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09/03/2006 Como optimizar a propaganda? O gabinete de relações públicas Project Syndicate difundiu muito amplamente um texto do secretário da Defesa estadunidense, Donald Rumsfeld, apelando a uma reforma dos meios de propaganda de Washington. Tendo em conta a sua divulgação, este texto suscitou um grande número de comentários na imprensa internacional e pôs na ordem do dia a questão da guerra psicológica e da fabricação do consentimento. Mas, na imprensa ocidental mainstream, o debate não incidiu sobre os meios a pôr em prática para se opor a esta propaganda e distinguir o verdadeiro do falso. Este debate incidiu sobre os meios a pôr em prática para tornar esta propaganda mais eficaz! É um estranho espectáculo ver,
em meios de comunicação social que se vangloriam de independência, de
objectividade e tirando a sua legitimidade desta auto‑designação, um
debate sobre o melhor modo de influenciar a imprensa e a opinião. Uma tribuna
que emana de um membro importante de um governo apela à instrumentalização da
informação para servir interesses políticos, beneficia de uma audiência
mundial, pode ser lida pelos leitores do mundo inteiro sem que isso provoque
a mais mínima posta em causa da credibilidade das fontes oficiais estadunidenses
pelos meios de comunicação social dominantes. Como sempre para um texto difundido por Project Syndicate, a tribuna de Donald Rumsfeld beneficia de uma divulgação considerável. Encontramo-la publicada em Los Angeles Times (Estados Unidos), Korea Herald (Coreia do Sul), Le Figaro (França), Daily Star (Líbano), Jerusalem Post (Israel), El Tiempo (Colômbia), Die Welt (Alemanha) e La Libre Belgique (Bélgica), mas outras publicações devem ter‑nos escapado. Esta divulgação planetária toma no caso deste texto uma dimensão burlesca dado que o propósito de Donald Rumsfeld é essencialmente lamentar-se sobre a incapacidade dos Estados Unidos se fazerem entender. Assegura que os Estados Unidos e os seus aliados são sistematicamente desacreditados em certos meios de comunicação social manipulados pelos “terroristas” que, eles sim, efectivamente compreenderam o uso dos meios de comunicação social. Por exemplo, lamenta que se tenha falado mais das torturas contra os prisioneiros em Abu Ghraib do que das fossas comuns de Saddam Hussein, esquecendo deste modo a propaganda belicosa que precedeu o conflito. Lamenta igualmente que a divulgação de artigos favoráveis ao ocupante no Iraque graças aos meios do Lincoln Group tenha sido revelada e apresentada como uma “compra de informação”. Implicitamente, o secretário da Defesa assimila por conseguinte qualquer denúncia das manipulações mediáticas da sua administração ou dos crimes cometidos pelo exército estadunidense a uma acção favorável aos “terroristas”, ou mesmo a uma operação orquestrada por eles. O secretário da Defesa não
precisa quais os meios que o Pentágono ou a administração Bush porão em prática
para apoiar mediaticamente a guerra ao terrorismo. Podemos pois deduzir que o
principal interesse deste texto é apresentar uma visão maniqueísta do mundo
mediático que define qualquer crítica aos Estados Unidos como partidária do
terrorismo islamita. Desarma igualmente por antecipação toda a crítica em escândalos
futuros revelando as manipulações mediáticas do seu governo e apresentando-as
à partida como resultantes do interesse e da segurança do “mundo livre”. Por fim,
o autor insiste também bastante no facto de os meios a pôr em prática deverem
ser novos, o que necessita de novos créditos. Sem surpresa, o cronista do Los
Angeles Times e investigador do Council on Foreign Relations, Max Boot,
aplaude o investimento do Pentágono na propaganda. Lamenta em contrapartida
que o departamento de Estado não faça mais. Sublinha que Condoleezza Rice ocasionou
progressos na sua administração trazendo mais meios à «diplomacia pública» (o
termo politicamente correcto para designar a propaganda), nomeadamente no Médio
Oriente. Mas o autor considera que é possível fazer mais restaurando a US
Information Agency e dando‑lhe mais meios. Pede também, num
desconcertante acesso de sinceridade, uma reforma da USAID que a faça
