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21/03/2006 A guerra – OPA José Manuel Pureza Foi em nome da democracia, em
nome da segurança internacional, em nome da paz, em nome dos direitos humanos
que se perpetrou a guerra contra o Iraque, com o seu cortejo de crimes
ignóbeis em tudo idênticos aos do ditador deposto. E essa usurpação das
nossas melhores referências para impor a guerra foi, ela mesma, um crime de
lesa‑humanidade. Houve quem pensasse a guerra, houve quem a executasse
e houve quem a justificasse. Por mais que alguns agora se esforcem por
disfarçar, nós não o esquecemos. Há três anos, os editorialistas de serviço
desdobravam-se em acusações de cobardia contra todos os que ousavam pôr em
causa a certeza científica da existência de armas de destruição maciça no
Iraque. Há três anos atrás, os analistas encartados acusaram, do alto da sua
mais que obviamente certa visão do mundo, todos os que recusavam a guerra de
serem cúmplices objectivos do terrorismo e medrosos apaziguadores com as
novas barbáries hitlerianas. Há três anos atrás, houve quem fizesse questão
de ficar na fotografia da Cimeira das Lajes porque era evidente que a divisão
da Europa era um imperativo e não era menos evidente que o alinhamento com os
senhores da guerra era um desígnio nacional. Onde estão eles agora? Que
estranho silêncio sobre o Iraque é este de quem tão exuberantemente vexou os
adversários da invasão e da guerra como gente primária e de má fé,
complacente com todos os eixos de todos os males? Que pena tenho de não os
ver agora a comentar, com a mesma certeza e a mesma sobranceria, as imagens
da guerra tal como ela é de facto e que eles legitimaram com tanto zelo. Mas
percebo que não possam. O embaraço é grande demais. Ou talvez não. Ou talvez
seja só o facto de estarem agora ocupados a repetir, tintim por tintim, a
mesma estratégia de há três anos e a preparar a legitimação de novas guerras.
No Irão agora. Na Venezuela depois. E onde quer que seja preciso para que a
ordem imperial dos negócios não seja beliscada. Esta guerra é uma OPA sobre o
Direito Internacional e sobre uma ordem mundial de paz e de justiça. Os seus
promotores não querem menos do que eliminar a concorrência que as regras do
Direito e da decência fazem ao seu poder arrasador. É por isso que eles
espezinham as Convenções de Genebra e põem Guantánamo ou Abu Grahib no mapa
da nossa vergonha global. É por isso que eles descartam o imperativo jurídico
e moral da proibição da tortura e dão ao mundo prisões secretas e “técnicas
de interrogatório reforçadas”. É por isso que eles fazem a guerra em nome dos
direitos humanos e depois votam contra a criação do Conselho de Direitos
Humanos nas Nações Unidas. Tudo em nome da eficácia, pois claro. Nós os accionistas da empresa
fascinante da cidadania democrática, nós os sócios dessa sociedade imensa que
é a da democracia e dos direitos humanos declaramos esta OPA hostil. E, em
conformidade, resistir‑lhe‑emos. Fazemo‑lo serenos e
determinados. Tal como John Lennon, tudo o que dizemos é que dêem uma
oportunidade à paz. E, tal como ele, pomos neste apelo tão simples toda uma
ambição de mudanças profundas. É fundamental dar uma oportunidade à paz no
Iraque, com o fim da ocupação militar supervisionada pelas Nações Unidas como
condição para uma solução que preserve a unidade do Iraque, os direitos dos
seus povos e o respeito pelos direitos e liberdades individuais. É
fundamental dar uma oportunidade à paz no Iraque devolvendo ao seu povo a
condução efectiva dos seus destinos, a posse efectiva dos seus recursos
naturais e a fruição efectiva da sua história e da sua cultura. Nos antípodas da ambição
deste horizonte de paz, a guerra começada há três anos teve um único efeito
de dominó: o de potenciar outras guerras (passadas e futuras), de blindar as
dinâmicas de transformação social que, na região, criavam condições de
distensão e de maior pluralismo e o de pôr travão a uma paz negociada e justa
no nó górdio de todo o Médio Oriente: a Palestina. Não nos venham dizer, portanto, outra vez como há três anos, que apelar à paz no Iraque é ambíguo, fácil ou cobarde. Talvez um dia percebam que o fanatismo da guerra é que é cobarde e que é em nome da cultura da paz e da vida em abundância para todos, e sobretudo para as vítimas de todas as opressões, que pedimos que dêem uma oportunidade à paz. |