Informação Alternativa

Mundo

07/03/2006

 

O ruidoso silêncio da mídia

 

Marco Aurélio Weissheimer

Agência Carta Maior

 

No início do século XXI, a fome continua a ser um flagelo no mundo. E continua a ser tratada como uma fatalidade da natureza ou como um problema que, no fundo, não atrapalha o funcionamento da economia. Os mercados e as bolsas de valores não sofrem qualquer abalo com a divulgação de novas estatísticas sobre o número de pessoas que passa fome, morre de inanição ou vive eternamente abaixo da linha da pobreza. A sociedade de um modo geral já se acostumou a essas estatísticas e toma conhecimento das mesmas, pela mídia, com um ar anestesiado.

 

A comunidade internacional realiza encontros e conferências para debater o problema, produz declarações e estabelece metas que, na esmagadora maioria dos casos, não são cumpridas. O que explica o não cumprimento dessas metas pelos governos? Falta de recursos? Falta de vontade política? O que explica a passividade que acompanha esse não cumprimento de compromissos firmados? Talvez devamos pensar numa hipótese mais sinistra: que tais metas não são cumpridas porque, de facto, não interessa nem um pouco aos donos do mundo acabar com a fome.

 

A II Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, que está a ser realizada em Porto Alegre, representa, entre outras coisas, uma oportunidade para reflectir sobre esse tema. Representantes de mais de 80 governos estão presentes, juntamente com professores universitários, técnicos, operadores de políticas públicas e representantes de movimentos sociais. Todos defendem a reforma agrária como uma política indispensável, a nível global, para atacar os problemas da fome e da miséria.

 

Não faltam diagnósticos e estudos técnicos para embasar essa posição e justificar a sua importância. Mas parece que falta algo. Um algo cuja ausência ajuda a explicar a progressiva deterioração dos laços sociais no mundo e a igualmente progressiva destruição dos recursos naturais do planeta.

 

RECURSOS NATURAIS, TERRITÓRIO E PODER

 

No final do século XX, a comunidade internacional de nações, reunida na Cúpula do Milénio, chegou a um consenso sobre oito Objetivos de Desenvolvimento para o Milénio, que deveriam ser assumidos como prioridades pelos governos signatários. O objectivo número um é justamente a erradicação da fome e da pobreza extrema. O objectivo número oito é criar uma rede mundial para o desenvolvimento.

 

A luta contra a concentração da terra e contra a crescente privatização do acesso aos recursos naturais é uma condição indispensável para a realização destes objetivos. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), dos 1,1 mil milhões de seres humanos extremamente pobres, cerca de 75% vive em áreas rurais e depende da terra e da água para sobreviver.

 

Pois bem, o crescimento da disparidade entre ricos e pobres no mundo está directamente relacionado com o tema do acesso a esses recursos básicos. Terra, água e ar compõem, concretamente, o que se costuma chamar de território. Quem detém o poder no mundo hoje, trabalha diariamente para manter e ampliar o seu controle de territórios; por conseguinte, para ter cada vez maior controle sobre os recursos naturais.

 

Propor a sério a erradicação da fome e da pobreza significa propor a reordenação actual dos territórios. Ou seja, significa mexer profundamente na actual estrutura de poder. Não é à toa, portanto, que uma agenda como a da reforma agrária cause tanto desconforto para os donos do poder. Trata­‑se, justamente, de questionar um dos pilares do seu sistema de poder.

 

UM SILÊNCIO DELIBERADO E ESTRATÉGICO

 

O tratamento que os grandes grupos midiáticos dão ao tema é extremamente revelador acerca da natureza deste incómodo. O silêncio midiático que cobre os debates que estão a ser realizados em Porto Alegre ajuda a entender uma das razões centrais pelas quais o enfrentamento das causas do problema da fome e da pobreza não consegue sair, na maioria das vezes, do plano puramente retórico. É um silêncio deliberado e estratégico, que expressa um elemento virtual que também é constitutivo da ideia de território.

 

A conferência de Porto Alegre ocorre 27 anos depois do primeiro encontro global sobre o tema, realizado pela FAO, em 1979, vinte anos antes da Cúpula do Milénio, portanto. Naquele ano, a FAO alertou o mundo sobre o drama da fome e sobre o peso da pobreza no meio rural. O encontro foi maior do que este que ocorre agora na capital gaúcha, reunindo delegados de 145 países, quatro chefes de Estado e 89 ministros. No final, adoptou por unanimidade a Declaração de Princípios e Programas de Acção, que ficou conhecida como a “Carta do Camponês”.

 

Um dos seus princípios básicos afirmava: «o objectivo principal da reforma agrária e do desenvolvimento rural deve ser o de melhorar a qualidade de vida de todos, em particular a dos pobres que vivem em zonas rurais. O desenvolvimento económico, por si mesmo, não é suficiente, devendo sustentar-se sobre princípios de justiça e com a participação das comunidades».

 

Vinte anos se passaram e a “Carta do Camponês” permanece um projecto no papel. Mais grave do que isso: muitos dos problemas apontados em 1979 agravaram­‑se e surgiram outros novos, como a devastação que o vírus HIV causa na África e em outras regiões do planeta. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, degradação dos solos, do ar e da água, deterioração da vida nas cidades com elevação crescente da violência urbana: todos esses problemas estão relacionados com os temas da reforma agrária e do desenvolvimento rural. Todos esses problemas frequentam diariamente, de modo fragmentado e disperso, os noticiários da mídia. No entanto, uma conferência internacional sobre o tema é tratada com silêncio ou, no melhor (?) dos casos, com uma cobertura caricatural.

 

Interessa apenas explorar ao máximo as diferenças que existem entre aqueles que têm algum grau de comprometimento com a agenda da reforma agrária. No caso brasileiro, entre os movimentos sociais e os agentes do governo federal responsáveis pela implementação das políticas de reforma agrária. Quanto mais visíveis e agudas se tornarem essas diferenças (que, muitas vezes, mais se parecem com picuinhas), melhor. Essa parece ser a directriz geral. O conteúdo dos debates da conferência não merece uma linha sequer. E não merece, não por esquecimento ou distracção de pauteiros e editores. Não merece porque não interessa ao sistema de poder discutir seriamente tais questões.

 

E isso é assim porque a informação também passou a integrar o conceito de território. O seu controle, portanto, é uma condição indispensável para a manutenção do controle do território e do poder. Os conflitos relacionados com a disputa pelo acesso à terra e à água, apenas para citar esses dois recursos, tornam­‑se também conflitos relacionados com o controle da informação. E este último controle torna-se assim uma condição estratégica para a manutenção dos outros tipos de controle.

 

Assim, o silêncio midiático em torno dos debates da conferência de Porto Alegre é de um tipo extremamente ruidoso por revelar, de maneira exemplar, a íntima relação existente entre o controle dos recursos naturais e o da informação. Ignorar isso é o caminho mais curto para, daqui a 20 anos talvez, acompanhar a repetição do mesmo fenómeno numa eventual terceira conferência mundial sobre reforma agrária e desenvolvimento rural.