assemelhar-se ao Ministério das Colónias britânico do tempo do império. O
autor, reclamando absolutamente a instauração de uma melhor propaganda, já não
esconde sequer a inspiração das acções militares estadunidenses. O decano da Faculdade de
Comunicação da Universidade de Boston, John J. Schulz, mostra-se por seu lado
muito mais crítico sobre a política de propaganda da administração Bush no Boston
Globe. No entanto, o que o choca, não é a intenção, são os meios postos
em prática e sobretudo o facto de Washington se desobrigar da estação de
rádio internacional oficial Voice of America (VOA), rádio da qual foi colaborador
durante 21 anos. Schulz sente‑se magoado pelo apelo à novidade de Donald
Rumsfeld. Para ele, de nada serve construir um novo instrumento de propaganda
à custa de milhões; a VOA é um instrumento eficaz e rentável que fez as suas
provas. Pelo contrário, os peritos actuais da administração Bush conduziram
apenas a despesas inconsideradas ou a novos escândalos. A imprensa árabe é, evidentemente, bem mais crítica. Soussan Al-abtah, universitária e jornalista libanesa, zomba em Asharq Al Awsat da queixa de Donald Rumsfeld. Ela recorda que não é a “Al Qaeda” que possui os meios de comunicação social e que também não é esta organização que propõe a jornalistas árabes que redijam artigos pró‑estadunidenses a troco de remuneração. A autora fala abertamente da corrupção dos jornalistas no seu artigo, um assunto tabu na imprensa ocidental embora se trate de uma prática comprovada historicamente. Considera que o texto de Rumsfeld é com efeito o sinal de que a administração Bush se encontra perante uma oposição interna cada vez mais importante e de que manchou a sua imagem no mundo árabe. Washington tem por conseguinte necessidade de remobilizar o seu bando e estigmatizar os seus adversários. O mesmo eco do lado de
Faissal Al‑azel, jornalista ba’asista sírio, em Rezgar, jornal
da esquerda laica árabe. O autor lança um apelo aos meios de comunicação
social árabes: os órgãos de imprensa devem remobilizar‑se e sobretudo
reformar-se eles também. Se o inimigo transforma os seus métodos de propaganda,
é necessário adaptar‑se. A propaganda tem um duplo objectivo: difundir informações favoráveis, mas também impedir a divulgação de informações embaraçosas. A administração Bush desenvolveu assim uma obsessão do segredo quanto às suas actividades, obsessão proporcional ao seu uso da mentira. Especializou‑se igualmente na descredibilização mediática dos seus adversários. O antigo representante democrata de Indiana, membro da comissão de inquérito sobre o Irangate e antigo vice‑presidente da comissão de inquérito sobre o 11 de Setembro, Lee H. Hamilton, denuncia a obsessão do segredo no Christian Science Monitor e apela a uma reforma dos métodos de classificação dos documentos oficiais. No entanto, as motivações do autor não são prioritariamente a informação dos cidadãos e a possibilidade de desenvolver um debate crítico a partir de documentos oficiais. Considera antes que esta classificação torna pesada a troca de informações entre as agências de informação dos EUA e que a sobrecarga de documentos “secretos” não permite controlá‑los todos e por conseguinte favorece as fugas. Assim, é em nome da eficácia dos órgãos policiais que defende uma redução dos processos de classificação. No Los Angeles Times, a analista neoconservadora do American Entreprise Institute, Danielle Pletka, denuncia a acção mediática da CIA que organiza fugas oportunas de documentos secretos para minar a acção da administração Bush. A autora recorda que a agência tem uma orientação política e que é necessário desconfiar do que difunde. Esta tribuna é apenas mais um episódio na guerra que opõe os neoconservadores a uma parte do pessoal da CIA. Estes, apoiando como princípio a política imperial estadunidense, mas opondo‑se aos alvos e aos métodos escolhidos pela administração Bush, organizaram toda uma série de fugas na imprensa que fragilizaram as posições da Casa Branca. A nomeação de Porter Goss à frente da CIA, depois de John Negroponte à frente de toda a informação estadunidense, visava purgar os serviços de informação estadunidenses destes elementos adversos. |