York Post [9]. Entretanto uma quantidade de organizações sionistas ou evangélicas publicava comunicados vingadores.

 

Ora, como reconheceu depois o National Post, as imputações de Taheri são sem fundamento. A lei discutida no Majlis refere­‑se à definição de um fato nacional, assim como um hino e uma bandeira, e de modo algum a um uniforme. Não contém nenhum elemento discriminatório e tal nunca foi discutido nos longos debates parlamentares. Trata-se de uma operação de guerra psicológica clássica, mas implicando altas personalidades como propagandistas.

 

Amir Taheri é um antigo colaborador da ditadura do Xá Reza Pahlevi. Era então o editor chefe do diário oficial Kheyan. É hoje membro do gabinete neoconservador e sionista Benador Associates, que desempenhou um papel central na divulgação de falsas informações que impeliram à guerra contra o Iraque.

 

Amir Taheri

Este membro do gabinete de comunicação neoconservador Benador Associates está na origem da falsa informação.

Sean McCormack, Stephen Harper e John Howard

O porta-voz do departamento de Estado dos EUA e os primeiros­‑ministros canadiano e australiano. Algumas horas apenas após a publicação do artigo enganoso, retomaram simultaneamente a informação em conferência de imprensa.

Nicolas Sarkozy

Recebendo o “prémio da tolerância” do Centro Simon Wiesenthal, em 2003.

 

O seu artigo foi primeiro publicado pelo National Post, comprado em 2001 pela CanWest Global e actualmente dirigido Leonard e David Asper, ambos militantes libertarianos e sionistas. Os irmãos Asper distinguiram­‑se no Canadá acusando a televisão pública de adoptar uma posição anti­‑israelita. Seguidamente, o artigo de Taheri foi retomado pelo New York Post, um diário popular que pertence a Ruppert Murdoch.

 

Os nossos leitores recordam-se que o Centro Simon Wiesenthal, cujo comentário publicado com o artigo de Taheri confirma as imputações, distinguiu­‑se recentemente difamando o presidente Hugo Chavez [10]. De resto, entre duas trocas de correio com Nicolas Sarkozy, o centro organiza actualmente uma campanha para proibir o presidente Ahmadinedjad de se deslocar à Alemanha para assistir ao Campeonato do Mundo de Futebol.

 

A originalidade da operação consiste em fazer apelo a personalidades investidas da autoridade do Estado: Sean McCormack, John Howard, Stephen Harper. Cada um toma cuidado de deslizar no seu comentário precauções oratórias: «Se isso é verdadeiro». Contudo, é ingénuo crer que o departamento de Estado e chefes de governos possam ignorar aquilo a que se referem. Os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá seguem atentamente a vida política iraniana e os seus debates parlamentares. Diplomatas e analistas estudam cada documento e redigem permanentemente notas e relatórios. Em caso algum um longo debate parlamentar e uma lei desta importância teriam podido escapar à sua vigilância. A fórmula «Se isso é verdadeiro» permite retractar­‑se quando a informação é desmentida. Ela permite sobretudo exprimir-se no presente e não no condicional, de modo que extractos difundidos pela imprensa audiovisual pareçam afirmativos. A comparação escolhida pelos diversos comparsas é sempre a mesma: o regime nazi e o porte da estrela amarela. Não se impõe no entanto por ela mesma. O artigo de Amir Taheri teria podido evocar outras referências ao totalitarismo. Mas esta comparação é a única que vale para justificar o ataque ao Irão, ao qual Harper não deixa de fazer finalmente referência.

 

É de notar que as agências noticiosas, como habitualmente, retransmitiram a intoxicação e que a imprensa escrita se fez, por sua vez, eco. Não foram correspondentes de imprensa em Teerão que denunciaram a manipulação, mas comunicados de embaixadas e declarações de deputados que lhes puseram fim. Os jornais que se abstiveram não são necessariamente melhores que os outros. Não saíam no fim­‑de­‑semana e só trataram a informação na segunda-feira, quando a sua falsidade estava estabelecida. De resto, uma vez mais, a acusação de anti-semitismo mostrou a sua eficácia: ela está carregada de tal força emocional que os meios de comunicação social não se sentem na obrigação de a verificar antes de a repercutir.

 

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* Jornalista e escritor, presidente da Rede Voltaire.

 

[1] Amir Taheri, A colour code for Iran's infidels, National Post, 19 de Maio de 2006.

[2] «This is reminiscent of the Holocaust. Iran is moving closer and closer to the ideology of the nazis».

[3] «Dangerous Parallel: Is Iran turning into the new nazi Germany?»

[4] «I have seen the news reports. These have, I think, recycled over time. There is — as I understand it, there is a — some law currently in the parliament, the exact nature of which is unclear, so I’m not going to try to delve into giving a definitive comment or a detailed comment about something about which I don’t have all the facts. That said, if you did have such an occurrence, whether it was in Iran or elsewhere, it would certainly be despicable». Fonte: http://www.state.gov/r/pa/prs/dpb/2006/66517.htm.

[5] Como Bush, Howard é adepto do evangelismo dispencionalista. Para ele, o genocídio dos judeus é mais importante que todos os outros massacres da História no facto de golpear o “povo eleito” e marcar uma etapa do combate do Bem e do Mal prévio ao regresso glorioso de Cristo.

[6] Alusão a declarações mentirosamente atribuídas ao presidente Ahmadinedjad. Cf. Comment Reuters a participé à une campagne de propagande contre l’Iran, Voltaire, 14 de Novembro de 2005.

[7] «Well I hadn’t previously heard of that, but I’m very happy to give you a response. If that is true I would find that totally repugnant. It obviously echoes the most horrible period of genocide in the world’s history and the marking of Jewish people, with a mark on their clothing by the Nazi’s, and anything of that kind of would totally repugnant to civilised countries – if it’s the case – and something that would just further indicate to me the nature of this regime. It’s a calculated insult – If it’s true – not only to Christians, but most particularly to Jews, and therefore it has direct connotations for the State of Israel, that it’s been the object of hate speeches and speeches of vilification. Now if this is true, and I haven’t seen the reports, they must be very recent, or they must have been written in a language I don’t understand, but obviously if it is the case then you know my views and you can imagine what the response of other governments will be to such things. It would be appalling». Fonte: http://www.pm.gov.au/news/interviews/Interview1944.html.

[8] «You know I don’t know that I can add all that much. I’ve only seen the reports. Like Prime Minister Howard I’ll couch my answers with the beginning to say if they’re true. Unfortunately we’ve seen enough already from the Iranian regime to suggest that it is very capable of this kind of action. I think it boggles the mind that any regime on the face of the earth would want to do anything that could remind people of Nazi Germany. However you know we’ve seen a number of things from the Iranian regime that are along these lines and the fact that such a measure could even be contemplated, I think is absolutely abhorrent. And I would hope that, you know as our allies rest with the difficult issues surrounding Iran’s apparent desire to attain nuclear capacity, that they will reflect carefully on the nature of a regime that would even contemplate such actions or such».

[9] Sob o título provocante Iran oks nazi social fabric.

[10] Thierry Meyssan e Cyril Capdevielle, É necessário queimar Hugo Chávez?, Voltaire, 10 de Janeiro de 2006.